HISTÓRIA SAGRADA

Do Antigo ao Novo Testamento

Frei Bruno Heuser OFM


Parte I - DESDE A CRIAÇÃO DO MUNDO ATÉ ABRAÃO.

1. Criação do mundo

2. Os Anjos

3. Criação do homem

4. Pecado dos primeiros homens

5. Caim e Abel

6. O Dilúvio

7. Sacrifício de Noé. Filhos de Noé.

8. A Torre de Babel

Parte II - DESDE ABRAÃO ATÉ MOISÉS

9. Vocação de Abraão

10. Gênio pacífico e generosidade de Abrão. Sacrifício de Melquisedec.

11. A aliança de Deus com Abrão

12. Hospitalidade de Abraão. Sua intercessão

13. Destruição de Sodoma e Gomorra

14. A prova de Abraão

15. Casamento de Isaac. Morte de Abraão

16. Esaú e Jacó

17. Fuga de Jacó para a Mesopotâmia

18. Volta de Jacó. Morte de Isaac

19. José é vendido por seus irmãos

20. José em casa de Putifar e na prisão.

21. José na corte do Faraó

22. Primeira viagem dos irmãos de José ao Egito

23. Segunda viagem dos irmãos de José ao Egito

24. Viagem de Jacó para o Egito. Morte de Jacó e José

25. O santo homem Jó

PARTE III - O TEMPO DE MOISÉS

26. Nascimento e salvação de Moisés

27. Vocação de Moisés

28. As dez pragas do Egito

29. O cordeiro pascal e a saída do Egito

30. A passagem do Mar Vermelho

31. Os milagres do deserto

32. Promulgação dos dez mandamentos

33. O bezerro de ouro

34. O tabernáculo

35. Sacerdotes e levitas

36. Os sacrifícios

37. O sábado, as festas e o tempo sacrificado

38. Os exploradores

39. Castigos de Deus no deserto. Vara de Arão

40. O Profeta Balaão

41. Últimas exortações e morte de Moisés

PARTE IV - O  TEMPO DE JOSUÉ E DOS JUÍZES DESDE A ENTRADA NA TERRA PROMETIDA ATÉ SAUL

42. A entrada de Josué na terra prometida

43. Os juízes. Gedeão

44. Sansão

45. Rute

46. Eli e Samuel

PARTE V - O TEMPO DOS REIS. DESDE SAUL ATÉ A DIVISÃO DO REINO DE ISRAEL

47. Saul, primeiro rei de Israel

48. Reprovação de Saul. Eleição de Davi

49. Davi vence a Golias

50. Ódio de Saul. Magnanimidade de Davi

51. Morte de Saul. Princípio do Reinado de Davi

52. Davi, o rei piedoso

53. Crime e arrependimento de Davi

54. Revolta e castigo de Absalão

55. Profecias de Davi sobre o Redentor

56. Últimas exortações de Davi. Sua morte

57. Oração e sabedoria de Salomão.

58. Construção e dedicação do templo

59. Glória e morte de Salomão

60. Divisão do reino

PARTE VI - DESDE A DIVISÃO DO REINO ATÉ AO CATIVEIRO DE BABILÔNIA

A - O REINO DE ISRAEL

61. Jeroboão

62. O profeta Elias

63. O sacrifício de Elias

64. Aparição de Deus no monte Horebe

65. A vinha de Nabot

66. Elevação de Elias ao céu

67. Milagres de Eliseu

68. O Profeta Jonas

69. O fim do reino de Israel

70. O piedoso Tobias

71. Viagem de Tobias, o moço

B. - O REINO DE JUDÁ

72. O rei roboão e seus sucessores

73. O profeta Isaías

74. Judite

75. O profeta Jeremias

PARTE VII - DO CATIVEIRO DE BABILÔNIA ATÉ A VINDA DO SALVADOR

76. O profeta Ezequiel

77. Daniel e seus amigos

78. A casta Suzana

79. Sonho de Nabucodonosor

80. Os três jovens na fornalha ardente

81. O ímpio Rei Baltazar

82. O ídolo Belo e o dragão

83. Daniel na cova dos leões

84. Profecias de Daniel

85. Os judeus voltam do cativeiro

86. Ester

87. Heliodoro tenta roubar o tesouro do templo - Martírio de Eleazar

88. Martírio dos irmãos macabeus

89. O sacerdote Matatias. Morte de Antíoco

90. Judas Macabeu

91. Últimos tempos antes de Cristo


Antigo Testamento

Parte I - DESDE A CRIAÇÃO DO MUNDO ATÉ ABRAÃO.

1. Criação do mundo

1. Deus faz o mundo do nada. - No princípio, Deus criou o céu e a terra. A terra, porém, estava informe e vazia; trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas.

2. A obra dos seis dias. - Disse Deus: "Faça-se a luz!" E a luz foi feita. Deus chamou à luz de dia e às trevas noite. Houve tarde e manhã - foi este o primeiro dia. Disse Deus: "Apareça o firmamento que separe as águas das águas!" E assim se fez. Deus chamou ao firmamento céu. Foi este o segundo dia. Disse Deus: "As águas que estão debaixo do céu se reúnam num só lugar e apareça a superfície enxuta terra e às águas reunidas deu o nome de mar. Disse Deus: "Produza a terra ervas, plantas e árvores frutíferas!" E assim se fez. Foi este o terceiro dia. Disse Deus: "Haja luzeiros no firmamento!" Assim se fez. Deus, portanto, formou o sol, a lua, as estrelas e colocou-os no firmamento para darem luz à terra e indicarem o tempo. Foi este o quarto dia. Disse ainda Deus: "Haja peixes na água e pássaros no ar!" No mesmo instante apareceram peixes e tudo quanto vive nas águas e também pássaros de diferentes espécies. Deus os abençoou e disse: "Crescei e multiplicai-vos!" Foi este o quinto dia. Enfim, disse Deus: "Produza a terra animais quadrúpedes e répteis!" E assim se fez. Em último lugar, Deus criou o homem. Foi este o sexto dia. Contemplando todas as criaturas, verificou que eram do seu agrado.

3. Deus instituiu o sábado. - No sétimo dia, Deus descansou de toda sua obra. Abençoou e santificou este dia.

2. Os Anjos

1. Deus cria os anjos. - Deus criou também, num mundo invisível, inumeráveis espíritos, chamados anjos. Dotou-os de excelentes dons naturais, pelos quais se tornaram muito superiores aos homens em perfeição; além disso, concedeu-lhes a graça santificante, que os fazia resplandecer em sobrenatural beleza e dignidade.

2. Deus submete os anjos à prova. - Todos os anjos, a princípio, eram bons e felizes. Como seres livres, capazes de praticar o bem e o mal, tiveram que passar por uma provação, para deste modo merecer a felicidade celeste. Muitos, porém, guiados por Lúcifer, não quiseram obedecer;  pecaram, rebelando-se contra Deus. Houve então um grande combate. Miguel, à frente dos anjos fiéis, pelejou contra os rebeldes, que foram vencidos e precipitados no fogo do inferno. São os demônios ou espíritos maus.

3. Espíritos maus e espíritos bons. - Os demônios, vendo-se para sempre expulsos do céu, odeiam e invejam os homens. Procuram causar-lhes mal ao corpo e à alma, a fim de arrastá-los à desgraça eterna. Deus confirmou no bem os anjos fiéis, de modo que já não podem pecar, e os recompensou com a felicidade eterna; são eles amigos dos homens; por isso os protegem no corpo e na alma, roga por eles e os exortam a praticar o bem. Cada homem tem um anjo bom que o protege e o acompanha sempre: é o anjo da guarda.

3. Criação do homem

1. Deus cria Adão. - Quando Deus quis criar o homem, disse: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança! Dominará sobre os peixes do mar, sobre os pássaros do céu, sobre todos os animais e sobre toda terra!" Em seguida criou o homem à sua imagem, isto é, à imagem de Deus; formou do barro um corpo humano e soprou-lhe no rosto o espírito da vida. Ao primeiro homem deu o nome de Adão, que significa: homem de barro.

2. Deus coloca Adão no paraíso e dá-lhe um preceito. - Deus tinha plantado um jardim de delícias, o paraíso. Fez crescer nele árvores de diversas espécies, belíssimas à vista e cujos frutos eram de agradável sabor. No meio do paraíso, destacavam-se duas árvores: a árvore da vida e a árvore da ciência do bem e do mal. Deus entregou ao homem esse formoso jardim para cultivar e guardar, e disse-lhe: "Podes comer os frutos de todas as árvores do jardim; só não comas do da árvore da ciência do bem e do mal; no dia em que comeres, morrerás!"

3. Deus cria Eva. - Depois disse Deus: "Não é bom que o homem fique só; façamos-lhe uma companheira semelhante a ele!" Mandou vir todos os animais à presença de Adão, para que lhe desse o nome. Este deu a cada um o nome conveniente, mas não encontrou auxiliar que lhe fosse semelhante. Fez então Deus com que Adão caísse em profundo sono; tomando-lhe uma das costelas, dela formou a mulher. Acordando Adão, Deus apresentou-lhe a mulher; e vendo-a, ele exclamou: "Eis o osso dos meus ossos e a carne de minha carne!" Adão deu à mulher o nome de Eva, que quer dizer: mãe de todos os viventes. Abençoou-os. Deus disse: "Crescei e multiplicai-vos, povoai a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre todos os animais e sobre toda terra!"

4. Os primeiros homens são felizes. - Os primeiros homens viviam muito felizes no paraíso, eram justos e santos, não conheciam incômodos nem sofrimentos. O fruto da árvore da vida preservava-os também da morte; andavam despidos e não se envergonhavam.

4. Pecado dos primeiros homens

1. Adão e Eva pecam. - O demônio invejava a felicidade dos homens e serviu-se da serpente para seduzir. A serpente, que era o mais astuto de todos os animais da terra, disse à Eva: “Por que vos proibiu Deus que comêsseis das frutas do paraíso?” Eva respondeu: “Podemos comer de todas; só da árvore que está no meio do paraíso que Deus ordenou que não comêssemos, nem nela tocássemos, senão morreríamos”. A serpente replicou: “De modo algum morrereis, e Deus sabe muito bem disso; ao contrário se dela comerdes, abrir-se-ão vossos olhos, sereis iguais a Deus, conhecereis o bem e o mal”. Achou então Eva que uma fruta tão bonita e atraente à vista também devia ser saborosa; colhendo uma, comeu-a. Em seguida, ofereceu-a ao marido, que se achava perto e que, para lhe ser agradável, também comeu. Logo se lhes abriu os olhos; conheceram que estavam nus e, para se cobrirem, fizeram tangas de folhas de figueira.

 2. Deus castiga o pecado. - Quando ouviram a voz de Deus, esconderam-se debaixo das árvores do paraíso. Deus, porém, chamou: “Adão, onde estás?” Adão, tremendo, respondeu: “Ouvindo a voz do meu Senhor, tive medo, porque estava nu, e fui me esconder”. Observou-lhe Deus: “Quem te disse que estavas nu? Comestes da árvore proibida!” Adão replicou: “A mulher que me destes por companheira me ofereceu e eu comi”. Então disse Deus a Eva: “Por que fizestes isso?” Eva respondeu: “Foi a serpente que me enganou”. Deus amaldiçoou a serpente, dizendo: “Porque assim procedentes, serás maldita entre todos os animais! Andarás de rasto teu peito e comerás o pó da terra em todos os dias de tua vida. Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela; ela te esmagará a cabeça e tu procurarás mordê-la no calcanhar”. Depois disse Deus a Eva: "Sofrerás muito por causa de teus filhos e ficarás debaixo da autoridade do marido!". Enfim, dirigindo-se a Adão, disse: "Porque preferiste obedecer à voz de tua mulher, seja a terra maldita por tua causa e produza doravante espinhos e abrolhos! Comerás o pão ganho com o suor de teu rosto, até que voltes à terra donde foste tirado, pois és pó e em pó te hás de tornar!". Após esta sentença, Deus fez túnicas de peles para Adão e Eva e, assim vestidos, os expulsou do paraíso, a fim de cultivarem a terra. À porta do paraíso colocou querubins com espadas flamejantes, para que impedissem o caminho da árvore da vida.

5. Caim e Abel

1. Caim e Abel ofereceram sacrifícios. - Adão e Eva tiveram muitos filhos e filhas. O primeiro chamava-se Caim; o segundo Abel. Caim era lavrador; Abel, pastor; as obras de Caim eram más; as de Abel, justas. Certo dia, ambos ofereceram um sacrifício ao Senhor; Caim ofereceu frutos da terra. Abel, as melhores ovelhas do seu rebanho. Deus agradou-se de Abel e de seu sacrifício, mas não lhe agradaram Caim e sua oferta.

2. Caim mata seu irmão Abel. - Por causa desta preferência, Caim ficou tão indignado que o semblante se tornou abatido. Deus repreendeu-o e disse-lhe: “Por que te irritas e por que razão teu semblante está abatido? Se praticares o bem, serás recompensado; mas se fizeres o mal, sem demora o castigo te baterá à porta; vence essa inclinação para o mal e domina-te!”. Mas Caim não atendeu à palavra do Senhor e continuou a guardar rancor no coração contra seu irmão. Um dia disse-lhe: “Vamos passear junto pelo campo?” Quando ficaram sós, Caim atirou-se sobre o irmão e o matou.

3. Deus castiga Caim. - Então perguntou Deus a Caim: “Onde está teu irmão Abel?” Caim respondeu: “Não sei; sou eu, porventura, o guarda de meu irmão? O sangue de teu irmão clama por mim, pedindo vingança. Serás amaldiçoado sobre a terra que bebeu o sangue de teu irmão; se cultivares, negar-te-á colheita, viverás errante e fugitivo sobre a terra”. Caim disse ao Senhor: “Meu crime é tão grande que não posso alcançar perdão, irei esconder-me da vossa presença e quem me encontrar matar-me-á”. O Senhor respondeu: “De forma alguma isto vai acontecer; ao contrário, quem matar a Caim será punido sete vezes!” Pôs-lhe Deus um sinal, para que ninguém o matasse: e Caim,desesperado, fugiu da presença de Deus e viveu errante e fugitivo sobre a terra.

4. Filhos de Deus e dos homens. - Em lugar de Abel, Deus concedeu a Adão e Eva outro filho, muito piedoso, chamado Set. Os descendentes de Set conservaram-se fiéis a Deus e foram chamados filhos de Deus; a estes pertencia Henoc; ele vivia com Deus e foi levado da terra sem sofrer a morte. Os descendentes de Caim tornaram-se maus e, por isso, receberam o nome de filhos dos homens. Deus concedeu aos homens longevidade. Adão alcançou a idade de 930 anos, durante 56 dos quais conviveu com o pai de Noé. O homem mais idoso foi Matusalém: tinha 969 anos quando faleceu.

6. O Dilúvio

1. Deus decreta o dilúvio. - Os filhos de Deus se aliaram aos filhos dos homens. Daí se enfraqueceu mais e mais a piedade e a corrupção tornou-se geral. Deus se arrependeu, então, de ter criado o Homem e disse: “Meu espírito não permanecerá para sempre no homem, que é carne. Ainda por 120 anos se estenderão os dias e hei de exterminá-lo da face da terra”.

2. Noé constrói a arca. - Noé, porém, varão justo e piedoso, achou agrado perante o Senhor. Tinha três filhos: Set, Cam e Jafet. Deus disse-lhe: “Constrói uma arca de madeiras aplainadas com 300 côvados de comprimento, 50 de largura e 30 de altura; unte-a com breu por dentro e por fora. Na parte superior da arca farás uma janela e do lado uma porta; ela deverá ter interiormente três andares e muitos compartimentos pequenos. Sabe, mandarei um dilúvio que destruirá tudo o que vive sobre a terra. Contigo porém farei aliança: entrarás na arca com todos os teus”. Noé confiou na palavra de Deus e fez tudo o que ele tinha ordenado. Trabalhou cem anos na construção da arca, durante os quais pregava penitência. Os homens porém não entenderam a exortação; comiam, bebiam e celebravam casamentos.

3. Deus manda o dilúvio. - quando chegou o momento do dilúvio, disse o senhor a Noé: “Daqui a 7 dias farei chover 40 dias e 40 noites. Entra, pois, na arca com tua mulher, teus três filhos e suas esposas. Leva contigo, também, alguns casais de cada espécie de animais, com os mantimentos necessários”. Noé que já tinha a idade de 600 anos, cumpriu as ordens de Deus. Depois de terem todos penetrado na arca, Deus fechou-a por fora. Romperam-se, em seguida, todas as fontes do abismo; abriram-se as cataratas do céu e choveu torrencialmente durante 40 dias e 40 noites. As águas subiram cada vez mais esse e levaram até 15 côvados acima das mais altas montanhas. Pereceram nas águas todos os homens e todos os animais que não estavam na arca; esta, entretanto, se balançava tranquila sobre as ondas.

4. Noé sai da arca. - Durante 150 dias, as águas cobriram a terra. No fim deste tempo, Deus lembrou-se dos que estavam na arca; fez soprar um vento quente sobre a terra e as águas foram baixando pouco a pouco. No sétimo mês a arca pousou sobre um monte de Armênia; e no décimo apareceram de novo os cimos das montanhas. Decorridos mas 40 dias, Noé abriu a janela da arca e soltou um corvo, que não voltou; em seguida, fez sair uma pomba, que não encontrando onde pousar, tornou a entrar na arca; sete dias depois, deixou fugir novamente uma pomba; ela voltou à tarde, trazendo no bico um ramo de oliveira, cuja as folhas já estavam verdes. Reconheceu Noé, por este sinal, que as águas já tinham escoado; esperou, todavia, mais 7 dias e soltou outra pomba, que não regressou. Então disse Deus a Noé: “Sai da arca com os teus e com todos os animais”. Noé saiu, depois de ter habitado em um ano inteiro na arca.

7. Sacrifício de Noé. Filhos de Noé.

1. Noé oferece um sacrifício. - Ao sair da arca, Noé, cheio de gratidão, perdeu um altar e ofereceu a Deus um sacrifício. O senhor aceitou-o com prazer e disse: “Nunca mais amaldiçoarei a terra por causa dos homens; pois os pensamentos e as inclinações de seu coração vão para o mal desde sua juventude”. Depois abençoou a Noé e seus filhos, dizendo: “Crescei, multiplicai-vos e enchei a terra! Faço hoje a minha aliança convosco e com vossa descendência; nunca mais um dilúvio devastar a terra. Eis o sinal da aliança: Quando Eu tiver coberto o céu de nuvens, aparecerá um arco; e, vendo-o, lembrar-me-ei da Aliança que mantenho convosco”.

2. Os filhos de Noé. - Noé, que era um lavrador, começou a cultivar a terra. Plantou uma vinha e espremendo os frutos, bebeu o suco; não conhecendo ainda a força do vinho, embriagou-se e adormeceu. Enquanto dormia em sua tenda, sucedeu ficar descomposto. Cam, pai de Canaã, correu a comunicar o fato a seus dois irmãos. Sem e Jafet, porém, tomaram um manto e, andando de costas, cobriram o pai, sem olharem para ele. Quando Noé, ao despertar, soube da ação de seus filhos, disse: “Maldito seja Cam, ele será escravo dos escravos de seus irmãos! Bendito seja o Senhor Deus de Sem! Dilate a descendência de Jafet e a faça morar nas tendas de Sem!” Noé viveu ainda 350 anos depois do dilúvio; e morreu na idade de 950 anos.

8. A Torre de Babel

1. Os homens querem construir uma altíssima torre. - Os descendentes dos filhos de Noé tornaram-se muito numerosos. Viviam juntos durante longo tempo a planície de Senaar, ao sul da Mesopotâmia; falavam todos o mesmo idioma. Afinal, porém, era forçoso separarem-se e dispersaram uns aos outros: “Vinde edifiquemos uma cidade e nela uma torre cujo cimo se eleve até ao céu! Façamos célebre nosso nome, antes que nos espalhemos por toda a terra”. Fabricaram então tijolos e começaram a construção. A Deus, porém, não agradou essa obra e, quando a torre já se erguia a uma grande altura, disse: “Confundamos-lhes de tal maneira a linguagem que não se entendam mais uns aos outros!” Assim se fez e os homens se viram obrigados a desistir da construção da cidade e da torre. A cidade teve o nome de Babel, que significa: confusão.

2. A idolatria. - Assim os homens se dispersaram pela terra; e pouco a pouco se foram esquecendo do único e verdadeiro Deus,  tornando-se idólatras. Adoravam o sol, a lua e as estrelas, adoravam mesmo homens, animais estátuas feitas por suas mãos. Nos sacrifícios também cometiam crimes aviltantes, muitas vezes ofereciam aos ídolos vítimas humanas, principalmente crianças inocentes. Entre estes ímpios vivia um homem bom e justo, de nome Abrão; Deus escolheu-o para conservar e propagar por ele, assim como por seus descendentes, a verdadeira fé e a esperança na vinda do Salvador prometido.

Parte II - DESDE ABRAÃO ATÉ MOISÉS

9. Vocação de Abraão

1. Deus ordena Abraão sair da sua pátria e faz-lhe promessas. - Abraão era descendente de Sem, filho mais velho de Noé; seu pai chamava-se Tará e seus irmãos Nacor e Arão. O último era pai de Lot. Abrão morava em Ur, da Caldéia, no meio de um povo idólatra, mas conservou-se fiel a Deus. O senhor apareceu-lhe e disse: “Sai de tua Pátria, de tua parentela, na casa de teu pai e vai para a terra que eu te mostrarei. Eu te farei pai de um grande povo: abençoar-te-ei e em ti serão abençoadas todas as nações da terra”.

2. Abrão obedece às ordens de Deus. - Abraão partiu imediatamente sem conhecer o lugar para onde Deus o queria conduzir. Foi para cidade de Harã, onde residiu durante 5 anos. Deus o conduziu depois para Canaã, o país que, em razão de sua fertilidade, era chamado “terra em que corria leite e mel”. Abraão tinha 75 anos quando lá chegou, acompanhado de sua mulher Sarai, seu sobrinho Lot, seus servos e seus rebanhos. Atravessou o país até Siquém e ali mesmo erigiu um altar ao Senhor. Deus apareceu-lhe de novo e disse: “Eis a terra que darei aos teus descendentes”. Abraão fixou residência perto de Betel, onde levantou também um altar ao Senhor.

10. Gênio pacífico e generosidade de Abrão. Sacrifício de Melquisedec.

1. Gênio pacífico de Abrão. - Abraão era muito rico; possuía muitos rebanhos e tinha ouro e prata em abundância. Lot também era senhor de muitos rebanhos. Os pastos, em breve, não bastaram para os rebanhos de ambos e travaram-se contendas entre os pastores de Abraão e Lot. Então disse Abrão ao sobrinho: “Não haja contendas entre mim e ti, nem entre meus e teus pastores, visto sermos irmãos; rogo que te separes de mim. Se fores para esquerda, seguirei para a direita; e se preferires a direita, irei para a esquerda”. Lot escolheu a região do Jordão que era formosa e fértil como o paraíso. Despediu-se de Abrão e foi habitar em Sodoma, cujos moradores, porém, eram muito maus e pecadores perante o Senhor. Depois que Lot se tinha separado Deus disse a Abrão: “Toda esta terra que vês, eu te darei a ti e a teus descendentes. Multiplicarei tua descendência tornando-a tão numerosa como pó da terra”. Abrão veio depois para Hebron, no vale de Mambré, onde ergueu um altar ao Senhor.

2. Melquisedec oferece em sacrifício pão e vinho. - Algum tempo depois, quatro reis estrangeiros invadiram aquele país, saquearam as cidades de Sodoma e Gomorra, levando entre os prisioneiros Lot com todos os seus haveres. Abrão, ao ter notícia do ocorrido, seguiu imediatamente, com 318 de seus criados, ao encalço daqueles reis, surpreendendo-os a noite e, destroçando seus guerreiros, retomou deles os espólios e libertou  Lot e os demais prisioneiros. Quando Abrão voltava do combate, foi ao seu encontro Melquisedec, rei de Salém. Este ofereceu, em sacrifício de ação de graças, pão e vinho; pois era sacerdote do Altíssimo. Abençoou a Abrão e disse: “Bendito seja Abrão pelo Deus onipotente que criou o céu e a terra! Louvado seja Deus, o Altíssimo, que entregou os inimigos em tuas mãos!” Abrão deu-lhe a dízima dos espólios que fizera.

3. Generosidade de Abraão. - O rei de Sodoma agradecido pelo ato generoso de Abrão, disse-lhe: “Entrega-me as pessoas que libertaste e fica com tudo o mais que tomaste ao inimigo!”. Abraão respondeu: “Levanto minha mão para o Senhor, o Deus altíssimo; nada aceitarei de ti, nem sequer um fio de linho, nem um cordel de sapato. Não poderás nunca dizer: Por minha causa Abrão enriqueceu. Mas os homens que saíram comigo podem tomar a parte que lhes pertence”.

11. A aliança de Deus com Abrão

1. Deus recompensa a fé de Abrão. - Deus disse a Abrão: “Nada temas, Abrão; eu sou o teu protetor e enorme será tua recompensa”. Abraão replicou: “Senhor Deus, que me dareis? Morrerei sem filhos”. Em seguida o fez Deus sair de sua tenda e disse-lhe: “Levanta os olhos ao céu, e conte as estrelas, se podes! Tão numerosa será a tua descendência!” Abrão Acreditou nas palavras de Deus e Deus levou em conta a Fé de Abrão.

2. Deus estabelece sua aliança com Abrão. - Quando Abraão tinha 99 anos, apareceu-lhe novamente o Senhor e disse: “Eu sou o Deus onipotente, anda em minha presença e se perfeito!” Abraão prostrou-se com o rosto em terra e Deus lhe disse: “Daqui em diante teu nome não será mais Abrão, grande pai, mas Abraão, pai de muitas gerações. Estabeleço uma aliança entre mim e ti, estarei contigo e com tua descendência, mas haveis de servir unicamente a mim, vosso Deus! Em sinal desta aliança, circuncidareis todos os meninos, 8 dias depois do nascimento”.

3. Deus anuncia o nascimento de Isaac. - Deus disse ainda Abraão: “Doravante não chamará mais tua mulher Sarai, minha senhora, mas Sara, princesa; pois dela descenderão nações e reis de povos. Dentro de um ano dar-te-á um filho a quem chamarás Isaac!”

12. Hospitalidade de Abraão. Sua intercessão

1. Hospitalidade de Abraão. - Certo dia, Abraão estava sentado diante de sua tenda, à sombra de uma árvore, e era meio dia. Levantando os olhos, viu perto de si três homens. Pressuroso, foi-lhes ao encontro e, inclinando-se respeitosamente, disse: “Se obtive mercê diante de vossos olhos, entrarei na tenda de vosso servo! Descansai à sombra desta árvore, trarei também pão para vos confortar. Depois podereis seguir nosso caminho!” Eles responderam: “Faze como disseste!” Abraão entrou para o interior da tenda e disse a Sara: “Toma depressa farinha de trigo, prepara bolos para assar nas brasas!” E ele mesmo correu à manada, tomou o melhor novilho entregou a um servo a fim de que o preparasse. Em primeiro lugar, serviu-lhes manteiga e leite e, depois, o pão e o vitelo assado. Enquanto comiam, Abraão conservava em pé, para servi-los.

2. Abraão intercede por Sodoma. - Acabada a refeição, os viajantes tomaram a estrada de Sodoma. Abraão acompanhou-os em uma parte do caminho. Dois deles seguiram adiante. O Senhor permaneceu com Abraão e disse: “Os pecados de Sodoma e Gomorra tornaram-se gravíssimos e clamam por vingança”. Entrementes, os dois anjos se afastaram na direção de Sodoma. Abraão, compadecido aproximou-se e disse ao Senhor: “Castigareis o justo com o ímpio? Se houver em Sodoma 50 justos, não perdoareis a cidade, por seu amor?” Respondeu o Senhor: “Se encontrar em Sodoma 50 justos, pouparei toda a cidade em tua atenção”. Abraão continuou: “Uma vez que comecei, falarei a meu Senhor, apesar de ser pó e cinza; acaso, se faltarem em 5 para completar os 50, aniquilareis a cidade?” Disse o Senhor: “Não aniquilarei a cidade, se nela encontrar 45 justos”. Abraão insistiu: “Talvez não encontrareis mais de 40; que fareis então?” O Senhor respondeu: “Em atenção a estes 40, perdoarei”. Abraão continuou: “Não vos irriteis, Senhor, se falo ainda. Talvez lá encontrareis só 30 justos”. O Senhor disse: “Por causa desses 30 nada farei”. Abraão replicou: “Se lá houver 20 justos?” O Senhor respondeu: “Não destruirei a cidade”. “Eu vos conjuro, Senhor, não vos enfadeis se me atrevo a falar mais uma vez: talvez haja só 10?” O Senhor disse: “Devido a esses 10, perdoarei a todos”. Desapareceu então o Senhor e Abraão voltou para a sua tenda.

13. Destruição de Sodoma e Gomorra

1. Firmeza de Lot. - Lot morava ainda em Sodoma. Os moradores dessa cidade e dos lugares vizinhos viviam entregues aos excessos mais vis. Lot, porém, não participava de seus crimes. Conservava pura a sua vista, assim como seus ouvidos, causando-lhe grande mágoa a vida pecaminosa de seus concidadãos.

2. Lot hospeda os dois anjos. - Era já ao cair da tarde, quando os dois anjos chegaram a Sodoma. Lot estava sentado às portas da cidade. Logo que os avistou, foi-lhes ao encontro e inclinou-se respeitosamente, pedindo que pernoitassem em sua casa. Entraram. Lot preparou-lhes a ceia e eles se assentaram à mesa. Vieram, entretanto, os sodomitas e cercaram sua casa, dizendo: “Entrega-nos os estrangeiros que entraram em tua casa!” Não querendo aceder a seu desejo, já estavam a ponto de arrombar a porta. Mas os anjos feriram de cegueira sodomitas, de sorte que não puderam mais atinar com a porta.

3. Lot, impelido pelos anjos, retira-se da cidade. - Desde o clarear da aurora, os anjos insistiram com Lot, dizendo-lhe: “Faze sair da cidade todos aqueles que te pertencem, porque queremos destruir este lugar; o clamor de seus crimes atingiu o auge”. Lot saiu imediatamente para avisar os noivos de suas filhas; estes porém, zombaram dele e desprezaram sua advertência. Ao amanhecer, os anjos disseram a Lot: “Sai com tua mulher e tuas filhas para não pereceres com esta cidade culpada”. Como ele hesitasse, tomaram-no pela mão, e impeliram a sair com os seus. Fora das muralhas da cidade, disseram a Lot: “Salva tua vida e não olhes para trás; refugia-te na montanha”. Lot replicou: “Na montanha não posso refugiar-me. Ali perto, porém, encontra-se a cidade de Segor; não poderei esconder-me lá?” O anjo respondeu: “Seja; e, por tua causa, não destruirei essa cidade”. O sol nascia quando Lot entrou em Segor.

4. Deus arrasa as cidades perversas. - Nessa hora, Deus fez chover sobre Sodoma e Gomorra enxofre e fogo. As cidades perversas ficaram arrasadas e todos os seus moradores pereceram. Desmoronou o solo sobre o qual se elevavam as cidades malditas, transformando-se num vasto lago de água mui salgada e betuminosa, em que nada pode viver. Por isso lhe deram o nome de Mar Morto. A mulher de Lot, infringindo a proibição dos anjos, olhou para trás, a fim de ver o incêndio, e logo, por castigo, ficou reduzida a uma estátua de sal. Abraão, de manhã cedo, foi ao lugar onde, na véspera, tinha conversado com Deus, e, olhando para o lado de Sodoma, viu a fumaça e as faíscas que subiam para o ar. Pouco tempo depois, deixou o vale de Mambré e foi morar em Bersabéia.

14. A prova de Abraão

1. Deus prova a Abraão. - Deus cumpriu a promessa feita a Sara. Passado um ano, nasceu-lhe um filho. Abraão, que tinha cem anos de idade, circuncidou o menino no oitavo dia, e deu-lhe o nome de Isaac. Quando Isaac já era crescido, Deus fez passar Abraão por uma prova. Disse-lhe uma noite: “Toma Isaac, teu filho único, que tanto amas, e oferece-mo em holocausto, na montanha que te indicarei”. Era o Monte Moriá, sobre o qual mais tarde foi edificado o Templo de Salomão.

2. Abraão obedece. - Sem replicar, Abraão levantou-se muito cedo, rachou lenha para holocausto, carregando com ela num jumento. Pôs-se depois a caminho, com dois criados e seu filho Isaac. No terceiro dia da viagem, reconheceu de longe a montanha indicada por Deus. Disse a seus servos: “Esperem-me aqui com o jumento até à volta, pois eu e meu filho vamos subir montanha, para lá adorar a Deus.” Pôs a lenha do sacrifício sobre os ombros de Isaac, enquanto ele mesmo levava o fogo e a faca. Durante a subida, disse Isaac: “Meu pai!” Abraão respondeu: “Que queres, meu filho?” Isaac replicou: “Aqui temos o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?” Abraão disse: “Deus saberá achá-lo, meu filho!”

3. Deus poupa Isaac. - Assim que chegaram, Abraão ergueu um altar, dispôs em cima a lenha, amarrou o filho, e deitou-o sobre o altar. Já tinha o braço levantado e a faca preparada para imolá-lo, quando apareceu os anjos e bradou: “Abraão Abraão!” Ele respondeu: “Eis-me aqui!” O anjo continuou: “Não faças mal ao menino! Agora estou certo de que temes a Deus e que por seu amor não pouparias teu filho único”. Abraão, volvendo os olhos, viu um cordeiro embaraçado pelos chifres num cipoal; ofereceu-o em holocausto, em vez de seu filho.

4. Deus recompensa a Abraão. - O anjo do Senhor tornou, então, a exclamar: “Juro por mim mesmo, diz o Senhor, que te hei de abençoar, pois que, para me obedeceres, não pouparias teu filho único. Multiplicarei tua descendência, fazendo a tão numerosa quanto as estrelas do firmamento e as areias das praias. Num de teus descendentes serão abençoadas todas as nações da terra”. Depois, Abraão e Isaac desceram, voltando com os servos para casa.

15. Casamento de Isaac. Morte de Abraão

1. Eliéser vai à Mesopotâmia. - Sara faleceu com a idade de 127 anos; Abraão chorou sua morte e sepultou-a numa caverna dupla, perto de Hebrom. Depois disse a Eliezer, seu administrador: “As mulheres de Canaã são ímpias; vai a terra de meus pais e procura para meu filho uma esposa temente a Deus”. O fiel servidor dirigiu-se, com dez camêlos carregados de objetos preciosos, para Harã, na Mesopotâmia. Ao entardecer, fez descansar os camêlos perto de um poço, junto à porta da cidade: já vinham chegando as mulheres para buscar água. O servo suplicou imediatamente: “Senhor, manifestai hoje vossa benevolência para com o meu senhor Abraão; eis as moças da cidade, que vêm buscar água. Direi a uma delas: Inclina teu cântaro, para que eu beba. Se ela me responder: Bebe e darei de beber também a teus camelos - será esta a escolhida por ti para esposa de Isaac.”

2. Eliéser se encontra com Rebeca. - Apenas Eliéser tinha acabado sua oração, apareceu uma donzela honesta e formosa, que trazia um cântaro no ombro. Desceu a fonte e encheu o cântaro; quando voltava, Eliéser lhe disse: “Dá-me de beber um pouco d’água”. Ela, abaixando o cântaro, disse: “Bebe, senhor!” Logo que ele acabou de beber, acrescentou a jovem: “Vou agora tirar água também para os camêlos”. Ágil e pressurosa, despejou o cântaro no bebedouro, voltou à fonte e apanhou água para todos os camelos. O servo contemplava-a,  maravilhado, sem dizer palavra; depois que os animais beberam, recompensou-a com brincos e braceletes de ouro, perguntando ao mesmo tempo: “De quem és filha? Haverá em casa de teu pai bastante cômodo para hospedagem durante uma noite?” Ela respondeu: “Sou Rebeca, filha de Batuel e neta de Nacor; há em casa é bastante feno e palha, como a também cômodo para passares à noite”. Eliéser deu graças ao Senhor, dizendo: “Bendito seja Deus, que me guiou diretamente à casa do irmão do meu senhor”.

3. Eliéser em casa de Batuel. - Eliéser hospedou-se em casa de Batuel. Ao servir-se a refeição, disse: “Não tomarei coisa alguma antes de anunciar minha missão”. Quando Batuel e seu filho Labão ouviram do que se tratava, disseram ao mesmo tempo:”É a vontade de Deus. Aqui está a Rebeca, leva-a contigo”. A esta resposta, o servo de Abraão inclinou-se até a terra, adorando o Senhor; em seguida ofereceu ricos presentes a Rebeca. No dia seguinte, a mãe perguntou à sua filha: “Queres ir com este homem?” Ao que respondeu: “Quero, minha mãe!” Os pais abençoaram Rebeca, que partiu para Canaã. Isaac a introduziu na tenda de sua falecida mãe, recebendo-a por mulher; e dedicou-lhe tanto afeto que sua presença lhe moderou a dor causada pela perda de sua mãe.

16. Esaú e Jacó

1. Deus concede filhos a Rebeca. - Deus abençoou Isaac, por causa de Abraão, confirmando-lhe também as três grandes promessas feitas a seu pai. Isaac e Rebeca durante 20 anos não tiveram filhos. Afinal, Deus ouviu suas preces, e concedeu a Rebeca dois gêmeos; o primogênito tinha pele cabeluda e por isso lhe chamaram Esaú; o segundo recebeu o nome de Jacó. Esaú dedicou-se a caça e à agricultura; Jacó, de índole pacífica, tornou-se pastor. Isaac amava mais a Esaú, porque saboreava suas caças; Rebeca tinha maior afeição a Jacó, pois Deus lhe tinha revelado que o irmão mais novo havia de ser preferido ao mais velho.

2. Esaú vende seu direito de progenitora. - Certo dia, Jacó tinha preparado um prato de lentilhas: Esaú, ao voltar da caça, muito cansado, disse ao irmão: “Dá-me dessa comida vermelha, pois estou com muita fome”. Jacó respondeu-lhe: “Cede-me, em troca, teu direito de primogenitura!” Esaú replicou: “Estou aqui a morrer de fome; de que me serve a progenitora?” Jacó insistiu: “Jura-mo!” Esaú jurou; comeu, bebeu, e retirou-se para cuidar de seus negócios. Pouco lhe importava o ter vendido seu direito de primogenitura.

3. Jacó obtém astuciosamente a benção do pai. - Quando Isaac envelheceu, perdeu a vista. Julgando que sua morte estava próxima, mandou vir Esaú e disse-lhe: “Meu filho, estou velho e posso morrer de um dia para o outro; toma tuas armas, aljava e arco, e vai à caça. Logo que matares algum animal, prepara-me um prato como sabes que gosto; e abençoar-te-ei antes de morrer”. Esaú saiu logo, mas Rebeca tinha ouvido a promessa e disse a Jacó: “Meu filho, segue o meu conselho. Traze-me os dois melhores cabritos e vou preparar para teu pai um prato à seu gosto. Tu lho levarás e ele te abençoará”. Jacó respondeu: “Sabes, minha mãe, que Esaú é um homem peludo e eu tenho a pele macia; se meu pai me apalpar e perceber que o quis enganar, lançará sobre mim sua maldição, em lugar de benção”. A mãe já retrucou: “Sobre mim caia essa maldição, meu filho”. Jacó deixou-se persuadir e trouxe os dois cabritos. A mãe os preparou como se fosse caça, tomou as roupas de Esaú, ordenou a Jacó que as vestisse e depois cobriu-lhe as mãos e o pescoço com as peles dos cabritos. Assim disfarçado, Jacó levou a comida preparada para Isaac. “Meu pai!” Isaac perguntou: “Quem és tu, meu filho?” Jacó respondeu: “Sou Esaú, teu primogênito; fiz o que me ordenaste. Come agora de minha caça e abençoa-me!” Isaac replicou: “Como é que achaste a caça tão depressa, meu filho?” Jacó respondeu: “Foi a vontade de Deus”. Isaac disse: “Aproxima-te, meu filho; quero apalpar-te, para ver se és realmente meu filho Esaú!” Jacó aproximou-se. O pai, apalpando-o, disse: “A voz e de Jacó, mas as mãos são de Esaú!” E não o reconheceu. Depois de ter comido, abençoou a Jacó nestes termos: “Deus te conceda, por meio do orvalho do céu e da fertilidade da terra, Pão e Vinho em abundância! Serás o Senhor de teus irmãos e as nações se-te-ão submissas!”

4. Esaú não alcança a benção desejada. - Acabava apenas Jacó de sair, quando Esaú chegou da caça, dizendo: “Ergue-te, meu pai, e come da caça de teu filho, a fim de o abençoares”. Isaac perguntou: “Então, quem és tu?” Esaú respondeu: “Sou Esaú, teu filho primogênito”. Isaac ficou muito consternado e disse-lhe: “Teu irmão veio, com dissimulação, e ofereceu-me de comer. Abençoei-o e abençoado fica”. Esaú chorou, dizendo em altos clamores: “Abençoa-me a mim também, meu pai!” Comovido, Isaac consolou-o: “Terás tua parte na fertilidade da terra e no orvalho do céu: eis a tua benção!”.

17. Fuga de Jacó para a Mesopotâmia

1. Fuga de Jacó - Esaú odiava a Jacó porque este lhe usurpara a bênção paterna e ameaçou matá-lo. Rebeca notou que a vida de Jacó perigava deu-lhe este conselho: “Foge, meu filho, para Harã e fica lá, em casa de meu mano Labão, até que se acalme a ira de teu irmão”. Jacó despediu-se de seus pais e seguiu logo viagem para Harã. Não tinha companheiro e só levava consigo um bastão.

2. A escada misteriosa. - Depois que o sol se pôs, Jacó, fatigado de viagem, apoiou a cabeça sobre uma pedra da estrada e adormeceu. Em sonhos viu uma escada que da terra se elevava até o céu e os anjos de Deus desciam e subiam por ela. No alto estava o Senhor, que disse a Jacó: “Eu sou o Senhor, Deus de Abraão e de Isaac. Eu te darei à tua descendência a terra em que repousas. Teus descendentes serão numerosos como o pó da terra. Serei teu protetor por onde andares e reconduzir-te-ei a este país”.

3. Jacó faz um voto - Ao despertar Jacó exclamou: “Em verdade o Senhor está neste lugar e eu não sabia. É realmente aqui a casa de Deus e a porta do céu!” Logo ao clarear do dia tomou a pedra que lhe servira de travesseiro, ergueu-a como monumento de sua visão e derramou óleo por cima; a este lugar deu nome de Betel, Isto é: casa de Deus. Depois fez um voto, dizendo: “Se Deus me proteger nesta viagem e me reconduzir à casa de meu pai, erguerem aqui um altar ao Senhor e pagarei a décima parte de tudo quanto me der”.

4. Jacó em casa de Labão. - Jacó continuou a viagem e chegou à casa de Labão. Perto da cidade, e encontrou pastores que davam de beber aos rebanhos. Perguntou-lhes: “Conheceis, porventura, Labão?” E eles o informaram: “Claro que o conhecemos! Olha: aí vem Raquel, sua filha com o rebanho do pai”. Ela ocorreu logo a casa para avisar o pai, que veio pressuroso ao encontro de Jacó e o levou consigo. Passado algum tempo, Labão interrogou a Jacó: “Acaso, por seres meu irmão, hás de servir-me de graça? Dize-me, que pagamento queres?” Jacó amava muito a Raquel. Respondeu a Labão: “servir-te-ei sete anos, para me dares Raquel por esposa”. Quando, porém, tinham passado os 7 anos, Labão enganou Jacó, dando-lhe por esposa a filha mais velha, de nome Lia. Para se casar com Raquel, havia de servir mais sete anos a Labão. Cedendo aos pedidos do sogro, demorou-se depois deste casamento ainda seis anos em sua casa, cuidando dos rebanhos. Deus multiplicou os bens de Labão por causa de Jacó: favoreceu também a este, concedendo-lhe avultadas riquezas.

18. Volta de Jacó. Morte de Isaac

1. Jacó recebe ordem de voltar. - Quando Labão viu que Jacó enriquecera, teve-lhe inveja, e procurava continuamente prejudicá-lo. Diz então Deus a Jacó: “Volta para tua pátria; eu estarei contigo”. Jacó pôs-se a caminho, com sua família e seus rebanhos. Depois de longa jornada, chegou ao rio Jordão, limite de Canaã; daí enviou mensageiros a Esaú, para obter dele não acolhimento amistoso. Os mensageiros voltaram para preveni-lo: “Esaú vem a teu encontro, com 400 homens”. Muito assustado, Jacó exclamou: “Ó Senhor não sou digno dos benefícios que me concedeste; transpus um dia o Rio Jordão, possuindo somente um bastão, e volto agora com família, grandes rebanhos e outros haveres consideráveis. Salva-me das mãos de Esaú, meu irmão”.

2. Jacó recebe o nome de Israel. - no dia seguinte, levantou-se Jacó muito cedo; antes de amanhecer, fez prosseguir na marcha toda a sua gente; ele, porém, ficou atrás. Eis que um homem se pôs a lutar com ele até ao amanhecer. Vendo, porém, que não podia vencer Jacó, tocou-lhe o nervo da coxa, que logo secou. Então disse-lhe: “Deixa-me, porque já despertou a aurora”. “Não te largarei sem que me abençoes”. O homem misterioso abençoou-o, dizendo: “Para o futuro não te chamarás mais Jacó, mas sim Israel, Isto é, guerreiro de Deus, Por que lutaste valorosamente com Deus”. Mas, desde aquela ocasião, Jacó coxeava, porque lhe ficara paralisado o nervo da perna.

3. Esaú reconcilia-se com Jacó. - Ao romper do dia aproximou-se Esaú com 400 homens; Jacó foi ao seu encontro e inclinou-se sete vezes até a terra. Esaú, por sua vez, correu para seu irmão, abraçou-o beijou-o e chorou de alegria. Quando viu as crianças, perguntou: “A quem pertencem?” Jacó respondeu: “São os filhos que Deus me deu”. Todos também se aproximaram e inclinaram-se diante de Esaú. Este não quis aceitar os presentes trazidos, mas Jacó tanto insistiu que afinal os aceitou. Separaram-se depois os dois irmãos reconciliados.

4. Jacó cumpre seu voto. - Jacó foi para Siquém, onde se estabeleceu. Lembrou-se então de seu voto e foi para Betel, onde Deus lhe aparecera, erigiu um altar e ofereceu sacrifícios. Algum tempo depois, na proximidade de Belém, faleceu Raquel, sua esposa. Visitou também, no Vale do Mambré, seu pai Isaac, que viveu ainda 23 anos depois da volta de Jacó, falecendo com 180 anos de idade. Esaú e Jacó sepultaram-no em Hebron.

19. José é vendido por seus irmãos

1. Os filhos de Jacó. - Jacó teve 12 filhos e uma filha. Os nomes dos filhos são: Rúben, Simeão, Levi, Judá, Neftali, Gad, Issacar, Zabulon, José e Benjamim. Os dois últimos eram filhos de Raquel. A filha chamava-se Dina.

2. Os irmãos odeiam a José. - Aos 16 anos de idade, José guardava os rebanhos em companhia com os irmãos. Certo dia percebeu José e seus irmãos praticavam uma ação detestável e acusou-os perante o pai. Jacó amava mais a José que a todos os outros e mandou fazer para ele uma túnica de diversas cores; esta predileção do pai por José causou inveja aos outros filhos, que começaram a odiar o irmão e nunca mais lhe falaram com amizade.

3. Os sonhos de José. - Sucedeu também contar José a seus irmãos dois sonhos que tivera. Disse-lhes: “Escutai meu sonho: parecia-me que estávamos atando feixes de trigo no campo; de repente, meu feixe ergueu-a e pôs-se em pé; os vossos todos o rodearam e se inclinaram diante dele!” Ao que replicaram os irmãos: “Queres, sem dúvida, vir a ser nosso rei?!”  E ele contou assim outro sonho: “Vi o sol, a lua e onze estrelas inclinarem-se diante de mim”. Seu pai repreendeu-o: “Que quer dizer esse sonho? Porventura eu, tua mãe e teus irmãos teremos de prostrar-nos, em terra, em tua presença?” Por causa destes sonhos, cresceu ainda mais a inveja dos irmãos. O pai, porém, guardou na memória o caso.

4. José vendido pelos irmãos. - Certa vez, os irmãos de José, apascentando os rebanhos, afastaram-se até Siquém, bem longe da casa paterna; Jacó disse então a José, que tinha ficado com ele: “já faz muito tempo que não tenho notícias de teus irmãos; vai ver como vão eles e seus rebanhos”. José partiu imediatamente. Quando os irmãos avistaram de longe, disseram uns aos outros: “Lá vem o sonhador! Matemo-lo e diremos depois que uma fera o dilacerou. Veremos então de que valem seus sonhos”. Rubem, porém, o mais velho de disse-lhes: “Não mancheis vossas mãos com seu sangue; é preferível lança-lo nesta cisterna!” Sua intenção era retirá-lo dali, quando seus irmãos estivessem longe, e restituído ao pai. Logo que José se aproximou dos irmãos, despiram-no da túnica e o atiraram uma cisterna velha, sem água. Depois, assentados para comer, viram passar uma caravana de negociantes estrangeiros, que iam para o Egito. Traziam os camelos carregados de diversas mercadorias. Disse Judá aos irmãos: “Que lucro teríamos em matar nosso irmão? É melhor vendê-lo; assim não mancharemos de sangue em nossas mãos; afinal, sempre é nosso Irmão”. Concordaram nisto. Tiraram o José da cisterna e venderam no por 20 moedas de prata; os negociantes os levaram, como escravo, para o Egito.

5. Jacó chora a perda de José. - Ruben não estava presente quando isto sucedeu. Ao voltar não encontrou mais o Irmão na cisterna; rasgou as vestes, em sinal de dor, exclamou: “Que será de mim? O menino desapareceu!” Mas os outros não fizeram caso de seus lamentos; mataram um cabrito, molharam em seu sangue a túnica de José e enviaram-na ao pai, com este recado: “achamos esta túnica; Vê se não é teu filho José”. O pai reconheceu-a imediatamente e exclamou, soluçando: “É a túnica de José; uma fera cruel dilacerou meu filho”. Jacó rasgou então suas vestes, cobriu-se de luto e chorou por muito tempo a perda de seu filho amado. Os outros filhos vieram consolá-lo; Jacó porém não quis consolação, e dizia: “Descerei à região dos mortos, para perto de meu filho”.

20. José em casa de Putifar e na prisão.

1. José estimado por seu amo. - No entanto, chegando os negociantes ao Egito, venderam José a Putfar, comandante da guarda real. O Senhor velava por José, em cujas mãos tudo prosperava. Putifar estimava-o e confiou-lhe a administração de sua casa. Em atenção a José, Deus abençoou o egípcio, multiplicando-lhe os bens, tanto em casa como no campo.

2. José resiste à tentação. - A mulher de Putifar era má e pretendeu seduzir José. Este, porém lhe disse: “Como poderei praticar tão grande injustiça e pecar contra meu Deus?” Apesar disso, ela não deixava de tenta-lo diariamente com palavras. Mas tudo debalde. Certo dia, José estava a serviço dentro do Palácio; nessa ocasião, a esposa de Putifar, achando-se sozinha em casa, seguro-o pelo manto para o reter; José, porém, deixou-lhe nas mãos o manto e fugiu.

3. José no cárcere. - Furiosa, a pérfida mulher gritou então por socorro, dizendo aos criados que acudiram: “Este malvado hebreu queria seduzir me! Pus-me a gritar e ele fugiu, deixando-me seu manto”. Quando o marido voltou a casa, ela mostrou-lhe o manto, repetindo a calúnia. Putifar, dando crédito narração, ficou muito irado e mandou prender José no cárcere. Mesmo na prisão, o Senhor protegeu a José e fê-lo granjear o afeto do carcereiro-mor, que lhe confiou a vigilância de outros presos.

4. José explica dois sonhos. - sucedeu que o copeiro-mor e o padeiro-mor do rei Faraó foram metidos na mesma prisão. Quando José, certa amanhã, foi ter com eles, encontrou-os muito abatidos. Perguntou-lhes: “Porque estais tão tristes?” Responderam: “Tivemos esta noite um sonho e não há quem o possa explicar”. José replicou: “Porventura não pertence a Deus a explicação? Contai-me o que sonhaste”. Disse o copeiro-mor: “Vi diante de mim uma videira com três sarmentos. Estes rebentaram pouco a pouco, cresceram e deram enfim cachos maduros. Tomei as uvas, espremi-as na taça de Faraó e deixei-lhe para beber”. José respondeu: “Os três sarmentos significam três dias, no fim dos quais o rei te restabelecerá em teu ofício e lhe tornarás a apresentar a taça como antes. Mas lembra-te de mim; pede ao rei que me liberte dessa prisão, porque estou aqui inocente”. Vendo o padeiro-mor que José tinha interpretado sabiamente o sonho do copeiro-mor,  narrou-lhe também seu som: “Sonhei que levava três cestos na cabeça; no cesto de cima havia toda qualidade de delicados pastéis;  os pássaros, porém, revoavam ao redor e comiam deles”.  José respondeu: “Os  três cestos representam três dias,  depois dos quais Faraó  te mandará cortar a cabeça e pendurar teu cadáver numa forca. As aves do céu comerão tua carne”. Tudo aconteceu como José tinha predito; o copeiro-mor, porém,  em sua felicidade, esqueceu-se de José.

21. José na corte do Faraó

1. Os sonhos do Faraó. - Dois anos mais tarde, o faraó teve também  um sonho. Parecia-lhe  estar à beira do rio Nilo; eis que da água saiam 7 vacas formosas e gordas, que pastavam à margem; apareceram, após, sete vacas magras e feias, que devoravam as gordas; nisto o rei acordou. Tornou, porém, a adormecer e teve  outro sonho. Viu nascer do mesmo colmo sete espigas belas e cheias de grãos; depois nasceram também sete espigas a raquíticas e coxas, que engoliram as primeiras. Em seguida despertou o Faraó e, logo ao amanhecer,  mandou convocar todos os sábios e adivinhos do Egito; mas nenhum deles lhe soube esclarecer essas visões.

2. José explica os sonhos de Faraó. - Só então foi que o copeiro-mor se lembrou de José e disse a Faraó: “No cárcere está um moço Hebreu que, há tanto tempo, explicou com toda  exatidão meu sonho e o do padeiro mor”. Faraó mandou logo chamar a José. Antes, porém, de o levarem a presença do rei, apararam-lhe os cabelos e a barba e mudaram-lhe a roupa. Faraó lhe disse: “tive dois sonhos e ninguém daqui os pôde interpretar. Ouvi dizer que sabes dar boas explicações”. José respondeu: “Só Deus, e não eu, pode dar ao rei o que deseja”. Faraó referiu os sonhos e José lhe disse: “Ambos os sonhos têm a mesma significação. As sete vacas gordas e as sete espigas cheias anunciam 7 anos de grande fartura em toda a terra do Egito. As sete vacas magras e as sete espigas vazias representam 7 anos de carestia, que seguirão os de fartura e absorverão todas as colheitas. A fome devastará, então, todo o país. Escolha, pois, faraó um ministro sábio e ativo, quem mandará armazenar em grandes celeiros reservas de trigo, durante os anos de fertilidade, a fim de que haja provisão para o tempo da Fome”.

3. José nomeado primeiro-ministro do rei. - Este conselho agradou tanto a Faraó, que disse a José: “Tu mesmo serás esse ministro; pois onde poderei achar outro que seja tão sábio e previdente como tu? Faço-te, portanto, vice-rei de todo o Egito; todo o meu povo obedecerá às suas ordens; só eu, no trono, estarei acima de ti”. Tirou, em seguida, seu anel e o enfiou no dedo de José. Mandou que o revestissem deu uma túnica de finíssimo linho e por-lhe ao pescoço um colar de ouro. Depois fê-lo passear em triunfo pelas ruas da cidade, no segundo carro real. À frente do préstito iam arautos, que gritavam, a sua passagem: “De joelho, todos, Pois é o vice-rei de todo o Egito!” O faraó deu-lhe também um nome egípcio, o que significa: salvador do mundo. José tinha 30 anos de idade quando começou a governar o Egito.

22. Primeira viagem dos irmãos de José ao Egito

1. Jacó manda os filhos ao Egito. - Vieram os sete anos de fartura e José mandou reservar enorme quantidade de trigo nos celeiros de todas as cidades do país. Chegaram também os anos de carestia e sobreveio a fome. O povo foi ter com o faraó, pedindo pão. O rei respondeu: “Ide a José, e fazei o que ele vos disser’”. José mandou abrir os celeiros e vendeu aos egípcios e aos povos vizinhos o trigo armazenado. Também na terra de Canaã havia falta de mantimentos. Ao saber Jacó que se vendia trigo no Egito, disse a seus filhos: “Ide comprar trigo, para que não venhamos a morrer de fome”. Partiram então os dez irmãos mais velhos de José. Jacó não deixou ir Benjamin, receando que lhe acontecesse alguma desgraça na viagem.

2. José põe à prova os irmãos. - Quando os filhos de Jacó chegaram ao Egito, foram levados à presença de José. Inclinaram-se diante dele, até o chão, sem o reconhecerem; José, porém, os reconheceu logo e, fingindo-se estranho, Interpelou-os duramente: “Donde vindes?” Responderam: “Da terra de Canaã e queremos comprar trigo”. “É mentira! - replicou José. - Sois espiões; viestes para explorar os pontos fracos do país”. Trêmulos de medo, eles protestaram: “Não, senhor! Somos 12 Irmãos; o mais moço ficou em casa em companhia do pai e o outro… desapareceu”. José replicou-lhes: “Já vos disse: sois espiões!” E mandou prendê-los. No terceiro dia, chamou-os a sua presença e disse-lhes: “Quero ver se dizeis a verdade; um de vós fique preso como refém; levem os outros para casa o trigo comprado. Voltem depois, trazendo-me aqui o irmão mais moço”. Disseram então os irmãos uns aos outros: “Merecidamente sofremos isto, porque pecamos contra nosso irmão. Vimos a aflição de sua alma, quando nos pedia compaixão, mas não o atendemos!” Os irmãos não suspeitavam de que José os compreendesse, porque só lhe falava por intérpretes. Ele, todavia, entendeu tudo e ausentou-se por alguns momentos para chorar, vendo que os irmãos estavam arrependidos. Depois voltou e, à vista dos irmãos, mandou meter em ferros a Simeão. Ao mesmo tempo, ordenou a seus servos que enchessem os sacos de trigo e ocultassem dentro de cada um deles o dinheiro do pagamento. Além disso, deu-lhes mantimentos para viagem. Após esses preparativos, os irmãos partiram, com os jumentos carregados de trigo.

3. De volta a Canaã. - De regresso, em casa, contaram ao pai tudo o que lhes tinha acontecido e que na próxima viagem deviam levar também Benjamim. Ao esvaziar os sacos, os irmãos ficaram muito admirados, porque cada um encontrou seu dinheiro na boca do saco. O pai disse-lhes: “Por vossa culpa, perco todos os meus filhos! José desapareceu, Simeão está preso e ainda quereis levar-me Benjamim! Não! Meu filho não partirá convosco! Pode acontecer alguma desgraça e esse pesar levar-me-ia à sepultura”.

23. Segunda viagem dos irmãos de José ao Egito

1. Os irmãos partem com Benjamim. - Acabada a provisão dos mantimentos, Jacó disse aos filhos: “Voltai ao Egito, para comprar trigo”. Judá respondeu: “Aquele homem que vendeu o trigo declarou-nos sob juramento: Não volteis à minha presença, se não trouxerdes convosco vosso irmão mais moço. Deixa que eu leve Benjamim e partiremos: eu me responsabilizo por ele”. Afinal disse o pai: “Já que é preciso, seja; levai também convosco o dinheiro que encontrastes nos sacos; talvez fosse posto ali por engano. Deus onipotente vos torne propício aquele homem, a fim de que deixe voltar convosco Simeão e meu querido Benjamim!”. Os irmãos levaram consigo, além de presentes valiosos, o dobro do dinheiro, e encaminharam-se para o Egito.

2. José acolhe bem os irmãos. - Chegaram felizmente ao Egito, com Benjamim. Ao vê-los, José disse a seu mordomo: “Manda entrar essa gente em meu palácio e prepara um banquete, pois hão de jantar comigo”. O mordomo obedeceu. Assustados, os irmãos diziam uns aos outros: “É por causa do dinheiro encontrado em nossos sacos que nos fazem entrar aqui. Querem sujeitar-nos violentamente à escravidão”.  Procuravam, por isso, justificar-se com o mordomo. Mas ele lhes disse: “Não tenhais receio: vosso dinheiro me foi entregue por inteiro”. Em seguida apresentou-lhes Simeão. Logo que José entrou, inclinaram-se até ao chão e ofereceram-lhe os presentes. José saudou-os afavelmente e perguntou: “Nosso pai, teu cervo, ainda vive e está de saúde”. Quando viu Benjamim, perguntou: “É este o irmão mais moço? Deus te abençoe, meu filho!” Não pôde por mais tempo dominar sua comoção e saiu, chorando. Depois de lavado o rosto, voltou, e disse aos criados: “Sirva-se o jantar!” À mesa, cada um dos irmãos teve o lugar conforme sua idade, o que lhes causou admiração justificada. A Benjamim foram servidos alimentos em proporção cinco vezes maior que aos outros. Todos comeram e beberam alegremente, em companhia do vice-rei.

3. A taça de prata. - Depois do banquete, José ordenou ao mordomo: “Enche-lhes de trigo os sacos e põe por cima o dinheiro de cada um. No saco do mais moço esconde também minha taça de prata”. Na manhã seguinte, apenas tinham saído da cidade, chamou José o mordomo e ordenou-lhe: “Persegue esses estrangeiros e dize-lhes: Por que pagastes o bem com o mal, vindo aqui com ladrões? A taça que furtastes é do meu senhor!” O mordomo assim fez. Assustados, os irmãos responderam: “Não é possível; nunca nenhum de nós roubou coisa alguma; aquele com quem estiver a taça, seja castigado de morte; e nós seremos teus escravos!” Descarregaram logo os sacos dos jumentos, abrindo cada um o seu. O mordomo revistou todos e achou a taça no de Benjamim. Então eles rasgaram suas vestes e, carregando novamente os jumentos, voltaram à cidade, prostrando-se por terra na presença de José. Este perguntou-lhes: “Por que procedestes assim?” Judá respondeu: “Que havemos de dizer? Deus encontrou iniquidade em nós e por isso nos castiga. Seremos todos teus escravos!” Ao que José replicou: “Longe de mim tal injustiça! Aquele que furtou a taça, este será meu escravo; vós outros podeis voltar em paz para casa de vosso pai!” Judá aproximou-se então de José, dizendo: “Senhor, eu me tornei responsável pelo menino, porque o pai não o queria deixar sair de casa; se ele não voltar agora, nosso velho pai morrerá de tristeza. Ficarei, pois como teu escravo, em lugar do menino; mas deixa-o voltar com seus irmãos”.

4. José dá-se a conhecer. - Então José não se pôde conter mais. Mandou que saíssem da sala todos os egípcios e, estando a sós com os irmãos, começou a soluçar, bradando: “Eu sou José! Vive ainda meu pai?” Os irmãos, possuídos de terror, não puderam responder uma única palavra. José, porém,, falou-lhes amigavelmente: “Aproximai-vos de mim! Eu sou José, vosso irmão, que vendestes aos egípcios. Mas não temais! Não é por vontade vossa que me acho aqui, mas por desígnio de Deus, que me fez vice-rei de todo o Egito. Apressai-vos agora em ir ter com meu pai e conduzi-o até cá; eu me encarregarei de seu e de vosso sustento, pois restam ainda cinco anos de forme”. Então abraçou a Benjamim, chorando de alegria; Benjamim também chorava. Beijou e abraçou a cada um dos irmãos, sempre lacrimoso. Só então tiveram coragem para lhe falar.

5. Os irmãos voltaram. - Também Faraó teve notícia de que os irmãos de José tinham chegado. Alegrou-se e disse a José: “Manda vir para o Egito teu pai com toda a sua família e dá-lhes a melhor parte do país!” Por ordem do rei, José deu aos irmãos carros e presentes valiosos. À despedida aconselhou-lhes: “Não brigueis em caminho”.

24. Viagem de Jacó para o Egito. Morte de Jacó e José

1. Jacó parte para o Egito. - Ao chegarem os irmãos a casa, anunciaram ao pai: “Teu filho José ainda vive: é vice-rei de todo o Egito”. Ouvindo estas palavras, pareceu a Jacó que acordava dum profundo sono e não quis acreditar neles. Mas, vendo os carros e os ricos presentes que José lhe mandara, reanimou-se e disse: “Nada mais tenho que desejar, pois meu filho José ainda vive. Irei vê-lo antes de morrer”. Jacó partiu com tudo quanto possuía. Nos confins de Canaã ofereceu um sacrifício ao Senhor. De noite Deus falou-lhe numa visão: “Eu sou o Deus fortíssimo de teu pai; não temas ir  ao Egito. Lá farei de ti um grande povo e reconduzirei um dia teus descendentes para a terra que prometi”. Jacó continuou a viagem e chegou ao Egito com toda a família, em número de 70 pessoas.

2. Jacó com José. - Judá foi adiante para anunciar a chegada do pai. Imediatamente José deu ordem de preparar seu carro e saiu a seu encontro. Logo que o avistou, desceu do carro e abraçou-o, derramando lágrimas de alegria. O pai disse a José: “Agora morrerei contente, porque vi ainda uma vez teu rosto”. Depois o apresentou ao rei, que lhe perguntou: “Quantos são os anos de tua vida” Jacó respondeu: “Os dias de minha peregrinação sobre a terra são 130 anos, poucos e trabalhosos, e não se comparam com a longa vida de meus pais”. Jacó abençoou o rei e despediu-se. José deu ao pai e aos irmãos a melhor região, a terra de Gessen, onde continuaram a viver como pastores.

3. Morte de Jacó. - Jacó viveu ainda 17 anos no Egito. Estando para morrer, vieram visitá-lo José e seus dois filhos Efraim e Manassés. Disse-lhe Jacó: “Teus dois filhos são considerados como meus: hão de herdar da mesma maneira como Rubem e Simeão. Faze-os chegar perto de mim, para que os abençoe!” José assim procedeu e Jacó os abraçou e abançoou, dizendo: “Deus, que me sustentou desde minha mocidade até este dia, o anjo que me livrou de todos os filhos e netos em torno de seu leito, dando uma benção especial a cada um. A mais preciosa, porém, recebeu-a Judá, a quem disse: “A ti, Judá, teus irmãos te louvarão; tua mão vencerá todos os teus inimigos. O cetro não sairá de Judá até que venha aquele que deve ser enviado e que é o enviado das nações”. Enfim recomendou a todos: “Sepultai-me ao lado de meus pais, na terra de Canaã”. Foram estas suas últimas palavras e morreu. José inclinou-se sobre o rosto de seu pai, chorando e beijando-o. Depois mandou embalsamar o corpo, dando-lhe sepultura na caverna dupla, perto de Hebron. José, os irmãos e muitos egípcios notáveis acompanharam o préstito fúnebre até Canaã.

4. Morte de José. - Os irmãos receavam que este, depois da morte do pai, os quisesse castigar pelo mal que lhe haviam feito. Por isso vieram pedir-lhe perdão em memória do pai. José acolheu-os benignamente, dizendo: “Vós intentastes fazer o mal, mas Deus o converteu em bem. Não temais. Sustentar-vos-ei e a vossos filhos”. Chegou José à idade de 110 anos, conhecendo netos e bisnetos. Sentindo aproximar-se o fim da sua vida, disse aos irmãos: “Deus conduzir-vos-á ao país que sob juramento prometeu a Abraão, Isaac e Jacó. Ao partirdes, levai convosco também meus ossos!” Dito isto, faleceu. Governara durante 80 anos o Egito. Os irmãos embalsamaram-lhe o corpo e o puseram num sarcófago.

25. O santo homem Jó

1. Jó teme a Deus na prosperidade. - No tempo dos patriarca, vivia na Arábia, na terra de Hus, um varão temente a Deus, chamado Jó. Tinha sete filhos e três filhas; era muito rico e feliz. Possuía muitas centenas de ovelhas, camelos, bois, jumentos e numerosos criados. Gozava, por isso, de grande consideração em todo o Oriente. Seus filhos banqueteavam-se em suas casas, cada um em seu dia, e convidavam as três irmãs a tomarem parte. Depois de passado os dias do banquete, Jó oferecia holocausto em desagravo, porque - dizia - “talvez tenham ofendido a Deus em seus corações”.

2. Jó é resignado na graça. - Para experimentar o santo varão, Deus permitiu a satanás que o prejudicasse à vontade em seus bens, mas não tocasse em sua pessoa. Um dia, quando Jó estava descansando em sua tenda, veio um mensageiro e contou-lhe: “Tribos inimigas invadiram tuas terras, levaram ovelhas e bois, camelos e jumentos e mataram os pastores; somente eu escapei para te trazer a nova”. Estava ainda falando, quando chegou outro portador, dizendo: “Caiu fogo do céu e consumiu teus rebanhos e pastores: só eu pude escapar e vim trazer esta notícia”. Enquanto falava, entrou o terceiro portador, que disse: “Teus filhos e tuas filhas comiam e bebiam em casa do irmão mais velho; de repente, levantou-se um violentíssimo furacão. A casa estremeceu em todos os recantos e desabou sobre teus filhos, que ficaram sepultados debaixo das ruínas. Só eu pude fugir, para anunciar-te o desastre”. Então Jó, em sinal de grande pesar, rasgou seus vestidos e, prostrado por terra, adorou a Deus, dizendo: “O Senhor deu, o Senhor tirou: conforme quis o Senhor, assim aconteceu. Bendito seja teu santo nome!”

3. Jó é paciente na enfermidade. - Fora permitido ainda a satanás estender sua mão à própria pessoa de Jó. Feriu-o de lepra horrível, desde a planta dos pés até ao alto da cabeça; Jó assentado num monturo, com cacos de telhas raspava o pus de suas feridas. Ninguém o socorria, nem consolava; pelo contrário, sua própria esposa zombava dele, dizendo: “Ainda permaneces em tua piedade? Blasfema contra Deus e morre”. Jó replicou-lhe: “Falas como louca; se recebemos bens das mãos de Deus, por que não havemos de aceitar os males?”

4. Os amigos de Jó o desprezam. - Três amigos de Jó, sabendo de sua desgraça, o vieram visitar e consolá-lo, mas não o reconheceram, tão horrivelmente estava desfigurado. Possuídos de espanto e dor, rasgaram seus vestidos e romperam em altos clamores: durante 7 dias e 7 noites nenhum deles lhe dirigiu uma só palavra. Finalmente, Jó, gemendo sob sua grande dor, disse-lhes: “Compadecei-vos de mim, pelo menos vós, meus amigos, porque me feriu a mão do Senhor”. Eles, porém, lançaram-lhe em rosto que certamente merecera aquelas aflições por seus pecados. Jó protestou sua inocência, consolando-se com a esperança na ressurreição da carne. “Sei que meu Redentor vive e que no último dia hei de ressuscitar da terra! Serei de novo revestido de minha pele, e em minha própria carne verei a Deus. Sim, eu o verei; meus próprios olhos o contemplarão. Tal é a esperança que conservo em meu coração”

5. Jó é recompensado por Deus. - Depois que jó proferiu estas palavras, o Senhor apareceu num turbilhão e disse aos três amigos: “Acendeu-se minha cólera contra vós, porque vossas palavras foram injustas. Oferecei em expiação um holocausto: e Jó, meu servo, intercederá por vós!” Assim fizeram; e o Senhor se compadeceu deles, por causa da oração de Jó. Deus restituiu a Jó o duplo de seus haveres; deu-lhe também uma nova família, com 7 filhos e 3 filhas. Jó viveu ainda 140 anos, chegando a ver os filhos de seus filhos até à quarta geração.

PARTE III - O TEMPO DE MOISÉS

(1300 até 1230 antes de Cristo)

26. Nascimento e salvação de Moisés

1. Os egípcios oprimem Israel. - Os filhos de Israel multiplicaram-se tão rapidamente no Egito, que, dois séculos depois da morte de José, já formavam um povo numeroso. E este aumento de estrangeiros no país inquietou, porém, o novo rei, que ignorava os benefícios prestados por José. Disse ele aos egípcios: “O povo de Israel tornou-se maior e mais forte que nós; sejamos avisados e oprimamo-lo”. Ordenou, por isso, que os inspetores de serviço sobrecarregassem os israelitas dos trabalhos mais pesados nas fábricas de tijolos e na construção de cidades e fortalezas. Quanto mais os oprimiam, porém, tanto mais numerosos se tornavam. Afinal, decretou Faraó: “Lançai ao Rio Nilo todos os meninos que nasceram dos israelitas”.

2. Moisés é salvo - Um homem da casa de Levi tinha desposado uma moça de sua tribo. Ela deu-lhe um filho; a mãe o escondeu durante três meses em sua casa. Não podendo ocultá-lo por mais tempo, tomou uma cestinha de junco, calafetou-a com resina e pez, deitou nela a criança e foi expô-la, no meio dos caniços, à margem do rio Nilo; a irmã da criança ficou espreitando de longe o que aconteceria Naquele mesmo dia, a filha do Faraó veio ao rio para tomar banho. Viu a cestinha no meio dos caniços e mandou uma criada buscá-la. Quando a abriu, achou dentro um formoso menino a chorar. Teve pena dele e exclamou: “Coitadinho! é de certo um menino dos israelitas!” Nesse momento a irmã do pequeno aproximou-se e perguntou: “Queres, senhora, que vá chamar uma mulher israelita para criar o menino?” Respondeu a princesa: “Sim, vai!” A moça correu chamar a própria mãe. A filha de Faraó disse-lhe: “Toma este menino e cria-o para mim; eu te pagarei o trabalho!” A mãe levou o menino e o criou. Quando estava crescido, entregou-o a filha de Faraó, que o adotou e disse: “Deve chamar-se Moisés, porque foi salvo das águas”. Moisés foi instruído em todas as ciências dos egípcios.

27. Vocação de Moisés

1. Moisés foge. - Em meio das honras da corte, onde foi educado, não esqueceu Moisés a infelicidade de seus irmãos, que cada vez mais se viam oprimidos. Chegado à idade de 40 anos, tomou corajosamente sua defesa. Presenciou, certo dia, como um egípcio maltratava a um israelita; indignado, assassinou o malfeitor. Faraó, quando o soube, mandou procurar Moisés para o matar. Este, porém, fugiu para Madiã, onde permaneceu durante 40 anos, em casa do sacerdote Jetro, guardando-lhe os rebanhos.

2. Deus lhe aparece. - Certo dia, Moisés levou o rebanho pelo deserto até o monte Horebe. Ali viu um espinheiro que ardia em chamas sem se consumir. Moisés aproximou-se para ver de perto o fenômeno. Mas uma voz, que saia do meio da chama, bradou: “Moisés, não te aproximes! Descalça os sapatos, porque o lugar onde estás é sagrado! Eu sou o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó”. Então Moisés cobriu o rosto, porque não se atrevia a olhar para o Altíssimo. O Senhor continuou: “Vi a aflição do meu povo no Egito e ouvi seu clamor. Quero libertá-lo do poder dos egípcios e conduzi-lo para o país onde correm rios de leite e mel. Vai, pois, a Faraó e livra o povo de Israel da escravidão”.

3. Moisés recusa-se. - Moisés disse: “Quem sou eu para ir a Faraó e fazer saírem do Egito os israelitas?” Deus respondeu: “Estarei contigo”. Moisés replicou: “Os filhos de Israel perguntar-me-ão: Como se chama aquele que te mandou? Que devo responder-lhes?” Disse Deus: “Eu sou o que sou: Dize-lhes, portanto, aquele que é mandou-me a vós”. Moisés replicou: “Mas não me acreditarão e dirão: O Senhor não apareceu”. Deus perguntou-lhe: “Que tens na mão?” Moisés respondeu: “Um bastão”. Ordenou-lhe Deus: “Atira-o em terra”. Moisés assim fez e o bastão se converteu em cobra. Moisés fugiu dela, mas o senhor lhe disse: “Estende tua mão e pega pela cauda”. Assim o fez e a cobra voltou a ser bastão. Outra vez, disse Deus: “Mete a tua mão no seio!” Ao retirá-la estava coberta de lepra. “Torna a metê-la no seio” - continuou o Senhor. Moisés obedeceu e a mão ficou curada. Deus disse em seguida: “Apresentar-lhes-ás estes sinais e dar-te-ão crédito”. Outra dificuldade opôs Moisés: “Senhor, não tenho facilidade de falar”. O Senhor lhe replicou: “Quem formou a boca do homem? Quem fez o mudo e o surdo? Aquele que vê e o que é cego? Não fui eu? Vai, pois. Ensinar-te-ei o que tiveres de dizer”. De novo se escusou: “Rogo-vos, Senhor, enviar aquele que quereis enviar!” Então Deus se irritou contra Moisés e disse: “Aarão, teu irmão, é eloquente: ele falará em teu nome e tu farás os milagres perante o povo”.

4. Moisés e Arão no Egito. - Moisés regressou para o Egito. Por ordem de Deus, Aarão foi ao seu encontro. Moisés referiu-lhe os desígnios do Senhor. Logo que chegaram, reuniram os filhos de Israel; Aarão expôs tudo que Deus tinha ordenado a Moisés, e este, por sua vez, fez os milagres. O povo lhes deu crédito e adorou o Senhor.

28. As dez pragas do Egito

1. Moisés e Aarão ante Faraó. - Moisés e Arão apresentaram-se a Faraó e falaram-lhe: “Eis o que diz o Senhor, Deus de Israel: Deixa partir meu povo a fim de que ofereça sacrifícios no deserto”. Respondeu Faraó: “Quem é esse Senhor, para que eu deva obedecer às suas ordens? Não o conheço, nem deixarei partir Israel” E ordenou que o povo fosse oprimido com maior violência. Moisés exortou o Senhor, que disse: “Verás agora o que farei a Faraó. Os egípcios conhecerão que sou eu o Senhor!” Moisés e Arão voltaram de novo a Faraó. Aarão atirou em terra seu bastão, que se mudou em cobra. Faraó chamou seus magos, que fizeram outro tanto por meio de suas artes mágicas. Contudo, a cobra de Arão engoliu as outras. O coração de Faraó continuou endurecido.

2. Dez pragas. - Então Deus fez cair sobre Faraó e sobre o povo do Egito dez grandes pragas, que assolaram terrivelmente aquela nação, por causa de sua insubmissão às ordens de Deus.

  1. Toda a água se converteu em sangue. Ninguém podia bebê-la e os peixes nela pereceram.
  2. Saíram das águas inumeráveis rãs, que penetraram nas casas e foram encontradas até na cama e na comida do Faraó.
  3. Grandes nuvens de mosquitos deixaram-se cair sobre os homens e animais e os molestaram com mordeduras.
  4. Vieram enxames de moscas perigosas, em tal quantidade que invadiram a terra em todas as casas, causando tormentos atrozes.
  5. Uma epidemia dizimou o gado dos egípcios.
  6. Bexigas e úlceras dolorosas cobriram homens e animais.
  7. Medonha chuva de pedra destruiu as colheitas e matou os rebanhos que pastavam nos campos.
  8. Inumeráveis bandos de gafanhotos pousaram sobre o país, devorando tudo o que o granizo tinha poupado.
  9. Trevas espessas cobriram todo o Egito durante três dias; todavia onde os israelitas moravam era dia claro.

Faraó, acabrunhado por estas desgraças, mandou chamar imediatamente Moisés, pedindo-lhe: “Parti; fiquem somente vossos rebanhos! Moisés respondeu: “Todos os rebanhos hão de partir conosco; nem uma só unha de gado aqui ficará”. Então novamente se endureceu o coração de Faraó. Encolerizado, exclamou: “Retira-te e não apareças mais diante dos meus olhos, senão morrerás!” Moisés retrucou: “Sucedera como ordenaste; mas escuta o que diz o Senhor: Ainda farei cair mais uma praga sobre faraó e sua gente.

10. À meia-noite, morreram todos os primogênitos dos egípcios e haverá tristeza em todo o país; mas entre os israelitas não se ouvirá ganir um cão. Conhecereis assim quão maravilhosa distinção o Senhor faz entre os egípcios e os filhos de Israel”.

29. O cordeiro pascal e a saída do Egito

1. O cordeiro Pascal. - Moisés reuniu o povo de Israel, advertindo-o: “Ao décimo dia deste mês cada chefe de família tome um cordeiro, que seja de um ano e sem defeito. No dia catorze, pela tarde, matá-lo-á sem quebrar-lhe um osso sequer. Com o sangue tingireis os portais e as soleiras de vossas casas. Comereis, nessa mesma noite, sua carne assada ao fogo, com pão ázimo e alfaces amargas. Mas comê-la-eis à pressa e como quem vai de viagem: de cinta posta, calçados nos pés e bordão na mão; porque esta é uma páscoa, Isto é: a passagem do Senhor. Nesta noite mandarei meu anjo matar todos os primogênitos dos egípcios; vendo, porém, o sangue na porta de vossas casas, passará adiante sem vos atingir”.

2. A saída. - Os israelitas fizeram o que o Senhor tinha ordenado. Pela meia-noite, o anjo do Senhor matou todos os primogênitos dos egípcios, desde o primogênito do Faraó até o primogênito da escrava. Morreram também os primogênitos dos animais. Ergueu-se então um imenso grito de dor em todo o Egito, porque não existia casa em que não houvesse algum morto. Faraó mandou chamar Moisés e Aarão ainda nesta mesma noite, e rogou-lhes: “Ide-vos embora com vosso povo e vossos rebanhos e, ao partir, abençoai-me”. Os egípcios também apressaram o povo de Israel, dizendo: “Saí imediatamente, senão morreremos todos”. Então os israelitas partiram do Egito em número de 600 mil guerreiros, sem contar as mulheres e as crianças. Com eles partiram também muitos egípcios; Moisés levou o sarcófago que continha os restos mortais de José. Deus ordenou ainda aos israelitas: “Todo primogênito, tanto dos homens quanto dos animais, ser-me-á consagrado. Guardai a lembrança deste dia, em que minha mão poderosa vos tirou do Egito. Cada ano, do dia 14 deste mês, todo chefe de família matará, à tarde, um cordeiro, sem lhe quebrar osso algum, e o comerá em família. Celebrareis esta festa durante 7 dias e durante eles só comereis pão ázimo”.

30. A passagem do Mar Vermelho

1. Os israelitas atravessam o mar. - Deus mesmo mostrou aos israelitas o caminho que deviam seguir. Caminhava diante deles, durante o dia, em uma coluna de nuvens, que durante a noite brilhava como fogo. Assim chegaram ao Mar Vermelho, onde acamparam. Faraó arrependeu-se, entretanto, de ter deixado partir os israelitas. Perseguiu-os, por isso, com carros de guerra e com todo o seu exército; alcançou-os à tarde, perto do Mar Vermelho. Os filhos de Israel, quando viram que tinham pelas costas os egípcios em frente do mar, apavorados imploraram ao Senhor. Moisés, porém, os acalmou: “Não temais. O Senhor combaterá por vós”. Eis que se levantou uma coluna de nuvens e colocou-se entre os egípcios e os israelitas. Do lado destes, a nuvem era luminosa; do lado oposto, porém, tão escura que os egípcios, durante a noite, não puderam chegar até aos israelitas. Moisés, por ordem de Deus, estendeu então o bastão sobre o mar. Logo as águas se dividiram e levantaram dos dois lados, como paredes. Os israelitas atravessaram o mar a pé enxuto.

2. Os egípcios morrem Afogados. - Ao romper do dia, os egípcios teimaram em perseguir os israelitas até o meio do mar aproveitando-se da mesma passagem. Então saíram relâmpagos e trovões da coluna de nuvens. Os egípcios, cheios de medo, reclamaram: “Fujamos dos israelitas, porque o Senhor peleja contra nós”. Mas Deus disse a Moisés: “Estende tua mão sobre o mar”. E ele é assim fez e as águas se juntaram de novo, cobrindo todo o exército de Faraó; nem um só dos egípcios escapou. foi assim que neste dia o Senhor salvou o povo de Israel das mãos dos egípcios. O povo, à vista de tão grande milagre, temeu o poder divino, afirmando sua confiança nele e em seu servo Moisés. E todos entoaram um canto de louvor ao Senhor.

31. Os milagres do deserto

1. Deus melhora as águas amargas. - Depois de terem atravessado o Mar Vermelho, os israelitas continuaram a marcha e entraram num vasto deserto. Andaram durante três dias sem achar a água; finalmente encontraram uma fonte mas a água era tão amarga que não podiam beber. O povo começou a murmurar contra Moisés: “Que havemos de beber?” Moisés pediu conselho a Deus. Ele lhe indicou certa madeira, que lançada na água a tornou doce e potável.

2. Deus alimenta o povo com codornizes e maná. - Um mês depois, faltavam os víveres aos israelitas. Tornaram a murmurar contra Moisés e Arão: “Oxalá tivéssemos morrido no Egito! Lá nos sentávamos junto às panelas de carne e tínhamos pão à vontade”. O Senhor disse a Moisés: “Ouvi as queixas dos israelitas. Dizer-lhes: Logo comereis carne e amanhã vos fartareis de pão”. Sucedeu que a tarde vieram codornizes em grandes bandos; cobriam todo o acampamento e deixavam-se apanhar facilmente. Ao amanhecer, o solo estava coberto de inumeráveis grãozinhos brancos, à semelhança de geada. Quando os filhos de Israel os viram, exclamaram: “Manhu?” (Que é isso?) Moisés respondeu: “Este é o pão que o Senhor nos dar para comer. De manhã cada um colha a provisão para esse dia. No sexto dia recolhereis porção para dois dias; pois no sábado nada encontrarei”. Assim o fizeram. Apanhavam maná, uns mais, outros menos, mas cada um recolhia quanto podia comer. Moisés lhe disse ainda: “Ninguém guarde alimento para o dia seguinte”. Alguns, porém, não lhe deram ouvidos; tendo guardado maná para o outro dia, acharam-no estragado e cheio de bichos. Só o maná guardado para o sábado não se deteriorava. Com este pão celeste Deus alimentou os israelitas durante 40 anos, até que chegaram a terra prometida. O sabor do maná era agradável como o de favos de mel.

3. Deus faz brotar água dum rochedo. - Algum tempo depois, tornou a faltar água. O povo murmurou de novo contra Moisés: “Porque nos fizestes sair do Egito? Queres deixar-nos morrer de sede neste deserto?” E ameaçaram apedrejá-lo. Moisés dirigiu-se a Deus, que ele disse: “Vai ao monte Horebe e bate no rochedo com teu bastão”. Moisés obedeceu e logo brotou no rochedo tamanha abundância de água, que todo o povo matou a sede.

4. Josué derrota os amalequitas. - Enquanto os israelitas se detinham neste lugar, foram atacados pelos amalecitas. Moisés enviou Josué para combatê-los; e ele subiu ao Monte Horebe para orar. Enquanto Moisés rezava, de braços erguidos para o céu, os israelitas venciam; mas, logo que os deixava cair, os amalecitas ganhavam terreno; por isso os dois companheiros de Moisés, vendo que ele já estava cansado, lhe sustentavam os braços até a noite. Josué derrotou completamente os inimigos.

32. Promulgação dos dez mandamentos

1. O povo prepara-se. - 48 dias depois da saída do Egito, os israelitas chegaram ao pé do Monte Sinai. Mandou Então Deus a Moisés: “Anuncia aos israelitas: Vós mesmos vistes o que fiz aos egípcios, para proteger-vos. Conduzir-vos como uma águia conduz seus filhos sob as asas; se guardardes minha aliança, sereis meu povo escolhido”. Moisés repetiu ao povo as palavras de Deus. Todos responderam ao mesmo tempo: “Faremos tudo o que o senhor mandar”. Em seguida o senhor disse a Moisés: “Recomenda ao povo que se santifique hoje e amanhã, que lave seus vestidos e esteja preparado, pois no terceiro dia descerei à vista de todos no Sinai. Põe estacas ao redor do Monte para que ninguém suba. Mas, quando ressoarem as trombetas aproximem-se todos!” Moisés executou tudo o que o senhor lhe tinha ordenado.

2. Os dez mandamentos. - Na manhã do terceiro dia, começou a relampejar e trovejar. Uma nuvem espessa cobriu o monte e o estrondo das trombetas tornou-se cada vez mais forte. Então Moisés fez avançar o povo até ao pé do monte. O povo tremia de medo, pois toda a montanha estremecia até a base e lançava fogo e fumaça pelo cume. E Deus falou do meio das chamas:

“I. - Eu sou o Senhor, teu Deus. Não terás deuses falsos a meu lado; nem esculpirás imagens para as adorar.

II. - Não pronunciarás em vão o nome do Senhor, teu Deus.

III. - Lembra-te de santificar o dia do sábado.

IV. - Honrarás teu pai e tua mãe, a fim de víveres muito tempo sobre a terra.

V. - Não matarás.

VI. - Não cometerás adultério.

VII. - Não furtarás.

VIII. - Não levantarás falso testemunho contra teu próximo.

IX. - Não desejarás a mulher do teu próximo.

X. - Não cobiçarás a casa do teu próximo, nem seus campos, servos, servas, bois, jumentos, nem coisa alguma que lhe pertença.”

   O povo cheio de terror, afastou-se do monte e disse a Moisés: “Fala-nos tu próprio, que queremos escutar-te; mas não nos fale o Senhor, porque poderíamos morrer”. Moisés respondeu: “O Senhor desceu do céu, para que vós temais e não pequeis”. O povo depois regressou ao acampamento.

3. Aliança entre Deus e o povo. - Moisés escreveu as palavras do senhor num livro, erigiu um altar e sacrificou vítimas, lendo em seguida, na presença do povo, o que tinha escrito, e todos prometeram a uma voz: “Faremos tudo o que o Senhor ordenou”. Tomou então Moisés do sangue das vítimas, aspergiu com ele o povo e o livro, declarando: “Este é o sangue da aliança que o Senhor contraiu conosco”.

4. As duas pedras da lei. - Deus ordenou a Moisés: “Sobe ao monte! Quero dar-te os mandamentos escritos em duas lápides!” Moisés subiu e aí ficou ouvindo a Deus durante 40 dias e 40 noites, sem comer nem bebe. Além dos mandamentos gravados em duas pedras, Deus comunicou-lhe ainda muitas outras ordens para o povo de Israel.

33. O bezerro de ouro

1. Idolatria do Povo. - O povo, vendo que Moisés se demorava tanto tempo no monte, insurgiu-se contra a Aarão, intimando-o: “Faze-nos um deus que marche à nossa frente; quanto a Moisés, ninguém sabe o que é feito dele”. Aarão respondeu: “Ide tirar os brincos de vossas mulheres e de vossas filhas, e trazei-mos aqui”. Eles assim procederam. Com essas jóias Aarão fabricou um bezerro de ouro. Os israelitas disseram: “Eis o deus que nos fez sair do Egito!” Ofereceram sacrifícios a estes ídolo, comeram e beberam, folgaram e dançaram, à moda dos pagãos.

2. Deus irrita-se; Moisés intercede. - O Senhor disse a Moisés: “Desce, pois teu povo pecou. Fez um bezerro de ouro para o adorar. Deixa que se acenda contra ele o furor de minha indignação! Vou aniquilá-lo; mas far-te-ei chefe de um grande povo”. Moisés, porém, intercedeu em favor dos israelitas: “Tende compaixão do povo e perdoai-lhe sua maldade!”. Então Deus você deixou a placar e desistiu do castigo prometido.

3. Moisés Castiga os idólatras. - Moisés desceu do monte, trazendo na mão as duas tábuas da lei. Chegando perto do acampamento, enxergou o bezerro de ouro e os grupos de dançarinos. Possuído de violenta cólera, quebrou as tábuas da lei, arremessando-as por terra. Apanhou depois o bezerro, reduzindo-o a pó. Misturou esse pó com água e obrigou o povo a  bebê-la. Adiantou-se então até à entrada do acampamento e disse: “Para meu lado, os que ainda são do Senhor!”. Todos os filhos da tribo de Levi permaneceram fiéis. Moisés lhes ordenou: “Tomai as espadas! Passai pelo acampamento de porta em porta e matar a todos os que encontrardes em idolatria!”. Cumpriram a ordem, matando neste dia cerca de 23 mil homens.

4. Deus renova a aliança com o povo. - No dia seguinte, Moisés tornou a subir ao monte, e pediu perdão para o povo infiel: “Perdoai, Senhor, ao povo este grande crime ou, senão, riscai também meu nome do livro dos viventes!”. Deus atendeu à oração de Moisés e renovou os mandamentos, pela segunda vez, em duas outras pedras. Moisés permaneceu ainda no monte 40 dias e 40 noites, sem comer nem beber. Ao descer tinha o rosto tão resplandecente que os israelitas não ousavam aproximar-se dele. Quando queria falar ao povo, velava o rosto com um véu e somente o desvendava quando falava com Deus.

34. O tabernáculo

1. O povo disposto a sacrifícios. - Moisés reuniu o povo e disse: “Escolhei vossos melhores presentes a fim de oferecê-los, de boa vontade, ao tabernáculo do Senhor”. Todos se apressaram em fazer jóias de ouro e prata, pedras preciosas e estofos de valor. Moisés confiou a execução da obra a dois hábeis artistas, que construíram o tabernáculo e fizeram os utensílios sagrados conforme os modelos indicados pelo Senhor. Durante a construção, todas as manhãs, o povo trazia novas ofertas, a tal ponto que Moisés se viu obrigado a dizer-lhes: “Basta! já há mais do que é preciso!”

2. O tabernáculo. - O tabernáculo era uma tenda portátil de 30 côvados de comprimento, 10 de largura e 10 de altura. Três lados eram de tábuas de acácia, revestidas de ouro; a fachada era construída por uma cortina preciosa, o teto era formado de peles e ricos tapetes. Uma cortina artisticamente tecida de seda azul, púrpura e escarlate, dividia o interior da tenda em duas partes. A parte anterior que era de 20 côvados * de comprimento, chamava-se santo; o espaço atrás da cortina era denominado santo dos santos. Ao redor do tabernáculo havia um átrio de 100 côvados de comprimento e 50 de largura. Era cercado por uma cortina de linho fino, de cinco côvados de altura, que estava dependurada entre as colunas de acácia, fincadas de cinco em cinco côvados.

* Um côvado tem 44 centímetros.

3. Utensílios sagrados.

  1. No santo dos santos. - No santo dos santos foi colocada a arca da aliança. Tinha 2 1/2 côvados de comprimento, 1 1/2 de largura, e outro tanto de altura. Era de madeira de acácia e revestida, por dentro e por fora, de ouro finíssimo. A parte superior, feita de puro ouro, chamava-se propiciatório, e era de madeira especial o trono de Deus na terra. Daí manifestava-se sua presença e dava suas ordens a Moisés. Dois querubins de ouro, postos na frente um do outro, cobriam a arca, com suas asas estendidas. Dentro da arca depositaram as duas tábuas da lei e uma urna com maná. Assim, era a arca um testemunho da aliança estabelecida entre Deus e os israelitas.
  2. No Santo. - No santo achava-se, ao lado esquerdo, o candelabro dos sete bicos, fabricado de ouro puro e cujas sete luzes ardiam continuamente. Ao lado direito, ficava a mesa dos “pães da proposição”, também coberta de ouro. Em cima dela estavam colocados 12 pães ázimos, de farinha mais fina, que deviam renovar-se em cada sábado. Ao meio, diante da cortina dos santosanto dos santos, achava-se o altar dos perfumes, feito de madeira de acácia e coberto de ouro mais fino; aí queimava-se todos os dias, pela manhã e à noite, um incenso precioso, composto de 24 essências.
  3. No átrio. - No átrio via-se o altar dos holocaustos, de madeira acácia recoberta de bronze, sobre o qual se imolavam as vítimas dos sacrifícios; ao lado estava uma grande bacia de bronze, para abluções dos sacerdotes.

4. Consagração do tabernáculo. - Quando a obra ficou concluída, Moisés ungiu com óleo o tabernáculo e todos os utensílios do culto. Nesta ocasião a coluna de nuvens desceu sobre a tenda sagrada e a glória do Senhor encheu. Todas as vezes que a nuvem se levantava, os israelitas se punham em marcha e a acompanhavam; e, quando ela baixava, armavam suas tendas.

35. Sacerdotes e levitas

1. Consagração dos sacerdotes. - Para exercer o ministério do tabernáculo, Deus escolheu a tribo de Levi. Moisés investiu seu irmão Aarão das funções de sumo sacerdote e designou para sacerdotes os filhos dele e seus descendentes. A dignidade de sumo sacerdote ficava ligada para sempre à primogenitura. Os restantes membros da tribo auxiliavam os sacerdotes no serviço divino e chamavam-se levitas. Antes de exercerem as funções religiosas, deviam ser consagrados. Por isso, Moisés conduziu Aarão e seus filhos a presença do povo e revestiu-os das vestes sacerdotais. Também derramou óleo santo sobre a cabeça de Arão e ungiu os filhos dele. As vestimentas dos sacerdotes no exercício de suas funções eram: 1) um calção de linho; 2) uma túnica de linho branco, que descia até aos calcanhares; 3) uma cinta; 4) um turbante de mesmo tecido. Por cima desses ornamentos sacerdotais o sumo sacerdote trazia quatro outros: 1) uma veste de bisso azul-escuro; ela descia do ombros até aos joelhos, e era guarnecida, em toda a orla, de campainhas de ouro, que alternavam com romãs; 2) o umeral, tecido de linho fino, entremeado de fios de ouro. Tinha duas partes, presas sobre os ombros por duas pedras preciosas; a parte inferior estava fixa por meio de fitas; 3) o peitoral, que trazia por cima do umeral. Por fora era cravejado de 12 pedras preciosas, em cada uma das quais se lia o nome de uma das tribos; 4) em cima do turbante dos sacerdotes comuns, o sumo sacerdote trazia uma placa de ouro com estas palavras: Consagrado ao Senhor.

2. Funções sacerdotais. - O sumo sacerdote era chefe eclesiástico dos filhos de Israel. Cabia-lhe a direção dos sacerdotes e a administração geral do culto divino; só ele podia entrar no santo dos santos e oferecer os sacrifícios na solenidade das expiações. Os sacerdotes tinham de oficiar nos sacrifícios ordinários, rezar pelo povo, dar-lhe a bênção, instruí-lo na lei e preparar tudo para as funções sagradas.

3. Sustento dos sacerdotes. -  Para o sustento dos sacerdotes e levitas deviam as 12 tribos pagar em cada ano o dízimo. Destinava-se ao mesmo fim uma parte de certos sacrifícios.

36. Os sacrifícios

1. Ofertas. - Moisés, por ordem de Deus, regulou as diversas espécies de sacrifícios. Uns eram cruentos; incruentos outros. Para os sacrifícios cruentos escolhiam-se bois, ovelhas e outros animais puros e sem defeito. Quem queria oferecer deste sacrifícios, apresentava a vítima na entrada do tabernáculo; impunha as mãos sobre a cabeça do animal matando em seguida. Os sacerdotes recolhiam o sangue em vasos e o derramavam em redor do altar. Depois acendiam o fogo para consumir a vítima total ou parcialmente. Os sacrifícios incruentos consistiam em ofertas de trigo, pão ázimo, vinho, azeite, óleo e incenso.

2. destino dos sacrifícios. - Em relação ao seu destino, os sacrifícios eram holocaustos, expiatórios e pacíficos. Nos holocaustos, a vítima era totalmente consumida pelo fogo. Tinha por fim reconhecer o soberano o domínio de Deus, adorando-o, e representava, ao mesmo tempo, a inteira entrega de sua pessoa o supremo Senhor. Nos expiatórios, que se ofereciam em expiação das faltas contra Deus, só se queimavam as partes gordas do animal; o resto da vítima ficava para alimentação dos sacerdotes. Os sacrifícios pacíficos visavam agradecer os benefícios recebidos ou pedir novos favores. Também nestes se queimavam as gorduras; o resto era repartido entre o sacerdote e o ofertante. Depois do sacrifício, os ofertantes preparavam no próprio átrio um banquete para si e suas famílias, durante o qual se consideravam como amigos e hóspedes de Deus.

3. Tempo do sacrifício. - No átrio era oferecido em holocausto diariamente, pela manhã e à tarde, um cordeiro, enquanto no santo se queimavam incenso e outras substâncias aromáticas. Para os sábados e dias de festa Deus tinha determinado sacrifícios especiais; além dos sacrifícios prescritos, os israelitas ofereciam em certas ocasiões dádivas espontâneas.

37. O sábado, as festas e o tempo sacrificado

1. O Sábado. - Os israelitas guardavam em cada semana o sábado. Deus havia ordenado ao povo: “Seis dias trabalharás e farás neles o que precisares; mas o sétimo dia é o sábado do Senhor, teu Deus. Neste dia não farás nenhuma obra servil, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu criado, nem tua criada, nem teu boi, nem teu jumento, nem o hóspede que te estiver em tua casa. Quem trabalhar neste dia será castigado de morte!”

2. As três grandes solenidades. - Além do sábado, os israelitas tinham de celebrar, em cada ano, três grandes festas: a da páscoa, a de pentecostes e a dos tabernáculos. Nestas três solenidades todos os varões israelitas, desde a idade de 12 anos, deviam se apresentar diante do Senhor, visitando o tabernáculo e oferecendo sacrifícios.

  1. Festa de Páscoa. - A páscoa era celebrada durante seis dias, em memória da saída do Egito. No primeiro dia, cada chefe de família devia matar um cordeiro sem defeito e comê-lo em família, à semelhança da saída do Egito. Durante o tempo Pascal só era permitido comer pão ázimo.
  2. Festa de Pentecostes. - Esta realizava-se 50 dias depois da páscoa, em memória da promulgação da lei, ao pé do Sinai. Também tinha por fim dar graças a Deus pela colheita dos cereais que se acabava de fazer.
  3. Festa dos tabernáculos. - A festa dos tabernáculos se efetuava no outono, em memória das peregrinações do povo pelo deserto. Era a mais jubilosa de todas. Durante sete dias os israelitas habitavam em tendas cobertas de Ramos.

3. Dia da expiação. - Cinco dias antes da festa dos tabernáculos era o grande dia da expiação. Um jejum rigoroso e outras obras de Penitência eram de obrigação. De manhã cedo oferecia um touro por seus próprios pecados e pelos dos sacerdotes; depois um carneiro pelos pecados do povo. Com o sangue dessas vítimas aspergia o propiciatório da arca e todos os santos dos santos. Em seguida impunha as mãos sobre a cabeça de um bode, transferindo-lhe assim simbolicamente os pecados do povo, e mandava enxotá-lo para o deserto.

4. Ano sabático e jubilar. - De cada sete em sete anos e de 50 em 50 havia um dedicado ao Senhor. Aquele chamava-se ano sabático; este, ano de jubileu. Durante eles era proibido cultivar os campos e cobrar dívidas. No ano de Jubileu, além disso, os escravos israelitas eram restituídos à liberdade e os bens vendidos voltavam, sem remuneração, aos possuidores primitivos ou aos herdeiros.

38. Os exploradores

1. Moisés manda reconhecer o país. - Os israelitas demoraram-se um ano inteiro perto do monte Sinai. Quando a nuvem se levantou por cima da tenda sagrada, puseram-se em marcha e chegaram à fronteira meridional de Canaã. Por ordem de Deus mandou Moisés 12 homens para explorar o país. Entre esses se achavam Josué e Caleb. Ao cabo de quarenta dias, voltaram os exploradores, trazendo consigo magníficos frutos do país. Dois homens carregavam, numa vara posta aos ombros, um cacho de uvas assim como romãs e figos. Dez dos exploradores disseram: “É realmente um país onde corre leite e mel; mas os habitantes são poderosos e têm grandes cidades, cercadas de fortes muralhas. Vimos lá gigantes, ao lado dos quais parecíamos apenas gafanhotos”.

2. O povo revela-se contra Moisés. - Ouvindo notícias tão assustadoras, o povo começou a revoltar-se contra Moisés: “Ah! se tivéssemos morrido no Egito! Melhor para nós seria voltarmos para lá! Vamos escolher um chefe para que nos reconduza!” Debalde Josué e Caleb procuravam apaziguar os rebeldes, dizendo: “Não temais os moradores do país! Deus está conosco e ele nos conduzirá a terra prometida”. Mas toda a multidão gritava cada vez mais alto e queria apedrejar os dois.

3. Deus castiga o povo. - Esse tumulto irritou muito o Senhor, que declarou a Moisés: “Por quanto tempo ainda esse povo iníquo há de murmurar contra mim? Quero exterminar-lo; a ti; porém, farei chefe de um povo maior e mais nobre”. Moisés interpôs suas súplicas: “Perdoa Senhor seu pecado segundo tua grande misericórdia” O Senhor respondeu: “Por causa de tua prece, e o perdoarei. Mas dize-lhe: O que ele desejou há de suceder-lhe. Todos aqueles que, ao saírem do Egito, tinham 20 anos ou mais, nem um só entrará na terra prometida, exceto Josué e Caleb. Seus filhos errarão pelo deserto durante 40 anos, até que se tenham consumido os cadáveres dos pais. Pelos 40 dias, que lhes bastavam para explorar o país, expiarão seus crimes durante 40 anos” Moisés transmitiu ao povo todas as palavras do Senhor. Os dez exploradores mentirosos, que tinham amotinado o povo, caíram mortos repentinamente à vista de todos.

39. Castigos de Deus no deserto. Vara de Arão

1. O blasfemador. - Dois israelitas brigaram no acampamento. Um deles proferiu pragas e blasfêmia contra Deus. Conduzido à presença de Moisés, este consultou o Senhor, que lhe disse: “Quem blasfema contra o nome de Deus, é réu de morte! Todo o povo o apedreje!” Levaram o blasfemador para fora do acampamento e o puniram conforme a ordem de Deus.

2. O profanador do sábado. - Surpreenderam, certa vez, um homem apanhando lenha em dia de sábado. Levaram-no a Moisés, que mandou metê-lo na prisão, até que Deus desse a conhecer o modo como deveria ser castigado. Disse Deus a Moisés: “Seja punido com a morte! Todo o povo o apedreje”. Conduziram-no para fora do acampamento e o apedrejaram.

3. Os revoltosos de Coré. - Algum tempo depois sublevaram-se, contra Moisés e Aarão, 250 homens nobres, tendo à sua frente o levita Coré e dois homens da tribo de Rúben, Datã e Abirão. Interrogavam a Moisés: “Por que vos elevais acima do povo do Senhor? Toda Assembleia é santa”. Moisés respondeu: “Deus mesmo o julgará!” No dia seguinte, dirigiu-se com Aarão para as tendas dos três promotores da rebelião e disse ao povo: “Retirai-vos daqui, porque, se estes morrerem de morte natural, não sou eu o enviado de Deus!” No mesmo instante, abriu-se a terra debaixo dos pés dos revoltosos e os engoliu vivos, com suas famílias e seus bens.

4. A vara de Arão. - Depois o Senhor ordenou a Moisés: “Venha cada chefe da tribo com um bastão que designarás com o nome do respectivo dono. Sobre o bastão de Levi, escreverás o nome de Aarão. Depois depositarás todos diante da arca da aliança. O bastão daquele que escolhi para o sacerdócio reverdecerá”. Moisés cumpriu a ordem do Senhor. No dia seguinte, ao entrar no tabernáculo, achou reverdecido o bastão de Aarão. Tinham brotado dele folhas e rebentos flores e frutos. O povo assim reconheceu que Aarão era o sacerdote escolhido por Deus. Moisés depositou a vara de Aarão na arca, como testemunho contra os filhos rebeldes de Israel.

5. Desconfiança de Moisés e Aarão. - Sobreveio de novo aos israelitas grande falta d’água. Murmuraram contra Moisés e Aarão, dizendo: “Por que nos trouxestes para este deserto, onde nem há água para beber?” Moisés e Aarão, prostrados com o rosto em terra, clamaram ao Senhor. Este disse a Moisés: “Toma teu bastão e convoca a assembléia. Assistido por Aarão, falarás ao rochedo, na presença do povo, e o rochedo dar-vos-á de sua água”. Moisés reuniu o povo e disse: “Escutai, incrédulos e rebeldes! Poderemos acaso fazer brotar deste rochedo água para nós?” Levantou o bastão e bateu duas vezes no rochedo: a água jorrou logo em grande abundância. Mas esta dúvida de Moisés e Arão desagradou o Senhor, o que lhes disse: “Porque desconfiastes de mim, não haveis de introduzir o povo na terra prometida!”. Pouco tempo depois faleceu Aarão. Foi pranteado durante 30 dias. Por ordem de Deus, Moisés revestiu das vestes sacerdotais Eleazar filho primogênito de Aarão.

6. A serpente de bronze. - Os israelitas, cansados das longas peregrinações, aborreceram-se do maná e disseram a Moisés: “Este alimento miserável já nos causa repugnância”. Para lhes castigar a ingratidão, Deus enviou serpentes venenosas, cujas mordeduras queimavam como fogo. Muitos foram mordidos e morreram. O povo dirigiu-se então a Moisés, para dizer-lhe: “Pecamos contra o Senhor; pede-lhe que nos livre destas serpentes”. Moisés intercedeu pelo povo e Deus condescendeu: “Faze uma serpente de bronze e coloca-a no alto de um poste. Todo aquele que foi mordido e olhar para ela, será curado”. Moisés assim o fez; e todos aqueles que se sentiam mordidos e olhavam para a serpente de bronze tinham a vida salva.

40. O Profeta Balaão

1. Benção e profecia de Balaão. - Completavam-se enfim os 40 anos de peregrinação pelo deserto, quando os israelitas chegaram à fronteira da terra prometida. Aproximaram-se da margem oriental do Rio Jordão, para daí entrarem em Canaã. Todas as nações pagãs, que lhes recusavam a passagem, eram derrotadas a fio de espada. Deste modo, conquistaram quase todo o território dalém Jordão e acamparam depois na planície de Moab, em frente a Jericó. Balac, rei dos moabitas, assustou-se muito quando soube da marcha vitoriosa dos israelitas, porque se sentia fraco para resistir. Valeu-se, pois, de outras armas. Mandou a Balaão, célebre adivinho, que morava na Mesopotâmia, emissários com esta mensagem: “Chega-nos do Egito, um povo numeroso que ocupa todo o país. Vem amaldiçoar esse povo, que talvez eu consiga assim derrotá-lo expulsá-lo de meu país!” Balaão pôs-se a caminho. O rei veio-lhe ao encontro e o levou sucessivamente ao cume de três montes diversos, donde se podia avistar todo o acampamento dos israelitas. Balaão sempre se esforçava para amaldiçoar o povo, mas Deus o obrigava a abençoar os israelitas. Por fim, profetizou ainda, exclamando: “Como são belos teus pavilhões, ó Jacó! Como são belas as tuas tendas, ó Israel! Eu o vejo, mas não agora; eu o contemplo, mas não de perto. Uma estrela sairá de Jacó, um cetro se levantará de Israel,  e esmagará os príncipes de Moab”.

2. Conselho de Balaão. - Ouvindo estas palavras, o rei protestou, cheio de indignação: ”Chamei-te para amaldiçoares meus inimigos e tu os abençoaste três vezes. Vai-te!” Balaão respondeu: “Não posso alterar a palavra do Senhor. Mas antes de me retirar, escuta meu conselho: Seduze o povo à idolatria e Deus o entregará em tuas mãos”. Balac seguiu o conselho, fazendo celebrar uma festa em honra dos deuses dos moabitas. Os israelitas assistiram a ela, adoraram os falsos deuses e cometeram muitos outros crimes de idolatria. Deus, indignado, flagelou Israel com uma praga, que fez perecer 24 mil homens. Por fim, os israelitas venceram os inimigos. Entre os mortos foi encontrado também em Balaão.

41. Últimas exortações e morte de Moisés

1. Exortações de Moisés. - Quando Moisés chegou ao fim de sua carreira, Deus lhe disse: “Impõe as mãos a Josué, na presença de todo o povo, a fim de que todos dora em diante lhe obedeçam!” Moisés assim fez e em seguida falou ao povo, nestes termos: “É aqui neste deserto que vou morrer; não atravessarei o Jordão. Vós passareis e entrareis na posse deste belo país que lá se estende. Não esqueçais a aliança que com o Senhor fizestes. Escuta, Israel: o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor! Amarás ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda tua alma e de todas as tuas forças. Contai a vossos filhos o que o Senhor praticou em vosso benefício e ensinai- lhes seus mandamentos! Eis que vos proponho hoje a bênção e a maldição. Se cumprirdes todos os mandamentos do Senhor, sereis abençoados nas cidades e nos campos; serão abençoados vossos filhos, abençoadas as lavouras e os rebanhos; se, porém, não ouvirdes a voz do Senhor, cairá sobre vós a maldição”. Ele concluiu: “Deus suscitará no meio dos vossos irmãos um profeta, que será como eu: é a ele que escutareis!”

2. Morte de Moisés. - Depois de ter proferido estas palavras, Moisés abençoou as doze tribos de Israel e subiu ao monte Nebo. Deus mostrou-lhe daí todo o país de Canaã: “Eis a terra que prometi a Abraão, a Isaque e a Jacó. Tu a vês agora com teus olhos, mas não entrarás nela”. Moisés faleceu lá mesmo, na idade de 120 anos. Deus preparou-lhe uma sepultura e até hoje ninguém soube o lugar. Todo o povo de Israel chorou-o por espaço de 30 dias. Um profeta semelhante a Moisés, com quem Deus falasse face a face, nunca mais existiu em Israel.

PARTE IV - O  TEMPO DE JOSUÉ E DOS JUÍZES DESDE A ENTRADA NA TERRA PROMETIDA ATÉ SAUL

(1230 até 1030 antes de Cristo)

42. A entrada de Josué na terra prometida

1. O povo atravessa o Jordão. - Após a morte de Moisés, disse o Senhor a Josué: “Levanta-te e manda o povo atravessar o rio Jordão, para entrar na terra que lhe quero dar! Como estive com Moisés, assim estarei contigo”. Josué deu ordem ao povo de pôr-se em marcha. Na frente iam os sacerdotes, levando aos ombros a arca da aliança. Logo que os sacerdotes meteram os pés no rio, a água que vinha da nascente parou e ergueu-se como uma montanha, enquanto a água que já tinha passado se escoou para o Mar Morto. Ficou, assim, livre a passagem aos israelitas. Os sacerdotes tomaram lugar com a arca no meio do rio, deixando desfilar a pé enxuto todo o povo. Chegados também os sacerdotes à margem oposta, as águas do rio continuaram a correr como dantes. Em seguida acamparam os israelitas perto de Jericó, onde festejaram a páscoa e pela primeira vez comeram frutos do país. Desde então não caiu mais do céu o maná.

2. Conquista de Jericó. - Jericó era cidade cercada de fortes muralhas e bem munida. O Senhor disse a Josué: “Eis que trago em tuas mãos Jericó, seu rei e seus soldados. Durante 6 dias seguidos todos os guerreiros darão uma volta ao redor da cidade, uma vez por dia. No sétimo dia, porém, todos darão sete voltas, enquanto os sacerdotes, diante da arca, tocarão as trombetas. Na última volta, todo o povo bradará fortemente, e no mesmo instante desabarão por si mesmas as muralhas da cidade. Cada um, então, penetrará no lugar em que estiver!” Os israelitas fizeram como o Senhor lhes ordenara e conquistaram Jericó. Por ordem de Deus, mataram todos os habitantes e incendiaram a cidade.

3. Conquista de todo o país. - Para conquistar todo o país, Josué teve de guerrear ainda muitos povos, que se alinharam contra Israel. Mas Deus estava com ele e concedeu-lhe vitória sobre todos os inimigos. O número dos Reis derrotados foi de 31. Muitas vezes Deus auxiliou Josué de maneira milagrosa. numa ocasião 5 reis confederados entraram em campo contra Josué, em frente da cidade de Gabaão; Josué atacou-os de improviso e os perseguiu.

Receando que viessem a noite sem ter derrotado completamente os inimigos, dirigiu-se a Deus e pediu que fizesse parar o Sol e a Lua. E eis que o Sol e a Lua ficaram imóveis até que os israelitas conseguiram vitória total.

4. Josué partilha o país. - O país conquistado foi repartido por sorte entre as tribos de Israel. Cada tribo obteve assim o quinhão que Deus lhe quis conceder. Efraim e Manassés, filhos de José, receberam cada um sua porção completa, conforme Jacó tinha determinado no leito de morte. Somente aos descendentes de Levi não coube porção alguma, porque se sustentavam das oferendas e dos dízimos das colheitas, que cobravam às demais tribos. Foram-lhes designadas também, para sua residência no território das diversas tribos, 48 cidades. O tabernáculo foi levantado em Siló, terra da Tribo de Efraim. Entraram assim os israelitas na posse da terra que Deus prometera a seus pais.

5. Morte de Josué. - Antes de morrer, Josué reuniu ainda uma vez todas as tribos em Siquém, onde estavam sepultados os restos mortais de José, e falou-lhes: “Lembrai-vos dos benefícios que Deus vos concedeu e guardai e seus preceitos. Evitai a convivência com idólatras e não façais nenhuma aliança com eles. Conservai-vos fiéis ao Senhor, vosso Deus, para que ele combata em vosso favor. Se abandonardes o Senhor para servir a deuses falsos, ele fará cair sobre vós todas as desgraças. Escolhei hoje a quem quereis servir!” O povo respondeu: “Ao Senhor, nosso Deus, serviremos e observaremos seus mandamentos”. Assim Josué renovou solenemente a aliança entre Deus e os filhos de Israel. E aos 110 anos de idade faleceu.

43. Os juízes. Gedeão

1. Os juízes. - Depois da morte de Josué, os israelitas esqueceram-se da aliança feita com Deus. Em vez de destruírem os altares dos ídolos, prestavam culto às falsas divindades; travavam relações íntimas com os idólatras e casavam-se até com mulheres pagãs. Deus entregou-os, por isso, às mãos de seus inimigos, de modo que a uma opressão seguia-se logo outra. Invocavam então novamente ao Senhor, e pediam-lhe perdão de seus crimes. Deus ouvia a súplica dos infelizes; suscitava no meio deles homens cheios de fé e de energia, chamados juízes, que os libertavam de seus opressores. Houve 15 juízes em Israel, sendo os mais notáveis: Gedeão, Sansão, Heli e Samuel.

2. Vocação de Gedeão. - Para castigar as infidelidades dos israelitas, Deus entregou-os, por 7 anos, ao jugo dos madianitas. Estes vinham, todos os anos, no tempo da colheita, destruíram as plantações e roubavam os produtos. Em certa ocasião invadiram o país com um exército de 135.000 homens. Os israelitas, cheios de terror, esconderam-se em cavernas e clamavam por socorro ao Senhor. Apareceu o anjo do Senhor a Gedeão, quando este debulhava trigo, e saudou-o: “O Senhor está contigo, valente herói! És tu quem livrará Israel das mãos dos madianitas!” Gedeão objetou: “Como libertarei Israel? Minha família é a última da tribo de Manassés e eu o último da casa de meu pai”. O anjo lhe afirmou: “O Senhor está contigo e derrotarás os madianitas como se fosse um só homem”; e desapareceu. Animado pelo espírito do Senhor, Gedeão tocou a trombeta e trinta e dois mil homens vieram pôr-se ao seu lado.

3. Gedeão e o sinal. - Antes de sair a campo, Gedeão pediu um sinal a Deus, dizendo: “Estenderei eira esta lã de carneiro; se amanhã houver orvalho somente na lã, conservando-se em volta dela enxuto o terreno, reconhecerei por esse sinal que salvarei Israel por minhas mãos”. No dia seguinte, espremendo a lã, encheu uma grande taça de água; e o terreno em redor se achava enxuto. Disse Gedeão ainda a Deus: “Não vos irriteis, Senhor, se pedir novo prenúncio. Desejo que desta vez somente a lã fique seca, enquanto a terra em redor se umedeça de orvalho”. Foi satisfeito o pedido de Gedeão.

4. O exército de Gedeão. - Gedeão partiu, dirigindo-se contra os midianitas; Deus porém, lhe observou: “Há gente demais contigo. Não alcançarás, assim, a vitória sobre os madianitas, para que Israel não se glorifique, dizendo: -- Salvei-me por minhas próprias mãos. -- Manda apregoar pelo acampamento: Quem estiver com medo, volte!” Voltaram 22 mil homens, ficando somente 10 mil. O senhor continuou: “Ainda é demais! Leva-os à fonte. Põe de um lado os que beberem no côncavo da mão; e do outro os que se ajoelharem para beber”. Só houve 300 que beberam no côncavo da mão. Disse Deus: “Com estes 300 quero salvar Israel; manda todos os outros para suas casas”.

5. Vitória de Gideão. - Gideão dividiu os 300 homens em três grupos. Deu a cada guerreiro uma trombeta e uma bilha vazia, que continha um archote, e disse-lhes: “Fazei o mesmo que me virdes fazer!” Pela meia-noite, Gedeão e sua gente aproximaram-se, por três lados diferentes do acampamento inimigo. De repente, tocou a trombeta, quebrou a bilha, e agitando o archote, gritou:  “A espada do Senhor e de Gedeão!” Os 300 homens fizeram o mesmo. Espalhou-se, então, extraordinária confusão em todo o acampamento dos madianitas; gritavam, desempenhavam suas espadas, matando-se uns aos outros, e fugiam. De 135 mil homens, voltaram apenas 15 mil para seu país. Os guerreiros de Israel disseram a Gedeão: “Sejas nosso rei porque nos salvaste!” Gedeão respondeu: “Nem eu, nem meu filho, mas o Senhor seja vosso rei!”

44. Sansão

1. Nascimento de Sansão. -- De novo, os filhos de Israel procederam mal e o Senhor os submeteu durante 40 anos à opressão dos filisteus. Nesse tempo, vivia na tribo de Dan um casal que não tinha filhos. Apareceu-lhes o anjo do Senhor, dizendo: “Tereis um filho, que deverá ser consagrado ao Senhor, desde sua infância. Não beberá vinho nem outra bebida alcoólica; nem comerá alimento algum impuro e a tesoura não lhe cortará os cabelos!” Nasceu o filho primogênito e deram-lhe o nome de Sansão; o menino desenvolveu-se abençoado por Deus.

2. Força de Sansão. -- Já crescido, era de uma força admirável. Um dia, foi a uma cidade dos filisteus; e ali um leão um novo arremessou-se de repente contra ele, rugindo furiosamente. O espírito do Senhor se apossou então de Sansão, e este despedaçou a fera, como se fosse um cabritinho. Outra vez apanhou 300 raposas, amarrou-as duas a duas pela cauda, acendendo um facho entre elas, e soltou-as nas searas dos filisteus. O trigo, as vinhas e os olivais, tudo foi devorado pelo incêndio. Os filisteus, cheios de raiva, vieram em grande número para prendê-lo; amarraram-no com cordas novas e fortes; mas Sansão arrebentou, como se fossem fios de linha. Apanhou depois uma queixada de jumento, que se achava ali no chão, e com ela derrotou mil filisteus. Noutra ocasião, dirigiu-se Sansão à cidade de Gaza, onde pernoitou. Os filisteus, sabendo disso, trancaram as portas da cidade, para matá-lo na manhã seguinte. Sansão, depois de ter dormido até meia-noite, levantou-se, pôs em fuga os guardas, agarrou os dois portais com seus batentes e transportou tudo, às costas, para um monte próximo.

3. Sansão é preso. -- Mais tarde, Sansão casou-se com uma mulher dos filisteus, de nome Dalila. Esta insistia para que lhe revelasse o segredo de sua força. Por fim, Sansão disse: “Eu sou consagrado a Deus desde a mais tenra infância. Por isso nunca se pôs tesoura na minha cabeça. Se cortassem minha cabeleira, tornar-me-ia fraco como qualquer outro homem”. A mulher traidora, enquanto ele dormia, mandou cortar-lhe as sete tranças de seus cabelos. No mesmo instante, ele perdeu a antiga força. Os filisteus apoderaram-se dele, vazaram-lhe os olhos e o levaram amarrado para Gaza. Em sua prisão Sansão era obrigado a mover uma pedra de moinho.

4. Morte de Sansão. -- Os cabelos de Sansão iam, no entanto, crescendo e voltaram-lhe as forças. Um dia, os filisteus deram uma grande festa em honra do ídolo Dagão. Os chefes do povo, com 3 mil pessoas, estavam reunidos no templo pagão. Acabado o banquete, queriam um divertir-se. Mandaram buscar Sansão, para que tocasse e cantasse em presença deles, para os divertir. Sansão disse ao menino que eu levava pela mão: Leva-me para junto das duas colunas que sustentam todo o edifício”. Depois invocou o Senhor, dizendo: “Senhor, dá-me força ainda uma vez”. Em seguida agarrando as colunas, uma com a direita, outra com a esquerda, sacudiu-as com força. No mesmo instante, o templo desabou, esmagando sob suas ruínas toda a assembleia. Assim Sansão matou mais inimigos por ocasião de sua morte do que durante toda a vida.

45. Rute

1. Rute acompanha Noemi. -- No tempo dos juízes fez-se sentir a fome em Canaã. Por esse motivo, um homem de Belém emigrou, com sua mulher e seus dois filhos, para o país de Moab. Ele se chamava Elimelec, e sua mulher Noemi. Depois de sua morte, os dois filhos casaram-se com mulheres moabitas. Uma chamava-se Orfa, a outra Rute. Decorridos 10 anos, faleceram os dois filhos. Então Noemi resolveu voltar para sua terra; as noras acompanharam-na. Depois de caminharem por algum tempo juntamente, Noemi disse-lhes: “Voltai para casa de vossos pais; o Senhor vos recompense o muito que por mim e por meus filhos fizestes”. Orfa deixou-se convencer, despediu-se da sogra e voltou. Rute, ao contrário, respondeu: “A qualquer parte aonde fores, irei também eu; onde morares, morarei também eu; teu povo é meu povo, teu Deus, meu Deus! Onde tu morreres, aí quero eu também morrer”. Ambas chegaram a Belém, no tempo em que se fazia a ceifa da cevada.

2. Rute cuida de Noemi. -- Rute disse à sogra: “Queres que sai ao campo, para respigar?” Noemi respondeu: “Vai, minha filha!” Guiada pela mão de Deus, Rute entrou no campo de um homem rico, chamado Booz, da família de Elimelec. Este, no correr do dia, veio ao campo e, vendo Rute, perguntou aos ceifeiros: “Quem é esta moça?” informaram-lhe: “É a moabita que voltou com Noemi; anda no campo já desde cedo e é incansável no trabalho”. Booz disse a Rute: “Minha filha, fica aqui e junta-te a meus trabalhadores. Se tiveres sede, vai beber na talha deles e, quando for hora de comer, vem e come com eles, pois contaram-me todo o bem que fizeste a tua sogra. O Deus de Israel te dar a recompensa completa!” Depois recomendou aos segadores: “Deixai cair de propósito algumas espigas para que ela não tenha vergonha de as apanhar”. Rute fez como Booz lhe recomendara e respigou até ao fim da tarde. Quando bateu depois as espigas com uma vara, tinha cerca de três medidas de cevada. Levou-as à sogra, com o resto de sua refeição.

3. Booz casa-se com Rute. -- Depois da colheita, disse Booz a Rute: “Todos reconhecem que és uma mulher virtuosa: quero casar-me contigo”. Recebeu-a por esposa. O Senhor abençoou essa união, dando-lhes um filho de nome Obed. Este foi o pai de Isaí, e Isaí de Davi, de quem descende o salvador.

46. Eli e Samuel

1. Nascimento de Samuel. -- Os últimos juízes de Israel foram Heli e Samuel. Heli era ao mesmo tempo juiz e sumo sacerdote e morava em Siló, onde se achava a arca da aliança. Nessa época, vivia na montanha de Efraim um levita, chamado Élcana, com sua mulher Ana. Não tinham filhos, todos os anos iam a Siló sacrificar ao Senhor e adorá-lo. Um dia Ana fez o seguinte voto: “Senhor, Deus dos exércitos, se me deres um filho, eu prometo vo-lo consagrar, para toda a sua vida”. Atendeu o Senhor esta prece e deu-lhe um filho, a quem pôs o nome de Samuel, isto é, obtido de Deus pela oração. Quando o menino chegou a idade de 3 anos, a mãe o levou a Heli para que servisse a Deus no tabernáculo. Samuel cresceu ali e tornou-se agradável aos olhos de Deus.

2. Os filhos de Heli. -- Heli tinha dois filhos, Ofni e Fineés. Eram homens perversos, apesar de sacerdotes do Altíssimo. Quando vinham oferecer sacrifícios, roubavam para si porções a que os sacerdotes não tinham direito e cometiam outras ações abusivas no lugar sagrado, dando assim escândalo ao povo. Heli repreendia-os por isso, mas não os castigava. Deus mandou-lhe dizer: “Por que respeitas mais teus filhos do que a mim? Eis, Ofni e Fineés morrerão no mesmo dia.

3. Deus fala a Samuel. -- Samuel dormia no átrio do tabernáculo. Certa noite, o Senhor o chamou: “Samuel, Samuel!” Este levantou-se depressa e foi ter com Heli. “Eis-me aqui; não me chamaste?” Heli respondeu: “Não te chamei; volta e dorme!” Ele voltou e adormeceu. Outra vez o chamou o Senhor: “Samuel, Samuel!” O menino tornou a correr ao dormitório de Heli e lhe disse: “Aqui estou, não me chamaste?” Heli disse: “Não te chamei; vai dormir sossegado”. O Senhor chamou a Samuel pela terceira vez, e Samuel levantou-se e foi apresentar-se a Heli, dizendo: “Eis-me aqui; não me chamaste?” Heli compreendeu então que era a voz do Senhor, e disse: “Torna a deitar-te. Se ouvires chamar ainda, responde: Fala, Senhor, teu servo escuta!” Samuel foi e adormeceu. O Senhor veio novamente chamá-lo: “Samuel, Samuel!” Este respondeu: “Fala, Senhor, que teu servo escuta!” O Senhor então lhe disse: “Hei de castigar a Heli e a seus filhos, pois ele sabia que estes praticavam ações indignas e não nos puniu”. Na manhã seguinte, perguntou Heli a Samuel: “Que te disse o Senhor? Peço-te que nada me ocultes!” Samuel contou-lhe tudo. Heli respondeu: “Ele é o Senhor, faça-se a sua vontade!”

4. Castigo de Deus. - Pouco tempo depois, os filisteus atacaram os israelitas, que foram derrotados. Mandaram então buscar a arca da aliança, a fim de assim vencerem os inimigos. Vendo a arca, os israelitas rejubilaram. Apesar disso, foram vencedores os filisteus. Os israelitas perderam no combate 30 mil homens. Os dois filhos de Heli também foram encontrados entre os mortos e a própria arca da aliança caiu nas mãos dos inimigos. Um mensageiro trouxe a Heli esta triste notícia. Logo que ele falou da arca de Deus, Heli, desmaiado, caiu da cadeira para trás, partiu a nuca e morreu. Os filisteus transportaram a arca a Azot, para o templo de seu deus Dagão. O ídolo, porém, à vista da arca, ruiu por terra e sobrevieram a todo o país grandes castigos. Os filisteus ficaram amedrontados. Obedecendo ao conselho de seus sacerdotes e adivinhos, colocaram a arca no carro novo, puxado por dois animais, que foram diretamente para Betsamés, no país de Israel. Deus feriu de morte repentina muitos de seus habitantes, porque tinham olhado com curiosidade e sem reverência para a arca. Os levitas levaram-na depois para Cariatiarim e puseram-na em casa de Abinadab.

5. Salvação de Israel. -- Após a morte de Heli, Samuel ficou sendo o juiz de Israel. Reuniu o povo e disse: “Se vos converterdes de todo o coração ao Senhor, ele vos libertará do poder dos filisteus”. Os israelitas jejuaram, confessando: “Pecamos contra o Senhor”. Samuel ofereceu sacrifícios pelo povo. Então o Senhor fez cair uma violenta tempestade, que espalhou a confusão entre os inimigos. Estes foram derrotados e não ousaram transpor a fronteira enquanto viveu Samuel.

PARTE V - O TEMPO DOS REIS. DESDE SAUL ATÉ A DIVISÃO DO REINO DE ISRAEL

(1030 até 930 antes de Cristo)

47. Saul, primeiro rei de Israel

1. Israel pede um rei. - Quando Samuel envelheceu, constituiu a seus filhos juízes do povo de Israel. Eles, porém, não seguiram às normas do pai; deixavam-se subornar e falseavam a justiça. Por causa disso, os anciãos do povo vieram ter com Samuel, e disseram-lhe: “Dá-nos um rei, como o têm os outros povos!” O pedido desagradou a Samuel; mas o Senhor lhe disse: “Satisfaze o desejo deles, pois não é a ti que rejeitaram, mas a mim”

2. Unção de Saul. - Vivia nesse tempo um varão da tribo de Benjamim, chamado Saul. Não havia em todo Israel homem mais bem constituído do que ele; excedia em altura toda a assembleia. Num dia, em que as jumentas do pai tinham fugido, Saul foi-lhes à procura, acompanhado de um servo. Chegaram até a cidade, onde morava Samuel; Saul quis voltar, mas o criado lhe disse: “Aqui mora um homem de Deus; talvez ele saiba onde se acham as jumentas”. Entraram na cidade e Samuel veio a seu encontro; e logo que viu Saul o Senhor o advertiu: “Este é o homem escolhido para reinar sobre Israel”. Samuel dirigiu-se a Saul: “Não te preocupes por causa das jumentas, já foram encontradas. Para tua pessoa, porém, está reservado o melhor de quanto há em Israel”. Saul respondeu: “Acaso não pertenço eu à menor das tribos de Israel e não é minha família a última da tribo de Benjamim?” Mas Samuel tomou um frasco de óleo, derramou-o sobre a cabeça de Saul, e disse: “Por esta unção, o Senhor te consagra rei de seu povo, que hás de livrar do poder dos inimigos”. Em seguida Saul voltou para casa e nada revelou do que tinha acontecido. Desde aquele dia, o espírito do Senhor repousava em Saul. Tinha então 22 anos de idade.

3. Eleição de Saul pela sorte. -- Tempos depois, Samuel convocou todas as tribos de Israel e disse: “Aproximai-vos por ordem de tribo e de família”. Ele consultou a sorte. Esta recaiu na tribo de Benjamim. Mandou aproximar-se essa tribo e desta vez a sorte designou a Saul. Não o encontraram entre os presentes e foram procurá-lo. Quando apareceu, Samuel o apresentou ao povo, dizendo: “Eis o que Deus escolheu! Não há, em todo o povo, quem seja igual a ele”. Todos, cheios de alegria, bradaram: “Viva o Rei!” Apenas alguns ímpios o desprezaram e disseram: “Porventura este nos salvará?” Mas Saul fazia como se não os ouvisse.

4. Vitória de Saul. - Um mês depois, os amonitas invadiram o país. Então o espírito do Senhor se apoderou de Saul, que convocou todo Israel ao combate. Os guerreiros apresentaram-se como se fossem um só homem. Saul surpreendeu com seu exército o acampamento inimigo e venceu completamente os amonitas. O povo, à vista da grande vitória, exclamou: “Quem são aqueles que disseram: Saul não reinará sobre nós? Queremos matá-los!” Saul, porém, interveio: “Hoje não se mata ninguém, pois o Senhor salvou Israel”.

48. Reprovação de Saul. Eleição de Davi

1. Saul desobedece. - Deus concedeu ainda a Saul muitas outras vitórias sobre os inimigos de Israel. Essas vitórias, porém, tornaram-no soberbo e desobediente a Deus. Um dia Samuel disse a Saul, em nome de Deus: “Vai castigar os amalecitas, passa-os todos ao fio da espada, sem poupar um só, e destrói tudo que lhes pertence”. Saul destroçou os amalequitas; poupou todavia Agag seu rei, e guardou para si os melhores rebanhos deles. Então Deus declarou a Samuel: “Sinto ter elevado Saul ao trono real, porque não cumpriu minhas ordens”.

2. Saul é reprovado. - Samuel saiu ao encontro de Saul e perguntou-lhe: “Porque não obedeceste ao Senhor?” Saul respondeu: “Obedecer ao Senhor: aprisionei Agag e matei todos os amalecitas. mas o povo poupou os melhores animais dos rebanhos para oferecê-los em sacrifício ao Senhor”. Replicou-lhe Samuel: “A obediência vale mais do que o sacrifício. Porque tu desprezaste as ordens do Senhor, também o Senhor te desprezou; não reinarás sobre Israel! Ele dará teu reino a outro melhor do que tu!” Ditas estas palavras, Samuel retirou-se muito triste. Daí por diante não viu mais Saul.

3. Sagração de Davi. - O Senhor disse a Samuel: “Até quando andarás triste por causa de Saul? Enche de óleo o vaso que levas e vai à casa de Isaí, em Belém. Escolhi um de seus filhos para rei, em vez de Saul”. Samuel foi a Belém. Aí ofereceu ao Senhor um sacrifício, convidando para ele Isaí e seus filhos. Vendo entrar o filho mais velho, perguntou a Deus: “É este o que colheste?” O Senhor lhe respondeu: “Não olhes a beleza da estatura, não foi este que escolhi. Os homens julgam pela aparência, mas Deus olha para o coração”. Isaí apresentou-lhe, um após o outro, seus seis filhos. Samuel lhe disse: “A nenhum destes o Senhor escolheu! São estes os teus filhos todos?” Respondeu Isaí: “Ainda resta Davi, que é o mais moço e está guardando as ovelhas”. Samuel disse: “Manda chamá-lo!” Quando Davi se aproximou, disse o Senhor a Samuel: “Levanta-te e unge-o, pois este é o escolhido”. Tomou então Samuel o chifre de óleo e ungiu Davi na presença de seus irmãos. Desde este momento, o espírito do Senhor abandonou Saul e transfundiu-se em Davi.

4. Davi na corte de Saul. - Saul era atormentado por um espírito mau, que o fazia cair em profunda tristeza. Por isso, seus criados lhe disseram: “Vamos procurar um homem que saiba tocar harpa; ele tocará em tua presença e ficarás aliviado!” Um dos criados informou: “Conheço Davi, filho de Isaí, que toca perfeitamente esse instrumento. É um rapaz valente, de bela figura e querido do Senhor”. Saul mandou buscá-lo. Gostou tanto dele que o nomeou seu escudeiro. Todas as vezes que o espírito mau atormentava o rei, Davi tocava harpa e Saul ficava aliviado. Saul, porém, ignorava que Davi tivesse sido sagrado rei.

49. Davi vence a Golias

1. Provocação de Golias. - Os filisteus, entretanto, tinham reaberto a guerra contra os israelitas e ocuparam o alto de uma montanha. Saul reuniu um exército e acampou na montanha fronteira. Entre os dois exércitos ficava um vale. Do acampamento dos filisteus saiu então um gigante, chamado Golias, que tinha seis côvados e um palmo de altura. Trazia na cabeça um capacete de metal; sua cota de malha, as perneiras e o escudo que lhe protegia os ombros, eram de pesado bronze. O cabo de sua lança era como de um rolo de tear. Assim armado, provocava o exército dos israelitas gritando: “Escolhei dentre vós um homem que venha com bater comigo! Se ele me matar, seremos vossos servos; mas, se eu o matar, sereis nossos servos!” De manhã e de tarde, durante 40 dias, o filisteu repetiu seu desafio, mas ninguém se atreveu a aceitar a luta. Saul e todo o povo de Israel estavam possuídos de grande temor.

2. Davi confia em Deus. - Logo no princípio da guerra, Davi teve de voltar para Belém. Foi apascentar o rebanho do pai, porquanto três irmãos mais velhos se achavam incorporados ao exército de Saul. Disse-lhe um dia o pai: “Leva pão a teus irmãos e vê como eles passam!” Quando chegou ao acampamento e ouviu o insulto de Golias, exclamou: “Quem é este filisteu que assim ousa insultar o exército de Deus vivo?” Em seguida foi ter com Saul e disse: “Eu, teu servo, vou pelejar contra o filisteu”. Saul observou-lhe: “Não podes pelejar contra o filisteu, porque és uma criança; ele, pelo contrário, é um guerreiro feito e amestrado nas armas desde sua mocidade”. Davi respondeu: “Teu servo guardava o rebanho de seu pai; quando se aproximava algum leão ou o urso e arrebatava-lhe um cordeiro, ia atrás dele, arrancava-lhe a presa eu matava. Melhor não será a sorte deste filisteu, pois o Senhor, que me salvou das garras desses animais, defender-me-á também dos golpes do filisteu!” Disse-lhe Saul: “Vai, meu filho; o Senhor está contigo!”

3. Vitória de Davi. - Saul mandou que Davi vestisse sua própria armadura. Mas foi impossível ao pobre pequeno pastor mover-se com tal peso. Largou as armas, empunhou seu cajado de pastor, apanhou no leito do rio cinco pedras bem lisas e meteu-as surrão. Com a funda na mão, dirigiu-se, em seguida, para o filisteu. Quando o Golias viu-o chegar, gritou com desprezo: “Sou, porventura, um cão, para que venhas contra mim armado de um bordão? Aproxima-te, que darei a comer tua carne às aves do céu!” Davi respondeu: “Tu vens a mim armado de espada, lança e escudo; eu, porém, venho em nome do Senhor dos exércitos”. Quando o filisteu avançou, Davi meteu rapidamente uma pedra na funda, fê-la girar e arremessou-a contra ele; a pedra acertou na fronte do gigante tão de rijo que abriu uma brecha. Golias, amortecido pela força da pedrada, tombou logo de bruços no chão. Davi, então, soltou sobre ele, tirou-lhe a espada e cortou-lhe a cabeça. Vendo os filisteus que seu mais valente soldado estava morto, deitaram a fugir. Os israelitas, gritando vitória, correram em sua perseguição; mataram muitos e saquearam o acampamento.

50. Ódio de Saul. Magnanimidade de Davi

1. Ódio de Saul. - Depois da vitória sobre os filisteus, Saul regressou com seu exército. Por toda parte as mulheres lhe vinham ao encontro cantando: “Saul matou mil, mas Davi matou dez mil”. Esta preferência irritou Saul, que disse: “Deram 10.000 a Davi e a mim só mil; que lhe falta senão o reino?” Desde esse dia, Saul tornou-se invejoso da glória de Davi e não o olhava com bons olhos. Pouco tempo depois, quando Davi tocava a harpa na presença do rei, Saul, por duas vezes, atirou contra ele sua lança, tentando prega-lo à parede; Davi, porém, esquivou-se aos golpes e nada sofreu. Jônatas, filho de Saul, amava muito a Davi. Esforçou-se para reconciliar seu pai com Davi. Saul, porém, encolerizou-se ainda mais e persistiu em matar Davi. Jônatas, por isso, avisou o amigo do perigo que corria, e Davi fugiu para o deserto, como alguns companheiros fiéis. Jônatas separou-se dele chorando: “Vai em paz - lhe disse - o que juramos em nome do Senhor, nós o cumpriremos!”

2. Magnanimidade de Davi. - Logo que Saul soube da fuga de Davi, perseguiu-o com 3. 000 homens. Certa noite, enquanto dormiam o general de Saul e seus guerreiros, Davi penetrou silenciosamente, com seu escudeiro Abisaí, no acampamento do rei. Entrou na própria tenda de Saul, que também dormia. Disse então Abisaí a Davi: “Hoje entregou Deus teu inimigo em tuas mãos; quero atravessá-lo com a lança”. Mas Davi replicou: “Não o mates! Quem estenderá sua mão, sem culpa, contra o ungido do Senhor?” Tomaram somente a lança e a taça do rei e retiraram-se, sem serem percebidos. Davi colocou-se no alto de um monte e bradou ao general de Saul: “Por que não guardaste melhor o rei, teu Senhor? Ora vê: onde estão sua lança e sua taça?” Saul reconheceu a voz de Davi e disse: “Pequei; volta, meu filho Davi! Não te farei mal algum, pois hoje poupaste-me a vida”. Davi, porém, continuou seu caminho e Saul voltou para casa.

51. Morte de Saul. Princípio do Reinado de Davi

1. Morte de Saul. - Os filisteus recomeçaram, no entanto, suas hostilidades contra Israel. Travou-se grande combate nos altos de Gelboé. Os israelitas foram derrotados; morreram muitos e, entre eles, Jônatas e dois de seus irmãos. O próprio Saul ficou gravemente ferido e pediu a seu escudeiro: “Desembainha a espada e acaba de matar-me” Hesitando escudeiro, Saul precipitou-se sobre sua própria espada e morreu. Ao receber a notícia de tão grandes desgraças Davi rasgou seus vestidos em sinal de dor e exclamou por entre lágrimas: “Montes de Gelboé, nunca mais desça sobre vós nem chuva nem orvalho já que lá pereceram os heróis de Israel! Ó Jônatas, meu irmão querido! Tu que eras as delícias de meu coração! Ah! Eu te amei como uma mãe a seu filho único”

2. Davi é proclamado rei. - Por ordem de Deus, foi Davi para Hebron. Os homens da tribo de Judá reconheceram-no como seu rei e deram-lhe a unção régia. Tinha nesse tempo trinta anos de idade. Viu-se obrigado a combater durante 7 anos os partidários de Saul e só depois da morte dos chefes desta facção vieram os anciãos das outras tribos de Israel para procurar Davi para o reconhecerem seu rei. À frente de seus guerreiros, marchou sobre Jerusalém e tomou de assalto a fortaleza de Sião. Escolheu essa cidade para sua residência e chamou-lhe a cidade de Davi. Daí empreendeu guerra contra as nações pagãs e Deus lhe deu a vitória sobre os inimigos.

52. Davi, o rei piedoso

1. A Arca da aliança é transportada para Sião. - A arca de Deus achava-se ainda em Cariatiarim, em casa de Abinadab. Davi mandou construir sobre o monte de Sião um suntuoso tabernáculo e foi buscar a arca com um cortejo de 30 mil homens. Foi colocada num carro novo, guiado por Oza, filho de Abinadab. No caminho espantaram-se os bois e a arca inclinou-se. Oza estendeu a mão sem o devido respeito, para sustentá-la, e caiu ferido de morte. Assustado, Davi mandou depositar a arca em casa de Obdedão, onde ficou três meses. Tendo Deus abençoado esse homem e toda a sua casa, Davi convidou todo Israel, a fim de transportar a arca para Jerusalém. Os sacerdotes carregaram-na e ofereciam, de seis em seis passos, um touro e um cordeiro em sacrifício. O próprio Davi marchava à frente dos sacerdotes, tocando harpa. Músicos e cantores o acompanhavam. O povo rejubilou, louvando ao Senhor. Assim foi transportada a arca e deposta no novo tabernáculo.

2. Organização do culto divino. - Davi depois organizou o serviço do culto no tabernáculo do Senhor. Distribuiu os sacerdotes em 24 classes, encarregando-as do serviço divino, cada uma por sua vez durante uma semana. Os levitas formavam também 24 classes; 4.000 levitas deviam executar cânticos sagrados e acompanhá-los com instrumentos. Esses cantos têm o nome de salmos e foram compostos, em sua maioria, pelo próprio Rei Davi.

3. Projeto de construção de um templo. - Davi propunha-se também a construir um templo ao Senhor. Disse o profeta Natan: “Estou morando numa casa de cedro, enquanto a arca de Deus está abrigada debaixo de umas peles!” Deus, porém, não quis que Davi construísse uma casa, por que sua mão tinha derramado muito sangue. Mandou-lhe dizer pelo profeta Natã: “Não serás tu que me construirás uma casa, mas, sim, teu filho. Firmarei seu trono para sempre!”

53. Crime e arrependimento de Davi

1. Crime de Davi. - Em certa primavera, Davi tinha enviado o general Joab, com todo o exército, contra os amonitas, ficando ele em Jerusalém. Um dia, passeando ocioso no terraço de seu palácio, viu Betsabé, mulher de Urias, oficial que estava então na guerra. Mandou chamá-la e a introduziu à infidelidade contra o marido. Escreveu depois a Joab: “Coloca Urias no lugar mais perigoso da Batalha; é preciso que ele morra”. Joab cumpriu a ordem criminosa e Urias pereceu. Davi casou-se então com Betsabé. Esse ato de Davi desagradou ao Senhor.

2. Natã repreende Davi. - Por ordem de Deus, o profeta Natan foi ter com Davi e disse-lhe: “Numa cidade havia dois homens, um rico e outro pobre. O rico possuía ovelhas e bois em grande quantidade; o pobre tinha uma só ovelhinha. Criara-se em sua casa no meio de seus filhos, comia de seu pão, bebia de seu copo e dormia em seu regaço; ele lhe queria bem, como à sua filha. Um dia chegou um hóspede bem rico e este, para poupar seus bois e suas ovelhas, apossou-se da ovelhinha do pobre, mandou-a matar e deu-a ao visitante para comer”. Profundamente comovido, Davi exclamou: “Viva Deus! O homem que fez isto morrerá!” Natã replicou: “Esse homem mau és tu! Mandaste matar Urias e tomaste-lhe a mulher. Em castigo dessa má ação, graves desgraça hão de afligir tua família e de tua própria casa sairá o mal contra ti”.

3. Penitência de Davi. - Disse então Davi: “Pequei contra o Senhor!” Natã replicou: “Já que te arrependes, o Senhor perdoa o pecado. Mas teu filho morrerá!” O menino, atacado de uma grande doença, faleceu sete dias após: Davi aceitou o castigo com resignação e até sua morte não deixou de deplorar suas culpas. De Betsabé nasceu-lhe outro filho, a quem chamou Salomão. Deus amava Salomão e deu-lhe, por intermédio de Natã, o nome de predileto do Senhor!

54. Revolta e castigo de Absalão

1. Revolta de Absalão. - Davi tinha um filho chamado Absalão. Era o homem mais famoso de todos Israel; sua conformação a era perfeita, desde a planta dos pés ao cimo da cabeça. Tornou-se, por isso, orgulhoso e quis suplantar o pai. Mandou construir carros para si, dispunha de cavaleiros e de 50 homens de guarda. Assentado à porta da cidade, dizia aos que vinham pedir justiça: “Tua causa é boa; mas o rei não delegou ninguém para te defender. Ah! se eu fosse juiz, todos os cidadãos teriam seu direito defendido”. Quando alguém o saudava, ele estendia-lhe a mão, abraçando-o e beijando-o; aliciava assim, por meio da lisonja, muitos corações de Israel. Um dia, declarou a Davi: “Quero ir a Hebron, para cumprir uma promessa!” Davi lhe respondeu: “Vai em paz!” Absalão partiu para Hebron, organizando aí uma rebelião contra o rei; muitos acreditaram em suas palavras de adulador e o aclamaram rei. Constituiu um grande exército e, à frente do mesmo, se dirigiu contra Jerusalém, para depor do trono de seu pai.

2. Davi foge. - Um mensageiro correu a anunciar a Davi: “Israel segue unanimemente o partido de Absalão!” Davi disse a seus servos fiéis: “Levantai-vos e fujamos, porque não podemos escapar às mãos de Absalão! Apressai-vos, para que não nos apanhe e mande passar a fio de espada a cidade!” Atravessou a torre de Cedron e subiu, chorando e descalço, o monte das Oliveiras; dirigiu-se daí para o outro lado do rio Jordão. Em caminho encontrou um parente de Saul, chamado Semei, que começou a atirar pedras contra Davi e a maldizê-lo, gritando: “Fora, fora, homem sanguinário!” Então disse o irmão de Joab: “Quereis que vá cortar-lhe a cabeça?” Davi, porém, replicou: “Deixarei-o maldizer, porque Deus assim o permitiu. Talvez o Senhor considere minha aflição e recompense os males que hoje sofro”.

3. Castigo de Absalão. - Absalão entrou com seu exército em Jerusalém; depois perseguiu o pai, mas também este pôde reunir um pequeno exército, composto de homens fiéis e corajosos. Perante todos, recomendou a Joab e aos outros comandantes de tropas: “Conservai vivo meu filho Absalão!” Houve combate e o exército de Absalão foi desbaratado; ele próprio fugiu, montado em uma mula. Passando, em sua carreira, debaixo de um copado de carvalho, sua cabeleira se embaraçou nos galhos da árvore, ficando suspenso ao ar, ao passo que o animal continuava a correr. Os soldados relataram esse fato a Joab; este tomou três lanças e cravou-as no peito do malvado Absalão. Sepultaram o cadáver num buraco e cobriram-no com um montão de pedras.

4. Davi chora seu filho. - Um mensageiro levou a Davi a notícia do feliz êxito da batalha. O rei perguntou logo: “Absalão também está salvo?” O mensageiro respondeu: “Suceda a todos os inimigos de meu rei o que sucedeu a esse rapaz!” Davi, transpassado de dor, repetia, chorando: “Meu filho Absalão! Absalão, meu filho! Oxalá tivesse eu morrido em teu lugar. Absalão, meu filho! meu filho Absalão! Davi regressou depois a Jerusalém. Todas as tribos de Israel vieram apresentar-lhe homenagens e tornaram a reconhecê-lo como seu rei. Perdoou generosamente a Semei e a todos os outros que se tinham contra ele.

55. Profecias de Davi sobre o Redentor

Davi não era somente um rei poderoso: era também um grande profeta. Em seu livro de salmos anuncia claramente a divindade, os sofrimentos, a ressurreição, a ascensão e a realeza do Messias.

  1. Adoração pelos reis do Oriente. - Os reis de Társis e das ilhas oferecer-lhe-ão dons, os reis da Arábia e de Sabá lhe trarão presentes (Sl 71, 19).
  2. Paixão do Redentor. - Deus, Deus meu, olha para mim. Por que me desamparaste? (Sl 21, 7). Eu sou verme e não homem, o opróbrio dos homens e a abjeção da plebe (Sl 21, 7). Todos aqueles que me viam, escarneciam de mim, falavam com os lábios e meneavam a cabeça. Esperou no Senhor, livre-o, salve-o, se é que o ama (Sl 21,8). Transpassaram minhas mãos e meus pés, contaram todos os meus ossos (Sl 21, 17). Repartiram entre si meus vestidos e lançaram sorte sobre minha túnica (Sl 21, 19).
  3. Ressurreição. - Porque não deixarás minha alma no inferno, nem permitirás que teu santo veja a corrupção (Sl 15,10).
  4. Ascensão. - Subiste ao alto, fizeste escrava a escravidão, recebeste dons para distribuíres aos homens (Sl 67, 19). Recitai salmos a Deus, que subiu a todos os céus, da parte do oriente (Sl 67, 34).
  5. Divindade. - Disse o Senhor a meu Senhor: “Senta-te à minha direita; até que ponha a teus inimigos como escabelo de teus pés” (Sl 109, 1).
  6. Reino do Redentor. - E dominará de mar a mar e desde o rio aos confins da redondeza da terra (Sl 71, 8).

56. Últimas exortações de Davi. Sua morte

1. Exortações de Davi. - Chegado ao termo de sua vida, Davi mandou dar a unção real a seu filho Salomão. Depois convocou os príncipes e nobres de seu reino e disse-lhes: “Guardai todos os mandamentos do Senhor! E tu, meu filho Salomão, por tua parte, serve a Deus de boa vontade, pois o Senhor perscruta todos os corações e  penetra todos os pensamentos da alma. Se o procurares, encontrá-lo-ás; se o abandonares, ele te condenará para sempre. Eu tinha intenção de edificar uma casa para o Senhor e preparei tudo quanto era necessário. O Senhor, porém, me disse: Tu não me edificarás o templo, porque és homem de guerra e derramaste sangue. Edificá-lo-á teu filho Salomão, que eu escolhi para isso; ele será meu filho e eu serei para ele um pai. Se perseverar em meus mandamentos, consolidarei sua realeza para sempre”. Entregou depois a Salomão uma planta do futuro templo, dizendo: “Assim foi traçado pela mão de Deus em meu coração!” Disse finalmente a toda a assembléia: “A empresa é grande, pois não se trata de preparar a habitação de um homem, mas sim a de Deus. Enchei também, portanto, de dádivas vossas mãos para oferecê-las ao Senhor!” E todos ofereceram generosamente objetos valiosos. Davi alegrou-se e louvou a Deus, em união com toda assembéia.

2. Morte de Davi. - Davi faleceu, após um reinado de 40 anos. Foi sepultado na cidade de Davi. Seu filho Salomão ocupou, com dezoito anos apenas, o trono de Israel.

57. Oração e sabedoria de Salomão.

1. Oração de Salomão. - Salomão amava o Senhor e seguiu docilmente as instruções de seu pai. Uma noite o  Senhor apareceu-lhe em sonho, dizendo: “Pede-me o que quiseres”. Salomão respondeu: “Fizeste-me rei de teu povo; mas eu ainda sou moço e sem experiência. Dá-me um coração dócil, a fim de que eu saiba governar teu povo e discernir entre o bem e o mal”. Essa oração agradou muito ao Senhor, que disse: “Já que não pedes vida longa, nem riquezas, nem a ruína de teus inimigos, mas apenas sabedoria, satisfarei o teu desejo e dar-te-ei um coração sábio e prudente como ainda nenhum rei possui antes de ti, nem outro o terá depois. Além disso, conceder-te-ei o que me não pediste: honras e riquezas. E, se observares meu mandamentos como teu pai os guardou, dar-te-ei também longa vida”.

2. Sabedoria de Salomão. - Certo dia, duas mulheres compareceram perante o rei. Uma disse: “Eu e esta mulher morávamos sós na mesma casa. Uma noite morreu seu filho, porque ela o abafou dormindo; levantou-se, durante meu sono, tirou meu filho e pôs no lugar dele a criança morta. De manhã, ao acordar, encontrei este a meu lado; mas, reparando bem quando clareou o dia, vi que não era meu filho”. A outra mulher interrompeu-a, dizendo: “Não foi assim como tu dizes; meu filho é que está vivo, o teu morreu”. A primeira replicou: “Estás mentindo! Meu filho vive; é o teu que está morto!” Assim brigavam as duas mulheres na presença do rei. Salomão ordenou: “Trazei uma espada!” E depois: “Cortai ao meio a criança viva e dai a metade a cada mulher”. Ao ouvir estas palavras, uma das mulheres sentiu o coração traspassado de dor e exclamou: “Por favor, ó rei, não mates a pobre criança; é preferível entregá-la viva àquela mulher”. Ao contrário, a outra mulher gritava: “Nem para mim nem para ti: Faça-se a partilha”. Então o rei sentenciou: “Dai à primeira destas mulheres a criança viva, porque ela é sua verdadeira mãe”

58. Construção e dedicação do templo

(1000 anos antes de Cristo)

1. Construção do templo. - No quarto ano de seu reinado, começou Salomão a construir um templo ao Senhor. Hirã, rei de Tiro, mandou-lhe hábeis artífices e o presenteou com tantos cedros do Líbano quantos desejou. Mais de 200.000 operários foram empregados para Jerusalém. O templo foi construído no monte Mória e como os materiais vinham aparelhados, não se ouvia durante a construção barulho de formão nem pancada de martelo. O teto e as paredes no interior do templo eram forradas de madeira de cedro dourada, sobre a qual estavam esculpidos querubins, palmas e flores variadas. Mesmo o pavimento era coberto de lâminas de ouro.

2. Descrição do templo. - O templo tinha 60 côvados de comprimento, 29 de largura e 30 de altura. Sua construção foi orientada pelo modelo do primitivo tabernáculo, tendo como este um átrio, um santo e um santo dos santos. No santo dos santos estava a arca da aliança. Ladeavam-na de dois querubins dourados, feitos de madeira de oliveira; suas asas abertas se tocavam por cima do propiciatório. No santo, que tinha 40 côvados de comprimento, via-se ao meio o altar dos perfumes. Em cada lado se achavam 5 mesas para os pães de proposição e 5 candelabros de 7 ramos; todos eram de ouro fino. Em roda do templo corriam dois átrios; um, no interior, reservado aos sacerdotes; outro, no exterior, para o povo. No átrio dos sacerdotes achava-se o altar dos holocaustos e a grande bacia, destinada às abluções dos sacerdotes, chamada “mar de bronze” (Capacidade de 480 hl).

3. Dedicação do templo. - No fim de 7 anos estava acabada a construção. Salomão convocou os príncipes e  anciãos do povo para sua solene dedicação. Para essa solenidade escolheu a festa dos tabernáculos; os sacerdotes, em pomposo cortejo, transportaram a arca para o templo, colocando-a debaixo das asas dos querubins. Os levitas tocavam trombetas. E todos elevaram a voz e cantaram: “Louvai ao Senhor, porque é bom e sua misericórdia dura eternamente”. Logo que a arca chegou ao templo, uma nuvem envolveu a casa do Senhor. Salomão prostrou-se diante do altar dos holocaustos e, levantando as mãos para o céu, orou: “Senhor, Deus de Israel! O céu dos céus não vos pode conter; quanto mais esta casa que edifiquei! Rogo-vos, porém: quanto mais esta casa que edifiquei! Rogo-vos, porém: lançai sobre ela um olhar de misericórdia e ouvi todos aqueles que neste lugar onde orarem e sede-lhes propício. Quando vier para vosso povo fome, peste, guerra ou qualquer calamidade, e ele vos estender as mãos nesta casa, vós o ouvireis do céu o lugar de vossa morada”. Desceu então fogo do céu e consumiu as vítimas. Todos os israelitas, prostrados com o rosto em terra, adoraram o Senhor. Depois disto, apareceu o Senhor, outra vez, a Salomão, e disse-lhe: “Ouvi tua oração e escolhi esta casa para meu santuário. Meus olhos e meus ouvidos estarão sempre atentos a todos aqueles que aqui fizerem suas orações”

59. Glória e morte de Salomão

1. Riqueza e poder de Salomão. - Salomão construiu também para si um suntuoso palácio. O trono real, todo de marfim marchetado de ouro, era de tal beleza e preciosidade que não se igualava a nenhum no mundo. Os móveis, a baixela e outros utensílios domésticos eram de ouro finíssimo. Seus navios traziam dos países longínquos o ouros e os mais preciosos objetos de todas as espécies. Governava Salomão todos os povos que habitavam desde o rio Eufrates até às fronteiras do Egito. Viveu em paz com todas as nações vizinhas e cada israelita morava tranquilamente à sombra de suas vinhas e figueiras. Deste modo o rei excedia em riqueza a todos os reis da terra.

2. Fama de Salomão. - Salomão era também o mais sábio de todos os homens. Dissertava sobre todas as plantas e animais da terra e sua inteligência abrangia toda a natureza. O número dos cânticos que ele compôs é de 1005 e o dos provérbios 3000. Por isso, sábios e príncipes de todas as nações tinham desejo de conhecê-lo e admirar sua sabedoria; mesmo a rainha de Sabá veio de propósito de muito longe, a Jerusalém: quando viu a magnificência de todas as coisas e ouviu as palavras do rei, exclamou cheia de admiração: “Tua sabedoria e tuas obras são maiores do que a fama que chegou a meus ouvidos. Felizes teus súditos, que estão sempre perto de ti, ouvindo os primores de tua sabedoria!”

3. Declínio e últimos anos de Salomão. - Quando Salomão envelheceu, deixou que mulheres pagãs lhe corrompessem o coração. Estas o levaram à idolatria, a ponto de edificar templos a Moloc e a outros ídolos seus. Irritado, o  Senhor mandou dizer-lhe: “Porque transgrediste meus mandamentos, darei teu reino a um de teus servos. Deixarei, todavia, uma parte para teu filho, em consideração de meu servo Davi” Ainda em vida de Salomão, irrompeu uma revolta entre o povo, porque o rei o oprimia com pesados tributos. Faleceu no meio dessas aflições, depois de ter reinado durante 40 anos.

60. Divisão do reino

1. Separação das 10 tribos. - Após a morte de Salomão, os chefes das tribos vieram procurar Roboão, seu filho, e disseram-lhe: “Teu pai nos sobrecarregou de tributos muito pesados. Alivia um pouco esse fardo e servir-te-emos”. Roboão respondeu: “Voltai daqui a três dias!” Em em seguida consultou os velhos conselheiros de seu pai, os quais lhe disseram: “Se tu agora atenderes ao pedido do povo e usares de palavras benignas, ele ficará sendo teu servo para sempre”. Mas Roboão desprezou este conselho e seguiu o dos moços que conviviam com ele, respondendo ao povo: “Meu pai vos impôs um jugo pesado e eu tornarei ainda mais pesado; meu pai vos castigou com correias e eu hei de açoitar-vos com escorpiões”. Então o povo exasperou-se e disse: “Que nos importa Roboão?” E logo dez tribos proclamaram rei a Jeroboão, um dos principais servidores de Salomão. Somente as duas tribos de Judá e Benjamin permaneceram fiéis a Roboão. Desde então o povo hebraico ficou dividido em dois reinos.

2. Os reinos de Israel e de Judá. - O reino constituído pelas dez tribos tomou o nome de Israel e as duas tribos restantes formaram o reino de Judá. O reino de Israel teve por capital Siquém e mais tarde Samaria; a capital de Judá ficou sendo Jerusalém. Os dois reinos viveram quase sempre em guerra um contra o outro; seus reis, na maioria, foram maus, e entregavam-se à idolatria. Arrastaram também o povo ao culto dos ídolos e a todas as espécies de vícios. Para corrigir e melhorar os reis e o povo, Deus enviou-lhes profetas, que pregavam a penitência, anunciavam castigos iminentes e produziam muitos traços de vida do Salvador. Deus fez muitos milagres por seu intermédio, comprovando assim sua missão divina.

PARTE VI - DESDE A DIVISÃO DO REINO ATÉ AO CATIVEIRO DE BABILÔNIA

(930 até 587 antes de Cristo)

A - O REINO DE ISRAEL

(930 até 722 antes de Cristo)

61. Jeroboão

1. Jeroboão perverteu o seu povo. - O rei Jeroboão refletiu intensamente: “Se o povo foi ao templo de Jerusalém, para lá oferecer sacrifícios ao Senhor, voltará para roboão e me abandonará”. Para impedir isto, mandou erigir dois bezerros de ouro, um em Betel, outro em Dan. Depois disse ao povo: “Eis aqui os deuses que vos libertaram do Egito. Não torneis mais a ir a Jerusalém”. Ele mesmo foi ao altar do bezerro em Betel e ofereceu sacrifícios, induzindo assim um povo à idolatria.

2. Castigo de Jeroboão. - À vista de tais crimes, Deus enviou a Jeroboão um profeta, que o advertiu: “Porque fizeste deuses falsos e me rejeitaste, mandarei graves males sobre tua casa e a exterminarei”. Assim aconteceu. Pouco tempo depois, toda a casa de Jeroboão tinha desaparecido.

62. O profeta Elias

1. Elias e acab. - Acab foi um dos reis mais depravados de Israel. Tomou por esposa uma mulher pagã chamada Jezabel, e erigiu um templo ao deus Baal. Mandou matar os sacerdotes do Senhor e chamou para seu país 450 sacerdotes de Baal. Por ordem de Deus, o profeta Elias apresentou-se diante do rei e disse-lhe: “Tão certo como Deus existe, não haverá orvalho nem chuva em Israel enquanto eu não mandar!” Irritou-se Acab por causa dessas palavras e atentou contra a vida de Elias.

2. Elias na torrente de Carit. - O Senhor ordenou a Elias: “vai esconde-te nas margens do Carit. Beberás da água da torrente e os corvos levar-te-ão alimento”. Elias obedeceu-lhe. Bebia da torrente e todos os dias, de manhã e de tarde, os corvos lhe traziam pão e carne. Algum tempo depois, porém, a torrente secou. O Senhor disse então ao profeta: “Vai a Sarepta, no país dos sidônios, porque dei ordem aí a uma viúva que te sustentasse”.

3. Elias em Sarepta. - Elias pôs-se a caminho. Às portas da cidade encontrou uma viúva que ajuntava gravetos. Pediu-lhe a água para beber e um pedaço de pão. A viúva replicou: “Tão certo como existe Deus, não tenho pão, mas apenas um punhado de farinha num vaso e um pouco de óleo eu na ânfora. Estou juntando alguns gravetos; irei depois preparar esse pouco para mim e meu filho; e em seguida esperaremos a morte!” Elias animou-a: “Não tenhas receio! Prepara-me, primeiramente, com a farinha, um pequeno bolo, e depois cozinharás para ti e teu filho. Porque assim ou prometeu o Senhor: A farinha do vaso não se acabará e o azeite da ânfora não diminuirá até ao dia que o senhor enviar chuva à terra”. Ela fez o que Elias mandara. Desde esse dia, a farinha não diminuiu no vaso e a ânfora de óleo nunca mais se esvaziou. Algum tempo depois, o filho da viúva adoeceu e morreu. Elias implorou ao Senhor: “Deixai que a alma deste menino volte ao corpo!” O Senhor ouviu sua súplica, e o menino ressuscitou. Diz então a mulher ao profeta: “Agora conheço que és um homem de Deus e que a palavra do senhor está em tua boca”

63. O sacrifício de Elias

1. Proposta de Elias. - Já havia passado três anos e seis meses sem que caísse uma gota de chuva. Então disse o Senhor a Elias: “Vai apresentar-te a Acab, pois vou de novo derramar chuva sobre a terra”. Elias foi e disse a Acab: “Reúne todo o povo de Israel e os sacerdotes de Baal no Monte Carmelo!” Acab assim procedeu e ele mesmo subiu ao monte. Quando todos se achavam reunidos, Elias falou ao povo: “Até quando vacilareis para os dois lados? Se o senhor é o verdadeiro Deus, adorai-o; se é Baal, segui o seu culto”. O povo não respondeu uma só palavra. Elias continuou: “Dêem-me dois bois! Os sacerdotes de Baal escolherão um, reparti-lo-ão em postas, dispô-lo-ão sobre o altar, mas sem meter fogo debaixo. Eu tomarei o outro boi, colocá-lo-ei sobre a lenha, mas também não hei de atear fogo. Em seguida invocareis vossos deuses e eu invocarei o nome do meu Senhor. Aquele Deus que enviar fogo do céu para consumir o sacrifício será o verdadeiro”. Todos aprovaram: “A proposta é excelente!”

2. Dois sacrifícios. - Os sacerdotes de Baal trouxeram um boi, imolaram-no e puseram a carne sobre o altar. Depois dançaram ao redor, clamando desde a manhã até ao meio-dia: “Baal, ouvi-nos”. Mas ninguém lhes respondeu. O profeta zombava deles, dizendo: “Gritai mais alto! Baal talvez esteja conversando, ou almoçando; talvez ande viajando ou esteja dormindo. Gritai para acordá-lo”. Eles gritavam cada vez mais alto, fazia um em si incisões, em honra de seu deus, até ficarem cobertos de sangue. Mas a resposta não chegava nunca. De tarde, disse Elias ao povo: “Vinde comigo”. Tomou 12 pedras, erigiu com elas no altar, fez um rego ao redor, retalhou o boi e colocou as postas sobre a lenha. Mandou em seguida derramar tanta água sobre a vítima e a lenha, que eu rego se encheu. Depois que levou as mãos ao céu e orou: “Senhor, Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, mostrai hoje que sois o verdadeiro Deus e eu vosso servo. Ouvir minha oração!” No mesmo instante caiu fogo do céu e consumiu o holocausto, a lenha e as pedras: chegou a secar até a água que estava no rego. Vendo esse milagre, o povo prostrou-se em terra e exclamou: “Só o Senhor é Deus! Só o Senhor é o verdadeiro Deus!”

3. A chuva. - Elias mandou matar todos os sacerdotes de Baal. Depois subiu ao monte Carmelo e, inclinando-se por terra, orou. Levantou-se então do outro lado do mar uma tênue nuvenzinha, que foi crescendo progressivamente. Dentro em pouco, o céu escureceu e choveu copiosamente.

64. Aparição de Deus no monte Horebe

1. Elias foge. - Acab referiu a Jezabel tudo que Elias fizera. Esta enfureceu-se e ameaçou matar o profeta. Elias, receoso, fugiu para o deserto; deitou-se, fatigado, debaixo dum junipero e pediu a morte, porque se persuadiu que todos os israelitas tinham caído na idolatria. À sombra desta moita, adormeceu. Eis que o anjo do Senhor o tocou e lhe disse: “Levanta-te e come; porque ainda te resta fazer uma longa viagem”. Elias acordou review perto de si pão e água. Levantou-se, comeu e bebeu; e, fortalecido por este alimento, caminhou 40 dias e 40 noites, até ao monte Horeb. Aí escondeu-se numa caverna.

2. Deus lhe aparece. - certo dia ouvi uma voz que dizia: “Sobe o monte, pois o Senhor ali passará”. Levantou-se logo um turbilhão; entretanto, Deus não se achava nele. Em seguida um tremor abalou a terra; mas também neste não se encontrou o Senhor. Depois brilharam chamas; o Senhor, porém, não estava no fogo. Finalmente, apareceu-lhe o Senhor sob o sussurro do mar branda viração, e consolou-o: “Reservei para mim, em Israel, sete mil homens que não dobraram os joelhos diante de Baal. Por isso, volta e unge Eliseu, que será profeta em teu Lugar!”

3. Vocação de Eliseu. - Elias voltou. Encontrou Eliseu arando um campo com 12 juntas de bois. Elias atirou-lhe o manto sobre os ombros; imediatamente, Eliseu despediu-se de seus pais e seguiu a Elias.

65. A vinha de Nabot

1. Nabot é apedrejado. - Houve naquele tempo um homem chamado Nabot, que possuía uma vinha perto do palácio do rei. Acab propôs-lhe: “Cede-me tua vinha, pois quero aumentar com ela os jardins de meu palácio; dar-te-ei outra melhor ou, se preferes, pagar-te-ei o valor”. Nabot respondeu: “Deus me livre de vender a herança de meus pais!” Acab encolerizou-se, voltou para casa, e, atirando-se ao leito, despeitado, não quis comer. Jezabel aproximou-se dele, dizendo: “És em verdade um rei poderoso! Levanta-te e come. Vou já obter a vinha”. Em seguida escreveu, em nome de acabe, aos anciãos da cidade: “Convidai dois homens patifes que levantem falso testemunho contra Nabot e digam: Ele blasfemou contra Deus e contra o rei. Depois levai-o fora da cidade e mandai-o apedrejar”. Os anciãos cumpriram a ordem. Dois malvados realizaram o plano; o inocente foi apedrejado e os cães lamberam-lhe o sangue.

2. Acab e Jezabel são castigados. - Jezabel declarou a Acab: “Nabot está morto; toma posse de sua vinha”. Em caminho encontrou-se cara a cara com Elias, que lhe disse: “Mataste Nabot e usurpaste bens alheios; neste mesmo lugar onde os cães lamberam o sangue de Nabot, Lamberão também o teu que devorarão Jezabel”. Aconteceu o que Elias predissera. Três anos depois, Acab, mortalmente ferido numa batalha contra os sírios, foi trazido para casa em seu carro, falecendo à noite; quando levaram o carro, os cães vieram lamber o sangue. Jezabel, por ordem do novo rei, foi atirada à rua, da janela do palácio; o corpo foi esmagado pelas patas dos cavalos e os cães disputaram entre si os pedaços ensangüentados de seu cadáver.

66. Elevação de Elias ao céu

1. Elias é elevado ao céu. - Chegou a ocasião que Deus tinha determinado para retirar Elias da face da terra. Elias foi para Jericó em companhia de Eliseu e aí resolveu: “Fica aqui, pois Deus me enviou para o Jordão!” Mas Eliseu não se quis separar dele; e juntos prosseguiram até as margens do Jordão. Elias dobrou seu manto e com ele tocou nas águas, que se dividiram, podendo assim os dois ministros de Deus atravessar o rio a pé enxuto. Na margem oposta, disse Elias a seu discípulo: “Pede-me o que quiseres antes que seja afastado de ti”. Eliseu respondeu: “Peço que teu duplo poder, de milagre e profecia, se infunda em mim”. Elias respondeu: “Difícil coisa pediste; todavia, terás o que desejaste”. Enquanto continuavam seu caminho, apareceu um carro ardente, puxado por cavalos de fogo, sendo Elias arrebatado ao céu num turbilhão. Eliseu olhava e gritava: “Meu pai, meu pai! Eis o carro de Israel e seu condutor!”

2. Eliseu atravessa o rio Jordão. - quando Eliseu não viu mais o profeta, de dor rasgou as vestes; tomou o manto que Elias deixara cair e bateu com ele nas águas do Jordão, que ele é deram passagem. Vendo este milagre, os discípulos dos profetas disseram: “O espírito de Elias repousa em Eliseu”. Foram-lhe ao encontro e inclinaram-se diante dele, até o chão.

67. Milagres de Eliseu

1. Eliseu torna salubre a água. - Quando Eliseu veio a Jericó, disseram-lhe os habitantes: “Esta cidade é boa para morada, mas a água é insalubre” Elizeu respondeu: “Trazei-me um vaso novo com sal”. Trouxeram-lho. Ele foi a fonte e lançou nela o sal. As águas tornaram-se saudáveis.

2. Eliseu castiga o desrespeito. - De Jericó, Eliseu foi a Betel. Um bando de meninos pagãos pôs-se a gritar em tom de vaia: “Ó calvo, ó careca, sobe!” Voltou-se Eliseu e ameaçou-os em nome do Senhor. no mesmo instante dois ursos saíram do mato e dilaceraram 42 rapazes.

3. Eliseu cura um leproso. - Naamã, general do exército do sirius, estava atacado de lepra. Uma moça de Israel, ao serviço de sua mulher, sugeriu: “Se meu senhor fosse visitar o profeta, em samaria, ele o curaria!” ouvindo isto, Naamã foi a Samaria, com ricos presentes; seu carro parou a porta da casa de Eliseu. O Profeta mandou dizer-lhe pelo criado: “Vai lava-te sete vezes no Jordão e tua pele ficará limpa”. Naamã magoou-se com esta recepção, protestando: “Pensei que o profeta viesse ao meu encontro, invocando o nome de seu Deus, e me curasse. Porventura não são as águas dos rios da Síria melhores do que todas as de Israel?” Seus criados, porém, intervieram: “Pai, seu profeta tivesse ordenado alguma coisa difícil, fá-la-ias certamente; com muito maior razão, pois, deve seguir seu conselho, quando apenas te aconselhou: Lava-te e ficarás limpo!” Naamã desceu então para o Jordão, mergulhou nele sete vezes e ficou inteiramente curado. Depois voltou a Eliseu e disse-lhe: “Na verdade reconheço agora que em todo mundo não há outro Deus senão o Deus de Israel. Rogo-te que receba uma oferta deste teu servo”. Mas Eliseu não aceitou coisa alguma.

4. Eliseu castiga seu servo Giezi. - Quando Naamã ia já a alguma distância, o criado de Eliseu, chamado Giezi, correu ao encalço dele. O sírio, ao avistá-lo, desceu do carro e caminhou para ele. Giezi falou-lhe: “Meu amo manda dizer: Acabam de chegar dois discípulos de profetas: dá-lhes um talento de prata e dois vestidos de festa!” Naamã entregou-lhe dois talentos e dois vestidos. Giezi, voltando a casa, escondeu os presentes, apresentando-se depois a seu amo. Eliseu perguntou-lhe: “Donde vens, Giezi?* Este respondeu: “Teu servo, senhor, não saiu de casa”. Replicou-lhe Eliseu: “Acaso não estava presente em espírito, quando aquele homem desceu do carro e te saiu ao encontro? Tens agora dinheiro e vestidos; também a lepra de Naamã se transmitir a ti e a todos os teus descendentes”. E Giezi retirou-se coberto de lepra dos pés à cabeça.

5. Eliseu glorificado na Sepultura. - Muito dos milagres operou ainda Eliseu. Mesmo na sepultura, Deus o glorificou. Depois de sua morte, o país de Israel foi invadido por salteadores, que certo dia surpreenderam alguns homens que estavam a enterrar um morto ao lado do sepulcro de Eliseu. Estes em sua angústia, atiraram o cadáver sobre o do profeta; e apenas o morto tocou nos ossos dele, voltou à vida e levantou-se.

68. O Profeta Jonas

1. Jonas foge. - Depois da morte de Eliseu, Deus o substituiu pelo profeta Jonas, a quem ordenou: “Vai pregar penitência na grande cidade de Nínive, pois sua malícia chegou ao cúmulo”. Jonas procurou fugir ao Senhor; e em Jope embarcou num navio que partia para Társis. O Senhor, porém, desencadeou um violento temporal e o navio correu o risco de ir a pique. Os marinheiros imploravam auxílio de seus deuses e atiraram ao mar a carga para aliviar o navio. Jonas se tinha deitado no fundo do navio e dormia. O piloto despertou-o, dizendo: “Como podes dormir com tamanho perigo? Levanta-te e invoca teu Deus, para não nos afundarmos!” Os marinheiros disseram uns aos outros: “Lancemos sortes para saber quem é o culpado desta desgraça”. Recorreram, pois, ao sorteio que denunciou o Jonas. O Profeta confessou seu pecado e disse: “Atira-me ao mar, pois foi por minha causa que vos sobreveio esta tempestade. Os marinheiros lançaram Jonas no mar. No mesmo instante as águas se acalmaram. O senhor fez vir um enorme peixe, que engoliu Jonas, conservando-o no ventre durante três dias e três noites. Pediu o profeta que o Senhor o salvasse; Deus o atendeu e o peixe lançou-o na praia.

2. Penitência de Nínive. - O Senhor disse novamente a Jonas: “Vai a Nínive pregar penitência”. Jonas obedeceu. Andou pela cidade, bradando: “De hoje a 40 dias, Nínive não existirá mais!” Os ninivitas acreditaram em Deus, vestiram-se de cilícios e jejuaram. O próprio rei fez penitência, convidando o povo a acompanhá-lo; e Deus reconhecendo sua contrição, apiedou-se dele e desistiu do tremendo castigo com que o havia ameaçado.

3. Misericórdia de Deus. - Jonas saiu da cidade e, assentando num abrigo, esperava a destruição da cidade. Quando notou que Deus poupara a cidade, ficou muito contrariado, desejando até a morte. Deus fez crescer um arbusto para dar-lhe sombra, o que lhe causou grande satisfação. Na noite seguinte, enviou Deus um verme, que picou a planta na raiz, e ela mirrou. O sol batia agora em cheio sobre a cabeça de Jonas; e ele sentiu tão grande desconforto que tornou a pedir a morte. Deus observou-lhe então: “Jonas, tu te afliges tanto por causa de um arbusto que não plantaste e que uma noite nasceu e pereceu na outra; eu não hei de ter pena de Nínive, cidade tão vasta, onde vivem mais de 120 mil homens, que ainda não sabem distinguir sua mão direita da esquerda, sem falar na multidão de animais?”

69. O fim do reino de Israel

1. Cativeiro da Assíria. - Os israelitas não cessavam de pecar contra o Senhor. Entregues à idolatria, adoravam o bezerro de ouro, prestavam culto à Baal e imolavam seus filhos e suas filhas a Moloc. O Senhor os repreendeu pela voz Dos profetas Oséias e Amós; mas eles não os escutavam; mostrarvam-se recalcitrantes, como seus antepassados. Caiu finalmente sobre eles o castigo que os profetas muito tempo antes lhes haviam anunciado. Salmanasar, rei da Assíria, atacou-os com um grande exército, apoderou-se da Samaria. Os israelitas, em sua maioria, foram levados cativos para a Assíria; assim terminou o reino de Israel, após uma existência de 253 anos.

2. Os samaritanos. - o rei dos assírios enviou para o país devastado moradores pagãos, que se misturaram com os poucos israelitas restantes no país. Desta união resultou o povo dos samaritanos. Ao culto dos Ídolos pagãos ajuntaram o culto do Deus verdadeiro, em cuja honra tinham levantado um templo no monte Garizim, perto de Siquém (400 anos antes de Cristo). Os samaritanos eram desprezados pelos judeus e permaneceram sempre seus amigos.

70. O piedoso Tobias

1. Piedade de Tobias. - Entre os israelitas cativos na assíria, vivia um homem piedoso chamado Tobias. Desde a mais tenra idade fugia da companhia dos ímpios e observava fielmente a lei do Senhor. Em todas as grandes solenidades, ia à Jerusalém, para adorar o Senhor. Enquanto os outros israelitas comiam dos alimentos dos pagãos, ele nunca se manchou com tal pecado.

2. Tobias ama o próximo. - Por isso, Deus fê-lo achar proteção e mercê diante do rei, que o deixava andar livremente pelo país. Tobias visitava os cativos, consolava-os e os exortava a prática do bem; repartiu com eles quase todos os seus haveres e emprestou, em Ragés, dez talentos de prata * há um homem chamado Gabelo. Quando Salmanasar morreu, subiu ao trono seu filho Senaqueribe. Este odiava os judeus; mandou matá-los em grande número e proibiu que fossem enterrados seus cadáveres. Tobias, temendo mais a Deus do que ao rei, escondia em sua casa os cadáveres dos assassinos e sepultava-os durante a noite. O rei soube disso e deu ordem para matá-lo, confiscando-lhe todos os bens. Mas 45 dias depois, o rei morreu e Tobias pôde continuar sua piedosa tarefa.

3. Tobias sofre com paciência. - Certa vez, Tobias voltou muito cansado para casa; encostando-se a uma parede, debaixo de um ninho de andorinhas, adormeceu. Durante o sono, o excremento ainda quente desses passarinhos caiu-lhe nos olhos. Desde esse dia ficou cego. Seus parentes e amigos zombavam dele, dizendo: “Que te vale agora teres dado esmolas e sepultado os defuntos?” Tobias, porém, lhes respondeu com brandura: “Não faleis assim, pois somos filhos dos santos e esperamos a vida eterna”.

4. Honestidade de Tobias. - Ana, sua mulher, começou desde então a trabalhar como tecedeira, ganhando para o sustento da família. Certo dia trouxe ela para casa um cabritinho, com que a tinha presenteado. Tobias ouvindo os balidos do animal, disse: “Olha que não seja furtado esse animal! Nós não devemos comer nem sequer tocar em coisa alguma furtada”. A esposa, ao ouvir essas palavras, enraiveceu-se e repreendeu-o asperamente. Tobias, sem responder-lhe, suspirava e orava.

5. Conselhos a seu filho. - Tobias teve um filho, que recebeu nome igual ao do pai. Educou-o desde a infância no temor de Deus e no horror ao pecado. Julgando que estava próximo à morte, chamou-o para junto de si e disse-lhe: “meu filho, quando Deus tiver levado minha alma, sepulta meu corpo. Honra tua mãe em todos os dias de tua vida, lembrando-te dos muitos e grandes incômodos a que teve sujeita por tua causa; quando ela morrer, dá-lhe sepultura ao meu lado. Traze sempre Deus presente no coração, em todos os dias de tua vida, e guarda-te de consentir jamais num só pecado. Preserva-te especialmente de toda impureza. Não permitas que em tempo algum domine a soberba teus afetos ou tuas palavras, porque nela tem origem toda perdição. Dá esmolas conforme tuas posses. Se tiveres muito, dá com generosidade; se tiveres pouco, dá esse pouco, contanto que seja sempre de boa vontade. Não faças a outrem o que não queres que te façam. Não desanimes meu filho. É verdade que vivemos em pobreza, mas seremos muito ricos, se temermos a Deus, evitarmos o pecado e praticarmos o bem”. O filho respondeu: “Meu pai, farei tudo o que me recomendaste”.

71. Viagem de Tobias, o moço

1. Partida de Tobias com o Anjo. - Tobias disse ainda a seu filho: “Emprestei a Gabelo, de Ragés, dez talentos de prata; é preciso agora que vás cobrar esse dinheiro!” O jovem Tobias procurou então um companheiro para a longa viagem. Encontrou-o num moço de bela aparência, que para isso se ofereceu. Era o Anjo Rafael, mas Tobias não o conheceu. Dirigiram-se ambos à presença do pai. Logo que Tobias soube que o moço estava disposto a acompanhar seu filho, disse-lhe: “Pois fazei boa viagem! Deus seja convosco no caminho e seu anjo vos acompanhe! Tobias despediu-se de seus pais. Partindo com o anjo. O cão correu atrás deles.

2. Proteção do anjo. - A tarde do primeiro dia chegaram ao rio Tigris. Quando Tobias quis lavar os pés no rio, investiu-o um grande peixe para devorá-lo. Tobias, assustado, gritou: “Senhor, ele já me agarrou!” O anjo disse: “Não te assustes; segura-o pelas guelras e puxa-o para fora!” Tobias assim o fez. E o anjo continuou: “Estripa-o, mas guarda o coração, o fel e o fígado, porque sem pregam como remédio”. Depois assaram a carne do peixe, para comê-la na viagem.

3. Casamento de Tobias. - Continuaram a viagem e chegaram a uma cidade. O Anjo advertiu Tobias: “Aqui mora um de teus parentes, chamado Raguel; ele tem uma filha de nome Sara; pede-a a seu pai; ele consentirá em seu casamento contigo”. Hospedaram-se pois em casa de Raguel, que os acolheu com prazer. Quando Tobias se deu a conhecer, Raguel lhe disse: “Deus te abençoe, pois és filho de melhor dos homens”. Tobias pediu então Sara para esposa e o pai lha concedeu. Tobias disse a Sara: “Somos filhos de Deus e não devemos unir-nos segundo o costume dos gentios, que não o conhecem”. Passaram, por isso, os três primeiros dias em oração; enquanto as núpcias se celebravam, o anjo foi a Ragés e cobrou a dívida de Gabelo. Decorridos 15 dias, Tobias disse a Raguel: “Peço-te que me deixes partir, pois sei que meu pai e minha mãe estão preocupados por minha causa”. Então Raguel deu-lhe a metade de seus bens, abençoou ambos e disse: “O anjo do Senhor seja convosco e vos conduza felizes ao lar paterno”. Tobias e Sara partiram. Quando chegaram ao meio do caminho, o jovem Tobias, apertando o passo, adiantou-se com seu guia.

4. Volta de Tobias e cura do pai. - Os pais de Tobias começaram, entretanto, a entristecer-se por causa da demora do filho. A mãe subia todos os dias até o alto de uma colina, donde se podiam avistar as estradas a longa distância. Finalmente, um dia viu apontar seu filho ao longe. Correu depressa a avisar seu marido: “Aí vem nosso filho”. Chegou primeiro, fazendo festa com a cauda e saltando de alegria, o cão que acompanhara os viajantes. Guiado pela mão de um menino, o pai foi pressurosamente reconhecer seu filho. Pai e mãe o abraçaram, chorando de alegria. Em seguida o filho, a conselho do anjo, esfregou os olhos do ancião com o fel do peixe. Desprendeu-se-lhe dos olhos uma película branca e o velho Tobias recuperou a vista. Então todos deram glória a Deus e o pai disse: “Louvado sejais, Senhor, Deus de Israel! Vós me destes a enfermidade e me restituístes a saúde, mil graças vos dou, porque posso ver outra vez meu filho.” Sete dias depois chegou Sara com suas criadas, rebanhos, camelos e dinheiro. Fizeram uma grande festa e todos louvarão o Senhor com boas disposições e muita alegria.

5. O anjo dá-se a conhecer. - Tobias contou a seu pai todo o bem de que era devedor a seu companheiro de viagem. Chamando-o à parte, pediram-lhe que se dignasse aceitar a metade de tudo quanto tinham trazido. Revelou-se então o anjo e disse: “Louvai ao Senhor do céu e da terra e rendei-lhe graças, porque usou de misericórdia para convosco. A oração, o jejum e a esmola valem mais que todos os tesouros. Todos que cometem pecados e iniquidades são inimigos de sua alma”. Depois, dirigindo-se ao pai, continuou: “Quando oravas, apresentei tuas orações ao Senhor; porque eras agradável a ele, foi necessário que a provação te experimentasse. Agora Deus me enviou para te curar, porque eu sou o anjo Rafael, um dos sete que estão sempre diante do Senhor”. Ouvindo estas palavras, ficaram atônitos e prostraram-se em terra. Mas o anjo lhes disse: “A paz esteja convosco; não tem mais! Bendizei ao Senhor e cantai-lhe louvores”. Dito isto, desapareceu. O velho Tobias, cheio de gratidão, exclamou: “Dai graças ao Senhor, filhos de Israel, e louvai-o perante as nações, porque ele vos espalhou entre os povos que o não conhecem, para que vós publiqueis suas maravilhas e lhes façais saber que não há outro Deus todo poderoso senão ele”.

6. Morte de Tobias. - Depois destes acontecimentos, o velho Tobias e viveu ainda 42 anos, e cresceu, de dia a dia, no temor de Deus. Tinha 102 anos de idade, quando morreu. Após a morte de sua mãe, Tobias, o moço, partiu para a casa de seus sogros, a fim de cuidar deles em sua velhice. Ele também chegou a uma idade avançada e viu os filhos até à quinta geração. Faleceu na idade de 99 anos. Todos os seus parentes e descendentes perseveraram numa vida santa e foram bem aceitos por Deus e pelos homens.

B. - O REINO DE JUDÁ

(930 até 587 antes de Cristo)

72. O rei roboão e seus sucessores

1. Roboão. - O rei roboão cultuou algum tempo o Senhor. Todos os sacerdotes e levitas que se achegavam no reino de Israel vieram residir na Judeia. Também muitos homens piedosos de Israel não deixaram de ir a Jerusalém para adorar o verdadeiro Deus em seu templo. Mais tarde, Roboão e seu povo abandonaram a lei do Senhor, entregando-se à idolatria e a todas as iniquidades dos gentios. Por isso, Deus os entregou às mãos de seus inimigos; o rei do Egito invadiu o país tornando-o seu tributário.

2. Ozias. - Também o rei Ozias, um dos sucessores de Roboão, praticou durante muitos anos o que era justo aos olhos de Deus e governou prosperamente. Mas a felicidade inclinou-o ao orgulho. Certo dia, entrou no templo, para oferecer um sacrifício de perfumes. Opôs-se-lhe o sumo sacerdote, dizendo: Não te “compete a ti, ó rei, queimar incenso ao Senhor”. Ozias irritou-se e ameaçou o sacerdote com o turíbulo. No mesmo instante e à vista de todos, atacou-o a lepra é dela ficou coberto até a morte, como sinal visível do castigo de Deus.

3. Ezequias. - Ezequias foi um rei piedoso, segundo o coração de Deus. Fez tudo o que agradava ao Senhor; destruiu os ídolos retornou a celebrar as festas do Senhor com toda a solenidade. Por isso, Deus o recompensou e o auxiliou até por meios sobrenaturais. Durante seu reinado, Senaquerib, rei dos assírios, veio à frente do poderoso exército e sitiou Jerusalém. Ezequias, diante desse perigo, foi ao templo e implorou auxílio divino; e eis que na noite seguinte um anjo do Senhor matou 185 mil homens do acampamento dos assírios. A vista de tal mortalidade, Senaquerib levantou o cerco e voltou apressadamente para seu país, onde foi assassinado por seus próprios filhos. Pouco tempo depois, Ezequias caiu mortalmente enfermo. Deus mandou-lhe o profeta Isaías, que disse: “Dispõe de tua casa, porque vais morrer”. Ezequias implorou ao Senhor, entre lágrimas, a prolongação da vida. Deus ouviu sua oração e Isaías voltou anunciar-lhe que sua vida seria prolongada ainda por mais 15 anos, durante os quais teria um reinado próspero e feliz. E, com efeito, assim sucedeu.

4. Manassés. - Manassés, filho de Ezequias, era um ímpio e cruel. Colocou um ídolo no templo do Senhor e derramou muito sangue inocente. Como castigo, Deus deixou-o cair nas mãos dos assírios, que o levaram preso para Babilônia. Em suas desgraças, Manassés reconheceu a punição divina, humilhou-se e fez penitência. Deus teve compaixão dele, reconduziu-o para Jerusalém e restituiu-lhe o trono. Removeu dali, então, todos os ídolos e serviu a Deus com dedicação e fidelidade.

73. O profeta Isaías

1. Vocação de Isaías. - Isaías era descendente dos reis de Judá. No ano em que faleceu o rei Ozias, O profeta viu a mansão de Deus. O Senhor estava assentado no trono e levado; serafins o rodeavam. Clamavam uns para os outros: “Santo, santo, santo é o Senhor, Deus dos exércitos; cheia está toda a terra de sua glória” (Is 6,3). Um dos serafins, que trazia nas mãos uma brasa viva, tocou com ela os lábios de Isaías. Em seguida, Deus o enviou a pregar penitência ao povo.

2. Isaías prega a penitência. - Isaías disse ao povo: “Ouvi, céus, e tu, ó terra, escuta, porque o Senhor é quem fala! criei filhos e engrandeci-os; mas eles me desprezaram. O boi conhece o seu dono e o jumento o presépio de seu Senhor; mas Israel não me conheceu” (Is 1,2-3). - Lavai-vos, purificai-vos; afastai de meus olhos a malignidade de vossos pensamentos; cessai de praticar o mal; aprender a fazer o bem, procurai o que é justo e depois vinde falar comigo. Se vossos pecados forem como escarlate, eles se tornarão brancos como a neve; e, se forem vermelhos como a púrpura, ficarão alvos como a lã branca (Is 1,16-19). “Acaso pode uma mãe esquecer-se do seu filho, de sorte que não tenha compaixão dele? Mas, se ela se esquecer dele, eu não me esquecerei de ti. Eis, em minhas mãos te gravarei” (Is 49, 15-16).

3. Profecias sobre o Messias

a) Descendência de Davi. - Sairá um ramo do tronco de Jessé e uma flor brotará de sua haste; descansará sobre ele o espírito do Senhor (Is 11,1-2).

b) Seu nascimento duma virgem. - Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho; ele será chamado Emanuel, Isto é, Deus conosco (Is 7,14).

c) Sua divindade. - Nasceu-nos um menino, um filho nos foi dado. Repousa sobre seus ombros a soberania e chamam-no: o admirável, o conselheiro, Deus, o forte, o pai do futuro século, o príncipe da paz.

d) Seu precursor. - Voz do que clama no deserto: preparai os caminhos do Senhor, tornar direitas suas veredas. Os vales serão terraplanados, os montes e outeiros, arrasados, os caminhos tortuosos tornar-se-ão direitos e os escabrosos, planos, e toda carne verá o Salvador enviado por Deus (Is 40,3-5).

e) Adoração pelos reis do Oriente. - Levanta-te, esclarece-te, Jerusalém, porque chegou a tua luz e a glória do Senhor nasceu sobre ti. Uma inundação de camelos te cobrirá, de dromedários de Madian e de Efa (Arábia); todos virão de Sabá, trazendo-te ouro e incenso e anunciando louvor ao Senhor (Is 60,1-6).

f) Seu magistério. - O espírito do Senhor repousou sobre mim, porque o Senhor me deu sua unção divina; ele me enviou para evangelizar os humildes, para curar os contritos de coração, pregar remissão aos cativos e liberdade aos encarcerados; para publicar o ano de reconciliação do Senhor e o dia da vingança de nosso Deus (Is 61,1).

g) Seus milagres. - Dizei aos que têm coração perturbado: tomai ânimo e não temais. Deus fará a vingança e a retribuição. Ele mesmo virá salvar-vos. Então os olhos dos cegos verão a luz e abrir-se-ão os ouvidos dos surdos. Saltará o coxo como um veado e desatar-se-á a língua dos mudos (Is 35,4-6).

h) Sua paixão. - Eu entregarei meu corpo aos que me feriram e as maçãs de meu rosto aos que me arrancaram os cabelos da barba: não afastarei minha face dos que me cuspiam e me afrontavam (Is 50,6). Ele não tem beleza nem graça; seu aspecto em nada nos cativa. Foi feito um objeto de desprezo e a nossos olhos pareceu o último dos homens, um homem de dores. - verdadeiramente ele tomou sobre si nossas fraquezas e as nossas dores: e nós o consideramos como um leproso, como um homem punido por Deus é humilhado. - Mas ele foi ferido por causa de nossas iniquidades, foi quebrantado por nossos crimes: o castigo, que nos devia trazer a paz, caiu sobre ele e nós fomos curados graças às suas pisaduras. - todos nós andamos desgarrados como ovelhas, cada um se extraviou em seu caminho; e o senhor atraiu sobre si a iniquidade de todos nós. Foi imolado, porque ele mesmo o quis e não abriu a boca para queixar-se. Levaram-no para a morte como uma ovelha ao matadouro: e ele ficou calado como um cordeiro debaixo da mão que eu tosquia (Is 53,2-7).

i) Sua ressurreição e glória. - Todas as nações virão oferecer-lhe suas preces e seu sepulcro será glorioso (Is 11,10). Eu tenho enviei para seres a reconciliação do povo, para seres luz das gentes, para abrir os olhos aos cegos e para tirares da cadeia o preso, do cárcere aqueles que jazem nas trevas.

4. Profecia de Miquéias. - Ao mesmo tempo profetizou a respeito do Salvador o profeta Miquéias: “Tu, Belém de Éfrata, és pequenina entre as cidades de Judá; mas é de ti que há de sair aquele que deve reinar em Israel, e cuja geração é desde o princípio, desde os dias da eternidade” (Mq 5,2).

74. Judite

1. Betúlia sitiada. - Quando o reino de Judá estava já próximo de sua ruína, foi salvo ainda uma vez pela mão de uma mulher piedosa. Holofernes, general dos assírios, veio com grande exército conquistar o reino de Judá. Já se tinha apoderado de muitas cidades e sitiou também a praça forte de Betúlia; cortou os encanamentos d’água, de sorte que os habitantes ficaram em pouco tempo reduzidos a extrema penúria. Os magistrados tinham resolvido entregar a cidade aos inimigos, se no prazo de cinco dias não receber sem algum socorro.

2. Coragem de Judite. - Então Judite recolheu-se a seu oratório, cobriu de cinza a cabeça e implorou o auxílio do Senhor. Em seguida preparou-se com vestes riquíssimas e partiu para o acampamento dos assírios, acompanhada de uma criada; as sentinelas conduziram-na imediatamente à presença de Holofernes. Este contemplou-a com benevolência e deu-lhe permissão para sair do acampamento e voltar à cidade. No quarto dia, preparou Holofernes um grande banquete, para o qual convidou também Judite. Quando a noite já ia adiantada, deitou-se Holofernes, embriagado, em seu leito e adormeceu; os outros convivas retiraram-se para suas tendas; Judite aproximou-se então da cama do general e orou entre lágrimas: “Senhor, fortalecei-me nesta hora!” E, tirando da bainha a espada de Holofernes, cortou-lhe a cabeça; a criada escondeu-a num saco e ambas, como de costume, atravessaram o acampamento e entraram na cidade. Ainda nesta mesma noite, Judite mandou reunir o povo, mostrou-lhe a cabeça de Holofernes e exortou-o: “Louvai o Senhor, que por minhas mãos matou o inimigo de seu povo; seu anjo me guardou e não permitiu que eu fosse maculada por algum pecado”. Pela manhã os judeus atacaram com grande celeuma os assírios. Estes quiseram despertar seu general; mas, quando o encontraram estendido no chão sem cabeça, o pânico invadiu suas fileiras e fugiram desordenadamente. Os guerreiros de Betúlia os perseguiram e fizeram grandes presas.

3. Glória de Judite. - O ato heróico de Judite foi celebrado em todo país. Ozias, chefe do poder, abençoou-a: “Bendita és tu, minha filha, entre todas as mulheres da terra!” O próprio sumo sacerdote Joaquim veio de Jerusalém a Betúlia, para vê-la, e exclamou: “Tu és a glória de Jerusalém, a alegria de Israel, a honra de nosso povo. Procedeste varonilmente e te fortaleceste, porque amaste a castidade. Serás bendita por toda a eternidade!”. Judite ofereceu ao Senhor, no templo de Jerusalém, todos os tesouros de Holofernes. Viveu ainda muitos anos, dedicando-se como dantes, a uma vida santa e solitária; morreu com 105 anos de idade e todo o povo pranteou sua morte.

75. O profeta Jeremias

Fim do reino de Judá

1. Jeremias prega penitência. - Os habitantes do reino de Judá entregavam-se cada vez mais a iniquidade. Deus mandou-lhes o profeta Jeremias, que empregou todos os esforços para incitar o povo à penitência. Andava entre eles com uma canga ao redor do pescoço, anunciando-lhes os castigos de Deus. Finalmente-lhes disse: “Durante 23 anos exortei-vos diariamente a fazer penitência, mas desprezastes meus conselhos; em castigo, Deus enviará contra o país Nabucodonosor, rei da Babilônia. O país tornar-se-á deserto e durante 70 anos servireis ao rei da Babilônia.

2. Destruição do reino de Judá. - No ano 597 antes de Cristo, veio Nabucodonosor com numeroso exército, conquistou Jerusalém e conduziu muitos dos mais notáveis habitantes para Babilônia. Entre estes se achava Daniel e seus amigos. Pouco tempo depois voltou apoderou-se dos tesouros do templo rei mandou transportar para Babilônia ainda maior número de moradores, entre os quais o profeta Ezequiel. Mas os judeus que tinham ficado no país promoveram sempre novas rebeliões contra o domínio estrangeiro. Nabucodonosor, então, pela terceira vez, com um grande exército enfrentou Jerusalém e sitiou-a durante dois anos; depois desse prolongado cerco, que fez os habitantes sofrerem horrorosa fome, Jerusalém e o templo ficaram completamente arrasados e entregues às chamas. Todos os tesouros da cidade e os vasos sagrados do templo foram levados para Babilônia, sendo quase todo o povo obrigado a marchar para o exílio. Na Judéia ficou apenas um número muito limitado de habitantes pobres para cultivarem a terra. A arca da aliança, o tabernáculo e o altar dos perfumes não caíram nas mãos dos inimigos, porque Jeremias os tinha escondido numa caverna do monte Horebe. Assim acabou o reino de Judá, não era de 587 antes de Jesus Cristo, após uma resistência de 387 anos.

3. Lamentações, orações e profecias de Jeremias. - Ao profeta Jeremias foi permitido permanecer em Jerusalém; sentado sobre as ruínas da cidade, consolava seus concidadãos restantes e chorava sua infeliz pátria, proferindo comovedores lamentos.

a) Lamentações de Jeremias. - Jeremias lamentou neste cântico lúgubre (cujas alíneas estão dispostas segundo as letras do alfabeto hebraico) a destruição de Jerusalém. Ao mesmo tempo anunciava a vingança do Senhor contra aqueles que se alegravam com a desgraça que caiu sobre a cidade santa; recomendava ao povo sua conversão e exortava a pedir a Deus, sem cessar, o fim de sua miséria. Dizia ele: “Como está solitária esta cidade, outrora tão populosa. Apresenta-se triste, qual viúva, a senhora dos povos, a princesa das províncias, feita tributária. Inconsolável, chorou toda a noite; e suas faces estiveram sempre banhadas de lágrimas. De todos que a amavam não sobrou uma para a consolar; seus amigos a desprezaram e voltaram-se contra ela. A filha de Judá, para libertar-se dos rigores da escravidão, deixou sua pátria; o repouso que nela não achava, foi em vão buscá-lo entre as nações; seus pais a dominaram em sua dor extrema. Choram as ruas de Sião suas solenidades; destruídas estão as suas portas; gemem seus sacerdotes; choram as donzelas; a cidade vive na amargura. Seus adversários assenhorearam-se dela; seus inimigos enriqueceram-se com seus despojos; porque o Senhor, irritado com seus crimes, a havia antes condenado; seus filhos menores foram levados ao cativeiro, arrastados pelos opressores… Todo o seu povo, reduzido a mendigar, gemia sob o peso de sua miséria e dava o que tinha de mais precioso, para comprar pão e sustentar sua vida. Olhai, Senhor, e considerei a que estado de humilhação me vejo reduzida. Ó vós todos que passais pelo caminho, atendei e vede se há dor semelhante a minha dor… “

b) Oração de Jeremias. - Lembrai-vos, Senhor, dos males que temos sofrido; dignai-vos dirigir vossa visitas sobre o opróbrio que nos rodeia. Nossa herança é presa do estrangeiro e nossas casas estão em seu poder. Vemo-nos mais abandonados que os pupilos que perderam seus pais; e a angústia de nossas mães é semelhante a das viúvas. Vendem-nos por dinheiro a água que bebemos e somos obrigados a comprar a lenha que era nossa; fomos conduzidos atados e carregados como bestas, sem se permitir repouso ou cansados e fracos. Demos a mão aos egípcios e assírios e temos mendigado e entre eles o pão para sustentar-nos. Nossos pais pecaram e já não existem; e nós sofremos a pena que eles mereceram por seus crimes. Os escravos nos dominaram, e não houve quem pensasse em quebrar nossas cadeias. Com perigo de nossas vidas, saímos ao deserto, para buscar o alimento que no povoado se nos negava. Nossa pele, enegrecida como um forno, está seca e enrugada pelo excesso da fome.

c) Profecia de Jeremias. Jeremias profetizou também sobre o Salvador vindouro, anunciando-o nestes termos: “Eis que virão os dias em que farei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá. Suscitarei a Davi um rebanho justo, que restabelecerá o direito e a justiça na terra. Seu nome será: O Senhor, nossa Justiça” (Jr 33,14).

PARTE VII - DO CATIVEIRO DE BABILÔNIA ATÉ A VINDA DO SALVADOR

(587 antes de Cristo até seu nascimento)

76. O profeta Ezequiel

1. Ezequiel prega penitência. - Entre os judeus cativos em Babilônia achava-se também o profeta Ezequiel. Ele expôs diante dos olhos de seus patrícios exilados a justiça do castigo divino e exortou-os a uma conversão sincera. “Juro por minha vida, diz o Senhor Deus: eu não quero a morte do pecador, mas sim que se converta e viva” (Ex 33,11). Ao mesmo tempo consolou-os, dando-lhes a esperança de sua libertação. Para fortalecer-lhes ainda mais essa esperança contou-lhes sua visão em que Deus lhes revelara a reconstituição de seu povo predileto, com os israelitas disperso.

2. Visão de Ezequiel. - Ezequiel tinha sido transportado em espírito a uma planície cheia de ossos. Aí o senhor lhe disse: “Fala a esses ossos, em nome de Deus, que se tornem vivos”. Ezequiel fez o que lhe fora ordenado. Ouve logo uma esquisito sussurro; o osso aproximou-se do outro osso, e cada um de sua respectiva articulação; revestiram-se depois de nervos e de carne e por cima de tudo estendeu-se a pele. Mas faltava-lhe ainda o espírito vital. Tornou a falar então Deus ao profeta: “Dize ao espírito que sopre sobre estes mortos e os faça reviver”. Ezequiel cumpriu a ordem. Imediatamente o espírito entrou naqueles mortos, que viveram e se levantaram sobre seus pés, formando um exército numerosíssimo. Depois o Senhor acrescentou: “Esses ossos representam os israelitas. Eles dizem: Nossos ossos secaram-se, nossa esperança se desvaneceu. Mas eu lhes digo: vós sois meu povo, tornarei a introduzir-vos na terra de Israel; infundir-vos-ei meu espírito e sabereis então que sou eu o senhor!” (Ex 37,1-14).

3. Profecia de Ezequiel. - Ezequiel profetizou acerca do Redentor futuro: “Suscitarei para elas (ovelhas) um único pastor, que as apascente, meu servo Davi (isto é, Jesus Cristo), ele mesmo as apascentará e será eternamente seu pastor. Farei com elas um pacto de paz. (Ex 34,23)

77. Daniel e seus amigos

1. Sua Piedade. - Nabucodonosor escolheu entre as famílias nobres dos israelitas alguns moços hábeis e bem educados para servirem em seu palácio. Antes de serem admitidos, deviam preparar-se durante três anos. Mandou ensinar-lhes a escrita e a língua dos caldeus e quis que fossem servidos das iguarias e do vinho de sua própria mesa. Entre estes jovens escolhidos, encontrava-se Daniel com três amigos, Ananias, Misael e Azarias. Daniel, porém, tinha resolvido, em seu coração, cumprir a lei de Deus e não pecar pelo uso de alimentos proibidos. Pediu ao mordomo, por isso, que permitisse a ele e a seus amigos o uso exclusivo de água e legumes. O mordomo respondeu: “Tenho receio do rei; pois, se ele vir que vossos rostos estão mais magros do que os dos outros moços, poderá isto custar-me a vida”. Daniel replicou: “Experimenta somente durante dez dias; verás depois quem tem melhor feição - nós ou os outros moços; e procederás então como melhor te aprouver”.

2. Deus recompensa esses moços virtuosos. - No fim de dez dias, Daniel e seus três amigos tinham rostos mas formosos e mais corados que os outros jovens. Por isso, o mordomo continuou a servir-lhes apenas água e legumes. Deus deu-lhes notável ciência e grande sabedoria, conferindo também a Daniel o dom de explicar visões e sonhos. Decorridos três anos, os moços foram apresentados ao rei. Este conversou com eles e achou os quatro moços hebreus mas que instruídos e mais nutridos que todos os outros; satisfeito por isso, admitiu-os a seu serviço particular.

78. A casta Suzana

1. Sua constância. - Entre os judeus cativos em Babilônia vivia um homem rico e estimado, de nome Joaquim. Tinha uma mulher muito piedosa, chamada Suzana. Os judeus costumavam reunir-se em sua casa, onde tinham estabelecido o seu tribunal. Dois anciãos foram escolhidos para juízes, porque o povo os julgava homens retos; eram, porém, perversos. Contíguo à casa achava-se um pomar ajardinado. Susana tinha o costume de passear nele diariamente, durante as horas de maior calma; os dois juízes sabiam disto e tomaram a resolução de seduzir Susana ao pecado. Esconderam-se um dia no jardim; Susana entrou, sem de nada suspeitar, e fechou as portas, porque que desejava estar só. Os dois malvados aproximaram-se dela, dizendo: “as portas estão fechadas, ninguém nos vê; faze o que desejamos. Se não consentires, diremos que te surpreendemos numa ação criminosa”. Então Suzana suspirou e disse: “Prefiro cair em vossas mãos, sem ter cometido o mal, a pecar na presença do Senhor”. Depois gritou por socorro em alta voz. Os anciãos gritaram também e, diante das pessoas que acorreram, apresentaram sua falsa acusação contra Suzana.

2. Sua vocação. - Em caminho para o suplício, Deus inspirou o jovem Daniel, que gritou em alta voz, no meio do povo: “Eu sou inocente do sangue desta mulher; julgai-a outra vez, porque os juízes prestaram falso testemunho contra ela”. O povo voltou ao tribunal. Daniel mandou separar os juízes. Depois perguntou ao primeiro: “Debaixo de que árvore viste pecar esta mulher?” Ele respondeu: “Debaixo de um lentisco”. Daniel replicou: “É uma solene mentira, que pagarás conta a cabeça”. Em seguida mandou vir também o outro ancião, e perguntou-lhe: “Debaixo de que árvore a viste pecar?” Ele respondeu: “debaixo dum carvalho”. Reconheceu então o povo que a acusação contra Susana não tinha fundamento; todos louvaram a Deus, que sempre salva aqueles que nele confiam. O povo conduziu depois os dois criminosos para fora da cidade e os apedrejou. A partir desse dia, Daniel começou a ser muito considerado.

79. Sonho de Nabucodonosor

1. O sonho. - Certa vez, Nabucodonosor teve um sonho que muito o inquietou. Quando acordou, não se recordava do que tinha visto no sonho; convocou então todos os magos e adivinhos de Babilônia, exigindo que lhe dissessem o sonho que tinha tido e ao mesmo tempo a explicação. Os adivinhos de disseram: “não há no mundo homem algum que possa cumprir teu preceito; conta-nos tua visão e nós a explicaremos”. Esta resposta irritou o rei, que mandou matar todos os magos e adivinhos do império. Daniel e seus três amigos também deviam morrer; eles recorreram à oração e de noite Deus fez conhecer a Daniel a visão misteriosa. Daniel foi imediatamente a presença do rei e disse-lhe: “Há um Deus no céu que revela os mistérios e que te mostrou naquele sonho as coisas que hão de acontecer. Viste, ó rei, quando estava dormindo, uma grande estátua: a cabeça era de ouro; o peito e os braços de prata; o ventre e as coxas, de bronze; as pernas, de ferro; e os pés, parte de ferro e parte de barro. Uma pequena pedra, desprendida da montanha vizinha, sem que interviessem mãos humanas, rolou e foi esbarrar nos pés da estátua. O colosso se partiu e ficou reduzido a pó, ao passo que a pequena pedra cresceu até uma montanha grande, que ocupou toda a terra”.

2. Explicação do sonho. - Em seguida revelou Daniel ao rei a significação do sonho, dizendo: “O Deus do céu te concedeu o reino, o poder e a glória: és, portanto, a cabeça de ouro. Depois de ti virá outro reino menor que o teu: um reino de prata. O terceiro reino será de bronze e dominará toda a terra. O quarto reino, semelhante ao ferro, há de quebrar esmagar os outros reinos; mas será fraco ao mesmo tempo, e é por isso que viste metade dos pés de ferro metade de barro. Finalmente, o próprio Deus suscitará um império que devastará todos os reinos da terra e substituirá eternamente”. Nabucodonosor, então, prostrando-se em terra, disse: “Na verdade, vosso Deus é o Deus dos deuses e o rei de todos os reis!” Deu a Daniel magníficos presentes e o elevou à dignidade de príncipe de todos os países da Babilônia.

80. Os três jovens na fornalha ardente

1. Sua Constância. - Algum tempo depois, Nabucodonosor mandou erigir uma estátua de ouro. Para sua inauguração reuniu todos os príncipes do reino, é um arauto proclamou: “Logo que ouvirdes o som da trombeta, prostrai-vos por terra, para adorar a estátua. Quem não se prostrar e não adorar, será atirado, no mesmo instante, numa fornalha acesa”. Quando ressoou o toque das trombetas, todos obedeceram; somente Os três amigos de Daniel se conservaram de pé. Daniel mesmo não estava presente à festa. O rei encolerizou-se e disse: “Adorai a estátua, senão sereis lançados dentro do forno aceso! Quem é o Deus que vos poderá livrar da minha mão? Os jovens responderam: “nosso Deus pode salvar-nos da fornalha ardente e livrai-nos de tua mão! E, se ele não o quiser fazer, fica sabendo que, mesmo assim, não adoraremos nunca a estátua!” Ordenou então o rei que se aquecesse o forno com um fogo sete vezes mais forte que o de costume. Os três moços foram amarrados e atirados ao fogo com seus vestidos.

2. Sua salvação. - Um anjo do Senhor, porém, desceu imediatamente à fornalha e expeliu as chamas, de modo que abrasaram e mataram os homens que tinham arrojado ao forno os três jovens. No interior da fornalha o anjo introduziu uma temperatura fresca, como quando sopra a brisa da tarde; o fogo não tocou em nenhum dos moços; queimou apenas as cordas com que estavam amarrados e eles passeavam com o anjo no meio das chamas, cantando e louvando a Deus. Quando o rei olhou para dentro do forno, encheu-se de espanto e perguntou: “Não atiramos à fornalha três homens atados? Como é que vejo lá dentro quatro soltos, a passear, ilesos, entre as chamas? E o quarto é como um filho de Deus!” o rei aproximou-se então da fornalha e gritou: “Saí, servos de Deus altíssimo!” Os jovens saíram e todos viram que nem sequer um cabelo da cabeça estava chamuscado. Nabucodonosor exclamou: “Bendito seja o Deus deles, que enviou um anjo para salvar seus servos; quem blasfemar contra esse Deus, será punido de morte, pois não há Deus algum que assim possa Salvar”.

81. O ímpio Rei Baltazar

1. Profanação dos vasos sagrados. - Baltazar, o neto de Nabucodonosor, foi o último rei de Babilônia. Em certa ocasião, apesar de seus inimigos já estarem as portas da cidade, mandou preparar um lauto banquete, para os grandes do reino. Excitado pela embriaguez do vinho, ordenou que lhe trouxessem os vasos sagrados, tirados por Nabucodonosor do templo de Jerusalém, e serviu-se deles para beber com seus hóspedes. No mesmo instante, porém, apareceu na parede da sala uma misteriosa mão e ali escreveu algumas palavras; o rei empalideceu e tremia-lhe todo o corpo. Mandou chamar todos os sábios de sua corte, mas nenhum pode decifrar a escritura, nem interpretá-la.

2. Explicação da escrita. - Mandou então chamar Daniel, que ele disse com toda a franqueza: “Tu te levantas-te, ó rei, contra o Senhor do céu e profanaste os vasos sagrados de seu tempo. Por isso mandou Deus escrever na parede estas palavras: Mané, Tecel, Fares - Isto é: contado, pesado, dividido. A significação é esta: Deus contou os dias de teu reinado e lhe pôs termo; tu foste pesado na balança da justiça e achou que eras leve; teu reino será  dividido e dado aos medos e persas.

3. Castigo de Baltazar. - Ainda na mesma noite, Baltazar foi assassinado em seu palácio; os medos e persas conquistaram o país. Algum tempo depois conseguiu Ciro, rei dos persas, apoderar-se de todo o reino de Babilônia.

82. O ídolo Belo e o dragão

1. Daniel defende intrepidamente sua fé. - Os babilônios adoravam um deus chamado Belo. Ofereciam-lhe todos os dias trigo, vinho e muitas ovelhas. Ciro, rei dos persas, perguntou a Daniel: “Por que não adoras a Belo?” Daniel respondeu: “Eu adoro o Deus vivo, aquele que fez o céu e a terra”. O rei objetou: “Então pensas tu que Belo não é um deus vivo? Não vês quanto come e bebe todos os dias?” Daniel sorriu e disse: “Não te deixes enganar, ó rei! Esse Belo, feito de barro por dentro e de bronze por fora, nunca comeu coisa alguma”. Daniel procurou convencer o rei, e por isso, levou ao templo. Em sua presença, as iguarias foram colocadas sobre o altar, diante de Belo. Daniel espalhou depois cinza bem peneirada sobre todo o pavimento. Em seguida saíram e selaram a porta com o selo real. De manhã cedo, o rei voltou ao templo com Daniel: o selo estava intacto. Abriram a porta e, olhando para o altar, viram que as iguarias já não estavam lá. O rei exclamou logo: “Tu és grande, ó Belo, e nenhum engano há em ti” - Daniel sorriu, deteve O rei e apontou-lhe o chão. O rei, admirado, disse: “Vejo pegadas de homens, mulheres e crianças”. Examinando bem os lugares, deram com uma porta secreta, por onde os sacerdotes entravam de noite com suas mulheres e filhos para comer as ofertas. O rei, muito irado com esse embuste, mandou matar os sacerdotes pagãos e consentiu que Daniel destruísse o ídolo e seu templo.

2. Daniel mata o dragão. - Os habitantes de Babilônia adoravam também um grande dragão. O rei perguntou um dia a Daniel: “Afirmarás também que aquele não é um Deus vivo?” Daniel respondeu: “Dá-me consentimento que matarei o dragão sem pau nem espada”. O rei permitiu. Daniel pôs a ferver alcatrão, gordura e pêlos. Desta massa formou bolas e atiro-as à goela do Dragão, que morreu envenenado. Daniel disse: “Eis aqui o Deus que adoravas!”

83. Daniel na cova dos leões

1. O povo rebela-se contra Daniel. - Babilônia em peso se revolucionou ao saber dessa notícia. A multidão disse ao rei: “Entrega-nos Daniel, senão matar-te-emos e a toda a tua família”. O reis cedeu à violência e entregou-lhes Daniel; o profeta foi arremessado em uma caverna em que havia sete leões furiosos, aos quais se davam todos os dias corpos humanos e duas ovelhas. Nessa ocasião, de propósito, não lhe deram comida alguma, para que com maior voracidade devorassem Daniel, mas os leões o deixaram ileso; ficou Daniel seis dias na cova dos leões e já sentia fome. Nessa época vivia na Judéia um profeta chamado Habacuc. Ia ele ao campo levar o jantar a seus ceifeiros; apareceu-lhe um anjo do Senhor lhe disse: “Leva essa comida a Daniel, que está em Babilônia, na caverna dos leões”. Habacuc respondeu: “Senhor, eu nunca vi Babilônia, nem sei onde está a caverna”. Tomou-o então o anjo e o levou num instante a beira da cova. Habacuc gritou: “Daniel, servo de Deus, toma o jantar que o Senhor te envia!” Daniel, cheio de gratidão, respondeu “Ó meu Deus, vós vos lembrastes de mim! Só não abandonais quem vos ama”. Depois levantou-se e comeu. O anjo reconduziu logo Habacuc a sua casa.

2. Salvação de Daniel. - No sétimo dia, o rei veio em pessoa a caverna dos leões para chorar Daniel. Olhando para dentro, viu o profeta ileso e sentado no meio dos leões. Muito admirado, exclamou: “Como sois grande, Senhor Deus de Daniel!” Mandou imediatamente tirar Daniel da cova e atirar nela os inimigos do profeta. Estes foram num relance dilacerados e devorados pelas feras. O rei, ainda mais admirado, ordenou: “Temam todos o Deus de Daniel, porque ele é o Salvador, que opera milagres sobre a terra!”

84. Profecias de Daniel

Um dia, pedia Daniel a Deus a liberdade para seu povo e a reedificação de Jerusalém e seu templo. Apareceu o anjo Gabriel anunciou-lhe que sua oração fora ouvida.

1. Profecias sobre o Redentor. - Ao mesmo tempo o anjo disse-lhe: “Desde o tempo em que se expediu ordem para Jerusalém ser edificada pela segunda vez até ao Cristo chefe, passarão 7 semanas (de anos) e 62 semanas: e segunda vez serão edificadas as ruas e os muros na angústia dos tempos. Cessarão então as prevaricações: o pecado terá fim; a iniquidade será expiada; virá a justiça eterna; as visões e as profecias serão cumpridas. Depois de 62 semanas será morto o Cristo; e o povo que o há de negar não será mais seu povo” (Dn 9,23).

2. Profecia sobre a destruição de Jerusalém.  - “Um povo estranho virá com seu capitão e arrasará completamente a cidade e o santuário; e a desolação a que ela foi condenada lhe virá após o fim da guerra. O Cristo, porém, afirmará a muitos sua aliança, numa semana, e no meio da semana faltarão a hóstia e o sacrifício. Ver-se-á no templo a abominação da desolação e a desolação há de perdurar até a consumação e até ao fim” (Dn 9,24-27).

85. Os judeus voltam do cativeiro

1. A volta. - No 70º do cativeiro mandou o Ciro, rei dos persas, anunciar em todo o reino: “Todo aquele que pertencer ao povo de Deus volte para Jerusalém e reedifique o templo do Senhor!” mais de 40.000 israelitas saíram de Babilônia e se dirigiram para Jerusalém. À sua frente achavam-se o príncipe Zorobabel, da tribo de Davi, e o sumo sacerdote Josué. Ciro entregou-lhes também os vasos de ouro e de prata que Nabucodonosor tinha retirado do templo. Depois de sua volta erigiram em primeiro lugar o altar dos holocaustos, para oferecer desde logo os sacrifícios prescritos pela lei. Em seguida lançaram os alicerces do Novo Tempo. Quando se levantou o edifício, o povo manifestou sua alegria. Os anciãos, porém, que ainda tinha o visto o antigo Templo de Salomão, choravam em altos queixumes, por que o novo templo era muito inferior ao antigo em grandeza e esplendor. Para consolá-los e aumentar o zelo do povo pela edificação do templo, Deus enviou-lhes os profetas Ageu e Zacarias.

2. Ageu e Zacarias. - Ambos predisseram que o Redentor entraria no templo novo e na cidade nova. Ageu disse: “Pouco tempo ainda e eu comoverei o céu e a terra, o mar e todo o universo. Moverei todas as nações e virá o desejado de todos os povos e eu encherei de glória esta casa. A glória desta segunda casa será maior do que a da primeira” (2,7-10). Zacarias disse:

a) “Estremece de alegria, filha de Sião! Eis teu rei, que vem a ti, justo salvador. É pobre e monta um jumento e uma jumentinha” (9,9).

b) Predisse também a traição de Judas: “Pesaram meu salário de pastor trinta moedas de prata. E o Senhor me disse: Atira ao estatutário (oleiro) esse dinheiro, essa bela soma que eles creram que eu valia, quando me puseram a preço. Eu tomei as 30 moedas de prata e a tirei as na casa do Senhor, para o estatutário” (9,12).

c) Sobre a paixão falou nestes termos: “Volveram os olhos para mim, a quem traspassaram” (12,10).

3. Esdras e Neemias. - Oitenta anos mais tarde, o sacerdote Esdras reconduziu do exílio um número maior de israelitas. Seguiu-lhe (450 antes de Cristo) Neemias, o copeiro do rei da Pérsia, que obteve do soberano a licença de reconstruir também as muralhas de Jerusalém. Os samaritanos procuravam impedir a reconstrução, mas os judeus trabalhavam com uma das mãos e com a outra repeliam o inimigo. Deste modo as portas e torreões foram construídos em 52 dias. Depois celebraram os judeus com grande entusiasmo a festa dos tabernáculos. Esdras leu diante do povo reunido a lei de Moisés e todos renovaram a aliança que o Senhor fizera com seus pais.

4. Malaquias, o último profeta. - Em breve, porém, os judeus voltaram a praticar atos proibidos pela lei e até os sacerdotes se tornaram negligentes no serviço sagrado. Enviou então Deus, pelo ano 400, o profeta Malaquias, que reprovou a infidelidade do povo e disse aos sacerdotes: “Nenhum prazer mais acho em vós, diz o Senhor dos exércitos; não aceito oblação alguma de vossas mãos, porque desde o nascente do sol ao poente será meu nome glorioso entre os povos e em todo o lugar há de ser sacrificada e oferecida a meu nome uma oblação pura (1,10,11). Malaquias profetizou também sobre o precursor do Salvador: “Eis que mando meu anjo, a fim de que ele me prepare o caminho. E logo o Dominador que vós buscais e o anjo do testamento que vós desejais virão ao templo” (3,1). Desde então, Deus não tornou a enviar profetas a seu povo. Providenciou, porém, para que os livros dos profetas e outros livros santos fossem traduzidos da língua hebraica para língua grega. Assim também os gentios obtiveram um meio de conhecer a religião dos judeus e profecias acerca do Redentor.

86. Ester

1. Mardoqueu e Ester. - Entre os judeus que preferiram ficar no reino dos persas, vivia um homem muito considerado, da tribo de Benjamim, chamado Mardoqueu. Tinha adotado e criado uma filha de seu irmão, chamada Ester. Esta agradou tanto ao rei Assuero que a recebeu por sua esposa e a proclamou rainha. Mardoqueu, porém, não deixou de dispensar seus cuidados à filha adotiva e todos os dias vinha ao palácio a fim de obter notícias dela.

2. Orgulho e crueldade de Amã. - Algum tempo depois, Amã foi elevado a primeiro-ministro do reino. Orgulhoso exigia que todos os súditos se ajoelhassem diante dele, quando aparecer em público. O piedoso Mardoqueu, porém, não o fez, porque não quis prestar a um homem a honra devida unicamente a Deus. Amã se irritou muito com isso e jurou aniquilá-los, a ele e a todos os judeus do Império persa. Persuadiu, por isso, o rei de que os judeus estavam maquinando uma revolta contra as leis do país. O rei, acreditando em sua falsa denúncia, disse-lhe: “Fase desse povo que te aprouver!” Amã mandou logo expedir, em nome do rei, ordem para matar, num dia determinado, todos os judeus do império.

3. Ester na presença do rei. - Mardoqueu participou a Ester o perigo que se aproximava e pediu que ela se apresentasse ao rei, a fim de interceder por seu povo. Entre os persas, porém, era proibido, sob pena de morte, aparecer diante do rei, sem ser chamado. Por isso, pediu Ester e Mardoqueu: “Orai e jejuai comigo durante três dias; depois, apresentar-me-ei ao rei, arriscando minha vida”. No terceiro dia Ester se dirigiu a presença do rei. Vendo-a chegar, os olhos do monarca cintilaram de furor e Ester caiu desmaiada. Deus comoveu, então, o coração do rei, que disse: “Não temas, Ester, não morrerás. A lei foi feita para todos os outros, mas não atingirá a ti. Qual é teu desejo?” Ester respondeu: “Digne-se o rei vir amanhã, em companhia de Amã, ao banquete que preparei; manifestarei então meu desejo!” O rei lho prometeu. Amã saiu satisfeito do palácio real, mas, à porta, encontrou Mardoqueu, que nem sequer se levantou à sua presença. Encolerizou-se Amã e mandou erguer uma forca de 50 côvados de altura, paralela enforcar Mardoqueu.

4. O rei honra Mardoqueu. - Nessa noite o rei não pôde dormir. Para distrair-se, mandou ler os anais do reino; tendo ouvido ler que outrora Mardoqueu salvara a vida do rei, indagou: “Que recompensa recebeu esse homem por sua fidelidade?” Disseram-lhe: “Nenhuma”. Neste momento Amã acabava de entrar na sala das audiências, a fim de apresentar ao rei seu requerimento para enforcar Mardoqueu. O rei chamou-o à sua presença e perguntou-lhe: “Como deverá o rei tratar um homem a quem queira honrar?” Amã, pensando que se tratava de uma pessoa, respondeu: “Deverá vestir esse homem com vestes reais, fazê-lo montar no cavalo do próprio rei e pôr-lhe na cabeça a coroa real. O primeiro dos príncipes levará o cavalo pelas rédeas e clamará adiante dele, pelas ruas da cidade: Assim será honrado a quem o rei quer honrar”. O rei recomendou a Amã: “Vai depressa e faze ao judeu Mardoqueu tudo o que disseste”. Amã executou a ordem do rei e voltou depois acabrunhado para casa.

5. Ester salva os judeus. - Quando Amã regressava para casa, chegaram os mensageiros do rei, que o convidavam a ir ao banquete da rainha. Durante o banquete perguntou ao rei: “Qual é teu desejo Ester? Ainda que me peças a metade do meu reino, dar-to-ei”.  Ester respondeu: “Grande rei, achei graça diante de teus olhos! Concede a vida a mim e a meu povo, pois está decretado que nos matarão, a todos, no mesmo dia”. Inquiriu então o rei: “Quem ousa fazer isto?” Ester respondeu: “Nosso perseguidor e cruel inimigo é Amã”. O rei levantou-se, irado, e saiu para o jardim. Um de seus camaristas disse; “Em frente da casa de Amã levanta-se uma forca de altura de 50 côvados. Ele a mandou preparar para Mardoqueu”. O rei decidiu: “Pois enforcai nela o próprio Amã!” No mesmo dia Mardoqueu foi elevado a primeiro-ministro do rei, em substituição a Amã. Novas ordens do rei revogaram o edito de extermínio. Os judeus, cheios de contentamento e gratidão, instituíram uma festa especial, para comemorar essa libertação.

87. Heliodoro tenta roubar o tesouro do templo - Martírio de Eleazar

1. Os judeus sob o domínio de vários povos. - Os judeus, que tinham regressado para sua pátria, viveram 200 anos em paz e sossego, sob o domínio dos persas. Alexandre Magno, rei da Macedônia, conquistou depois o reino dos persas. Também ele se mostrou favorável aos judeus, oferecendo até sacrifícios no templo de Jerusalém. Logo que Alexandre faleceu, desmembrou-se seu grande império, e os judeus, durante cem anos, ficaram sujeitos ao domínio pacífico dos reis do Egito. No ano 200 antes de  Cristo, caíram em poder dos reis da Síria, que os sobrecarregaram de pesados impostos e os perseguiram cruelmente.

2. O roubo de Heliodoro. - Um dos reis da Síria ouviu falar das grandes riquezas do templo e que seria fácil apossar-se delas. Enviou, por isso, Heliodoro, seu primeiro ministro, a Jerusalém, para trazer o tesouro. O sumo pontífice Onias objetou-lhe, porém, que o dinheiro depositado no templo era destinado à manutenção das  viúvas e dos órfãos. Heliodoro, assim, exigiu que todo o dinheiro lhe fosse entregue e dirigiu-se com seus soldados à sala do tesouro. Mas, nesse momento, aproximou-se um cavaleiro, montado em um cavalo magnificamente ajaezado, que os encheu de assombro e os estarreceu. O cavalo atirou-se contra Heliodoro e escoiceou-o; ao mesmo tempo, dois jovens de grande beleza puseram-se a flagelar o intruso. Heliodoro caiu e foi levado como morto, em uma rede, para fora do templo. Onias intercedeu por ele junto do altissimo, a fim de que lhe poupasse a vida. Heliodoro voltou a sí e ofereceu a Deus um sacrifício fazendo votos importantíssimos. Voltou depois com seu exército, atestando a todos a obra do grande Deus que vira com seus próprios olhos. Ao rei ele disse: “Quando tiverdes um inimigo, mandai-o lá, que ele, se voltar, virá rudemente castigado. O grande Deus que mora no céu vela em pessoa sobre aquele lugar e o protege”.

3. Firmeza de Eleazar. - O pior dos reis da Síria foi o orgulhoso e cruel Antíoco. Saqueou ele o templo de Jerusalém e mandou erigir nele um ídolo; proibiu, sob pena de morte, que  se observasse a lei de Moisés e prescreveu o culto dos ídolos. Muitos judeus tiveram a desgraça de se tornar infiéis à sua crença; outros, porém, preferiram morrer e renegar sua fé e ofender a Deus. No número desses achava-se o venerando Eleazar, ancião de 90. Quiseram obrigá-lo também a comer carne de porco, que era proibida pela lei de Moisés; quando o submeteram a torturam, seus amigos quiseram, por falsa compaixão, trazer-lhe às escondidas carne permitida, a fim de fazer acreditar aos soldados do rei que ele comia carne de porco. Desse modo queriam salvá-lo da morte, mas o velho respondeu: “Esse fingimento é indigno da minha idade avançada. Muitos dentre os moços poderiam pensar que Eleazar, aos 90 anos de idade, se fez pagão, e, talvez, fossem tentados a imitar-me; atrairia assim sobre minha velhice a maldição e a vergonha. Do que me serviria evitar agora o martírio preparado pelos homens? Eu não poderia escapar da mão do Altíssimo, nem vivo nem morto; é pior isso que o bom grado quero morrer em defesa das nossas santas leis, deixando à mocidade um exemplo de firmeza”. Depois destas palavras, arrastaram-no ao suplício; já próximo a expirar, suspirou: “Senhor, eu sofro estas dores cruéis em meu corpo, mas na alma sinto alegria de morrer cumprindo vossos mandamentos”. Assim faleceu Eleazar, deixando, não só à mocidade, mas também a toda a sua nação, um admirável exemplo de firmeza e fidelidade ao serviço de Deus.

88. Martírio dos irmãos macabeus

1. Martírio do filho mais velho. - Antíoco intimou também uma mãe com sete filhos e mandou que comessem carne de porco. Quando se recusaram, foram açoitados com chicotes e azorragues. O mais velho dos irmãos disse corajosamente ao rei: “Preferimos morrer a desrespeitar a lei de Deus!” Cheio de raiva, mandou cortar-lhe a língua, arrancar-lhe a pele da cabeça, decepar-lhe as mãos e os pés e atirá-lo, ainda respirando, num braseiro. A mãe e os irmãos, que assistia ao suplício, animavam-se a igual coragem.

2. Martírio dos cinco irmãos seguintes. - Morto o primeiro, os algozes levaram o segundo para ser martirizado. Arrancaram-lhe a pele da cabeça e perguntaram-lhe se queria comer carne de porco. Respondeu resoluto: “Não o farei”. Sofreu, por isso, o mesmo martírio que seu irmão. Nos últimos momentos, disse ao rei: “Tu, ó rei malvado, nos tiras agora a vida presente, mas o Rei do céu e da terra nos há de ressuscitar um dia, para a vida eterna!” O terceiro estendeu voluntariamente as mãos, dizendo: “De Deus as recebi e dele espero tornar a recebê-las um dia”. Morreu como o primeiro e o segundo. Foram martirizados em seguida o quarto, o quinto e o sexto dos irmãos. Todos morreram com igual heroicidade, a ponto de o rei e sua gente pasmarem diante de tal constância.

3. Martírio do filho mais moço e sua mãe. -  Quando chegou a vez do mais moço, Antíoco prometeu fazê-lo rico e feliz, se ele abandonasse a lei de seus pais; mas o jovem não fez caso dessa promessa. O rei chamou então a mãe para que persuadisse o filho a salvar a vida. A mãe aproximou-se do filho e, apertando-o contra o coração, falou-lhe na língua pátria que o rei não entendia: “Peço-te, meu filho, a que contemples o céu, a terra e tudo quanto neles se contém; lembra-te que foi Deus quem fez tudo do nada; não temas, portanto, o verdugo e aceita de bom grado a morte, a fim de que eu te encontre com teus irmãos na vida eterna!” Enquanto ela ainda falava, o menino disse aos algozes: “Que esperais ainda? Não obedecerei às ordens do rei; mas, sim, às leis de Deus!” Voltou-se então para o rei e exclamou: “Nós sofremos por causa de nossos pecados, porém em breve, o Senhor tornará a reconciliar-se conosco; mais tu, homem ímpio e perverso, não escaparás ao juízo de Deus; teu orgulho será castigado”. O rei, exasperado de raiva, mandou atormentá-lo ainda com mais crueldade do que a seus irmãos. Por fim também a mãe sofreu o martírio.

89. O sacerdote Matatias. Morte de Antíoco

1. O sacerdote Matatias. - Com crueldade cada vez maior, Antíoco perseguia os costumes judaicos. Mandou emissários a todas as cidades, com ordem de forçarem os judeus a apostasia. Na cidade de Modim, vivia o sacerdote Matatias, com seus cinco filhos. Apresentou-se-lhe um emissário; matatias e seus filhos não se abalaram. Quando um judeu se adiantou para o altar, a fim de se sacrificar aos ídolos na presença do povo, Matatias atirou-se contra ele e o prostrou morto, no mesmo lugar; matou também o enviado de Antíoco. Depois disso, percorreu a cidade, clamando em alta voz: “Quem tiver zelo pela lei, siga-me!” Em breve reuniram-se os judeus fiéis e, guiados por Matatias, derrotaram as tropas do rei e destruíram todos os altares dos ídolos, matando os idólatras.

2. Morte de Antíoco. - Sabendo da resistência dos judeus, quis vingar-se. Meteu-se a caminho para a cidade de Jerusalém, a fim de torná-la sepulcro de todos os judeus. Deus feriu-o, porém, de uma doença incurável; todavia, Antíoco não quis renunciar à viagem e instiou com o ficheiro para que marcasse o mais rapidamente possível. Caiu então do carro, ficando gravemente confundido; saiam-lhe vermes do corpo e a carne caia-lhe de podre, exalando cheiro tão mal que ninguém ou podia suportar. Em sua infelicidade, arrependeu-se de seus crimes, orou a Deus e prometeu oferecer presentes valiosos ao templo de Jerusalém; seu arrependimento, porém, não era sincero e apenas fazia essa promessa por medo da morte. Por isso Deus não o ouviu e deixou morrer esse assassino blasfemador no meio de terríveis sofrimentos.

90. Judas Macabeu

1. Sua confiança em Deus. - Quando Matatias faleceu, seu filho Judas tomou o comando do exército dos judeus contra os sírios. Por causa de sua valentia, recebeu o apelido de Macabeu, que significa martelador. Os inimigos contra quem Judas tinha de lutar eram muito numerosos, mas ele pôs toda a confiança em Deus e alcançou grandes vitórias. Em certa ocasião, Judas enfrentava um exército de 40 mil sírios. A pequena força que comandava, amedrontada, quis fugir; mas Judas os animou: “Não temas: o próprio Deus os esmagará a nossa vista”. Cheio de fé, precipitou-se sobre os inimigos e os desbaratou.

2. Nova dedicação do templo. - Depois de outras vitórias, Judas conduziu seu exército à Jerusalém, e libertou a cidade e o templo das mãos dos gentios. O Santuário estava devastado, e o mato crescia no átrio. Judas ordenou o primeiro um grande luto: depois desalojou da cidade todos os sírios, purificou o lugar santo profanado, construiu um novo altar de holocaustos e mandou fazer um novo mobiliário sagrado. Festejaram durante 7 dias a dedicação do altar e ofereceram muitos sacrifícios. Para fortificar a montanha de Sião, Judas mandou construir um recinto de altas muralhas, guarnecidas de torres fortes.

3. Proteção dos anjos. - Passado algum tempo, os sírios reapareceram, com um grande exército, para subjugar os judeus. Judas e seus companheiros invocaram a proteção de Deus e, assim fortificados, marcharam para o combate. Quando ia mais renhida a peleja, viram-se descer do céu cinco moços brilhantes, montados em cavalos com freios de ouro; dois deles colocaram-se aos lados de Judas, cobrindo-o com suas armas. Os outros três arremessavam dardos e relâmpagos contra os inimigos. Estabeleceu-se a desordem entre os sírios e mais de 20 mil homens perecerão.

4. Sacrifício pelos defuntos. - Noutra batalha ganha contra os sírios, muitos judeus caíram mortos no campo da luta. Quando, no dia seguinte, Judas e seus soldados vieram para sepultados, encontraram em suas vestes muitos objetos consagrados aos ídolos e que a lei mosaica proibia trazer consigo. Todos viram então claramente a causa da morte de tantos patrícios; pediram a Deus que lhes perdoasse o pecado. Judas organizou uma subscrição, que rendeu 12000 dracmas de prata, e mandou-as a Jerusalém, para que se oferecessem sacrifícios pelos mortos; pois dizia ele: “é um santo e salutar pensamento orar pelos mortos, para que sejam livres de seus pecados”.

5. A visão de Judas. - Pouco tempo depois, o general sírio Nicanor investiu, com poderoso exército, contra Jerusalém. Judas tinha apenas 30000 homens para a defesa; durante a noite que precedeu a batalha, foi confortado por uma visão. Viu o falecido pontífice Onias estender-lhe as mãos e orar pelo povo judaico. Logo depois, apareceu-lhe outro homem, cercado por uma auréola de grande glória. Onias disse: “Este é Jeremias, o profeta de Deus, que tantas vezes orou por seu povo e pela cidade santa”. Jeremias deu a Judas uma espada de ouro, dizendo: “Recebe a espada de Deus, com a qual vencerás os inimigos de meu povo!” Judas comprou este sonho aos seus, que, cheios de confiança, mancharam para o combate. Rezando, combatia os inimigos e sob seus golpes caíram mortos 35000 homens; o resto do exército sírio fugiu.

6. Morte heróica de Judas. - Assim Judas, ajudado por Deus, ia vencendo todos os inimigos de Israel. Antes da última batalha, grande parte dos judeus, levados pelo medo, abandonaram seu chefe; somente 800 homens lhe ficaram fiéis. Também alguns destes lhe aconselhavam a retirada. Judas, porém, protestou: “Deus nos livre de fugir! Se for chegada a nossa hora, morramos corajosamente por nossos irmãos, mas não manchemos nossa honra”. Dizendo isto, atacou o inimigo; mas pereceu, depois de forte resistência (160 antes de Cristo); todo o povo deplorou por muito tempo sua morte.

91. Últimos tempos antes de Cristo

1. Realizasse a profecia de Jacó. - depois da Morte de Judas, foram escolhidos sucessivamente seus dois irmãos, Jônatas e Simão, para chefes do povo. Também estes praticaram obras valiosas e libertaram o país completamente do domínio dos sírios. Mais tarde, porém, começou para a família dos Macabeus uma decadência profunda, porque seus sucessores disputavam entre si a coroa. De comum acordo, tomaram Roma por árbitro. Pompeu,entrou, por isso, na Judéia, à frente do exército romano, apoderou-se de Jerusalém e nomeou governador da Judéia o idumeu Antipater (40 antes de Cristo); seu filho Herodes conseguiu de Roma a dignidade de rei dos Judeus. Para conciliar a submissão do projeto, mandou construir, pouco a pouco, em proporções grandiosas, o templo de Zorobabel. Este terceiro templo foi que presenciou mais tarde a entrada triunfal do divino Salvador. Estava então realizada a profecia do patriarca Jacó: O cerco será tirado de Judá. Aproximava-se, portanto, o tempo marcado para vinda do Salvador.

2. Decadência do judaísmo. - Os judeus, em virtude de diversos castigos com que Deus os visitou, renunciaram finalmente, para sempre, à idolatria; nos últimos tempos perseveraram na crença de um Deus verdadeiro. Todavia a maior parte só o servia pelas obras exteriores do culto religioso, enquanto seu coração recaía mais e mais em pecados e vícios. O mal era fomentado pelas seitas dos fariseus e saduceus, que abafavam totalmente o sentimento religioso ainda existentes no povo. Os fariseus observavam os mandamentos de Deus só segundo a letra. ostentavam pontualidade meticulosa em pagar o dízimo, guardar o sábado, cumprir o jejum e usar as abluções. Acrescentavam, porém, às ordens de Deus, práticas vãs e superstições. Gozavam, por isso, junto ao povo, de alta consideração que aproveitavam-se desta para fins políticos. Essas aparências de virtude, porém, ocultavam uma corrupção profunda; eles não passavam de vis hipócritas. Esperavam o Messias, mas só como o rei poderoso que libertasse o povo judaico do domínio dos romanos. Os saduceus negavam a imortalidade da alma, a ressurreição da carne e a recompensa após a morte. procuravam, por isso, sua felicidade no gozo dos bens deste mundo e passavam uma vida pecaminosa. Contudo existia um certo número de judeus verdadeiramente piedosos, que esperava com ansiedade a vinda do Salvador prometido. Com o profeta Isaías rezavam: “Ó céus, deixai cair vosso orvalho; que as nuvens chovam o justo. Abra-se a terra e germine o Salvador” (Is 45,8).

3. A corrupção entre os gentios. - Mais triste ainda era a condição dos gentios, submergidos em vícios hediondos e em profunda miséria. Por intermédio dos judeus que viviam no meio deles, obtiveram conhecimento das profecias a respeito do Salvador esperado e muitos deles desejavam também sua linda. Por desígnio da Divina Providência, todas as nações conhecidas achavam-se naquele tempo sob o domínio dos romanos. Portanto, nem a variedade da linguagem, nem os diferentes limites, impediram a difusão da doutrina de Jesus Cristo. Os romanos haviam conquistado praticamente todo o mundo conhecido de então. Tinha chegado a plenitude dos tempos e com ela devia aparecer na terra aquele que já no paraíso fora prometido: o Salvador dos homens - Jesus Cristo, Filho de Deus, bendito e louvado para sempre.